Durante a Bienal do Livro de São Paulo 2026, entrevistamos a autora Giu Yukari Murakami sobre a publicação de Flauta de Bambu, pela Editora Rocco, que chegou às livrarias como uma das apostas mais originais da literatura infantojuvenil brasileira neste ano.

Nesse bate-papo com a autora, Rafael Nery pergunta sobre a mistura de memória, representatividade e a jornada de Aiko Watanabe, além do trabalho com o ilustrador Hiro Kawahara, tudo sobre a história de uma adolescente nipo-brasileira que vive em Belém e é convocada pela avó a reencontrar uma amiga desaparecida desde os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.
Confira no vídeo abaixo com a entrevista na íntegra e conheça mais sobre o trabalho da autora continuando o post.
Tudo começa em Belém e atravessa gerações
Aiko leva uma vida aparentemente comum na capital paraense, mas tudo muda quando sua batchan, que significa “avó” em japonês, revela uma história antiga: Kimiko, a melhor amiga de infância da idosa, teria sido levada por uma criatura marinha em meio a uma pororoca, durante a fuga das duas do Japão ao Brasil. O que parecia apenas uma lembrança dolorosa se transforma em uma missão quando Aiko descobre que seus sonhos fantásticos e as histórias da avó se entrelaçam de forma inquietante.

À medida que mais uma pororoca se aproxima, a protagonista passa a ver sinais estranhos: fios vermelhos que brotam de suas mãos, imagens de uma guerra e a figura de Kimiko pedindo ajuda. Com o apoio de Nilo, seu melhor amigo, e do tio Noboru, a jovem mergulha em segredos familiares, lendas japonesas e memórias que atravessam gerações. Entre o real e o fantástico, ela descobre que recebeu da batchan um objeto de grande poder: uma simples flauta de bambu capaz de abrir caminhos nas águas e de revelar verdades escondidas.
Amazônia e Japão se encontram na pororoca da identidade
O fenômeno natural da pororoca, o choque entre as águas do rio Amazonas e do oceano Atlântico, serve como cenário e metáfora perfeita para a obra de Giu Yukari Murakami. Em entrevista, a autora paraense, neta de imigrantes japoneses, explica que a própria vivência amazônida e nipo-brasileira foi determinante para a criação do universo do livro, onde não existe separação quando há intersecção entre culturas.

Em Flauta de Bambu, a pororoca deixa de ser apenas um espetáculo da natureza para se tornar símbolo de identidade, família e pertencimento. Nas margens amazônicas e nas memórias do Japão, Aiko enfrentará ondas que trazem mais do que força: carregam destinos, reencontros e despedidas. A aventura transforma-se em um percurso de autodescoberta no qual realidade e imaginação se misturam, revelando que amizade e memória são fios que conectam pessoas, lugares e modos de viver.
Yokais, racismo e dilemas de identidade na jornada de Aiko
Ao lado de Nilo, Aiko enfrenta racismo, conflitos familiares e dilemas de identidade enquanto desvenda a história da avó e, por meio da música de uma flauta mágica, descobre a força dos laços familiares e culturais. A narrativa não poupa a protagonista de tensões típicas da adolescência: o bullying na escola, as brigas constantes dos pais e a dificuldade de acreditar em histórias que, no início, parecem apenas lendas.

A jornada atravessa a Amazônia, navega nas ondas da pororoca e encontra o universo fantástico de yokais e encantados, mesmo que no começo Aiko não acredite em nada disso. Misturando tradição, amizade e coragem, Flauta de Bambu é uma aventura empolgante que fala de heranças culturais e descobertas pessoais, convidando o leitor a atravessar, junto com a protagonista, as águas turbulentas que separam o presente e o passado.

Da advocacia à fantasia com raízes no Norte
Giu Yukari (縁) Murakami (村上) é paraense e neta de imigrantes japoneses. Suas narrativas trazem aspectos identitários de sua vivência amazônida e asiático-brasileira, e ela já publicou contos em inglês e japonês. Em 2023, seu conto “Nas bordas de quem eu sou” foi exposto no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e, em 2025, sua história “Pelas mãos de batchan” foi adaptada para o audiovisual pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar.

Advogada de formação, ela tem se dedicado à escrita de literatura infantojuvenil e jovem adulta, com destaque para temas de fantasia, ancestralidade e representatividade nipo-brasileira. Em entrevistas, ela destaca a importância de construir pertencimento por meio das histórias e de mostrar que a cultura amazônica e a ancestralidade japonesa podem se encontrar em uma mesma narrativa sem perder suas especificidades.
O trabalho inconfundível de Hiro Kawahara
Hiro Kawahara quase foi biólogo, mas decidiu ser ilustrador, diretor de arte e quadrinista, em uma carreira de mais de trinta anos. Nesse período, criou e ilustrou as toalhinhas de bandeja do McDonald’s por vinte anos, publicou sete livros, ganhou o prêmio Cátedra Unesco PUC de destaque de literatura juvenil em 2017 e, em 2025, recebeu o primeiro prêmio do 18º Japan International Awards, uma das maiores premiações de quadrinhos do mundo.

Para Flauta de Bambu, o ilustrador passou por um intenso processo de imersão e pesquisa conduzido pela autora para capturar fielmente a identidade do Norte, incluindo detalhes minuciosos como o grafismo das embarcações paraenses tradicionais. Com 328 páginas, o livro conta com projeto visual e ilustrações que reforçam a atmosfera de mistério e fantasia, equilibrando elementos do folclore japonês e da cultura amazônica.
O livro pode ser adquirido no site da Editora Rocco e em principais livrarias do país, incluindo plataformas online e lojas físicas. Para quem acompanha a autora, Giu Yukari Murakami mantém presença ativa nas redes sociais sob o perfil @giuyukarimurakami, compartilhando novidades sobre projetos, leituras e participações em eventos literários.