Uma Viagem de Sorte, de Yasushi Kitagawa, chega ao Brasil pela Editora Intrínseca como uma daquelas histórias pensadas para acalmar o coração sem fugir da melancolia que nos faz humanos. Em 192 páginas, o autor japonês constrói uma healing fiction leve, afetuosa e cheia de pequenas viradas, na qual um táxi misterioso conduz um homem à beira do colapso para encontros inesperados com a própria vida.
É a primeira obra de Kitagawa publicada por aqui, e a edição brasileira chega com tradução de Natália Rosa, classificação indicativa de 10 anos e um tom que conversa tanto com leitores de literatura japonesa contemporânea quanto com quem busca um romance reconfortante para ler em uma tarde.

Shūichi Okada acredita ser o homem mais azarado do Japão. Corretor de seguros, ele encara uma rotina sufocante, uma filha que se recusa a ir à escola e uma mãe distante que, de repente, passa a cobrar uma visita. Quando perde vinte clientes em um único dia, precisa cancelar a viagem em família que tanto aguardava e ainda arcar com o reembolso dos negócios desfeitos. É nesse ponto de esgotamento financeiro e emocional que surge o táxi: um veículo estranho, conduzido por um motorista que afirma saber mudar a sorte das pessoas e promete levar Shūichi não ao destino que ele deseja, mas àquele em que sua próxima chance de felicidade o espera.

A partir daí, o livro se organiza como uma sequência de deslocamentos quase oníricos. A cada corrida, Shūichi é levado a situações que o obrigam a olhar para o próprio passado, para os vínculos que negligenciou e para a forma como enxerga o mundo. O taxista funciona menos como um personagem de respostas prontas e mais como um guia esquisito, bem-humorado e enigmático, aquele tipo de figura que aparece na ficção japonesa para dizer pouco, observar muito e provocar mudanças enormes em quem está no banco de trás. A premissa é simples, mas eficiente: a sorte não é um prêmio aleatório, e sim algo construído aos poucos por escolhas, atenção e disposição para agir.

Quem aprecia A Casa das Folhas Vermelhas, de Michiko Aoyama, ou as histórias silenciosas e reconfortantes de Antes do Café Sumir, de Toshikazu Kawaguchi, deve se sentir em casa no táxi de Kitagawa. O livro também tem afinidade com Kafka à Beira-Mar, de Haruki Murakami, pelo uso de um elemento fantástico como porta de entrada para reflexões existenciais, ainda que com uma abordagem muito mais acessível, breve e otimista. Para quem gosta de narrativas sobre recomeços, relações familiares e a descoberta de que a vida cotidiana guarda mais beleza do que parece, Uma Viagem de Sorte é uma leitura certeira.

A edição brasileira acerta ao apresentar a obra como romance e healing fiction, sem prometer uma grande aventura fantástica ou um plot cheio de reviravoltas. O encanto do livro está justamente no ritmo contido e na progressão emocional de Shūichi. Kitagawa escreve com uma delicadeza que evita o melodrama, e a tradução de Natália Rosa mantém uma fluidez agradável, capaz de transmitir aquele clima de conversa à beira da janela, entre o trânsito e a chuva, em que uma frase simples pode desmontar anos de cansaço acumulado.

No fim, a impressão é de que Uma Viagem de Sorte funciona muito bem como um livro de pausa. Não é uma obra que pretende revolucionar o gênero, nem esconder suas intenções: ela quer acolher o leitor, provocar empatia e lembrar que mesmo os períodos mais sombrios podem ser atravessados com pequenos gestos de coragem. Em alguns momentos, a mensagem sobre sorte e positividade pode soar um pouco direta demais, quase como um conselho de autoajuda vestido de ficção. Ainda assim, o charme dos encontros, a simpatia pelo protagonista e a leveza da prosa compensam essa previsibilidade.

O grande acerto de Kitagawa está em transformar o azar de Shūichi em ponto de partida, não em sentença. O corretor de seguros começa a história completamente paralisado pelo medo de errar, de perder e de decepcionar; aos poucos, porém, as viagens lhe devolvem a percepção de que ainda há tempo para reparar vínculos, mudar rotinas e enxergar a própria família com mais atenção. O táxi mágico, nesse sentido, é menos importante como elemento sobrenatural e mais valioso como metáfora: às vezes, só precisamos de alguém para nos tirar do lugar onde estamos parados.
Uma Viagem de Sorte é uma estreia bem-vinda de Yasushi Kitagawa no Brasil. É uma leitura curta, calorosa e esperançosa, ideal para quem quer sair de um livro com a sensação de ter feito uma terapia rápida, sem drama excessivo e com espaço para um sorriso no fim. A Intrínseca entrega uma edição enxuta e convidativa, perfeita para quem está começando a explorar a healing fiction japonesa ou precisa de um empurrão gentil para acreditar que a próxima parada pode ser melhor do que a anterior.