Ciência Nerdices

A Terra Tem uma “cauda” gigantesca e quase ninguém sabe disso

Muita gente vem se surpreendendo ao descobrir que a Terra carrega uma cauda imensa no espaço, algo que pode alcançar pelo menos 2 milhões de quilômetros. A ideia parece saída de ficção científica, mas é um fenômeno real, constantemente estudado por missões espaciais e ainda cheio de mistérios.

Visão completa da cauda de plasma da Terra, capturada pelo instrumento IMAGE (Imager for Magnetopause to Aurora Global Exploration) da NASA.

A discussão ganhou fôlego recentemente por causa do cometa interestelar 3I/ATLAS, que chamou a atenção ao exibir uma cauda tradicional e outra invertida, o chamado “anti-tail”. Só que cometas não são os únicos corpos celestes que ganham esse tipo de rastro. Mercúrio, por exemplo, também possui uma cauda própria, formada graças à pequena quantidade de sódio presente em sua atmosfera extremamente fina. A luz solar espalhada faz esse sódio brilhar em tom alaranjado, e a pressão da radiação do Sol empurra esses átomos para longe, criando um rastro luminoso que, em certas épocas do ano, poderia ser visto por alguém que estivesse no lado noturno do planeta.

Se Mercúrio tem uma cauda laranja, o que dizer da Terra? A nossa também existe, mas de um jeito bem diferente. Em vez de brilhar como a de Mercúrio, ela se estende silenciosamente na escuridão, formada pela própria interação entre o campo magnético da Terra e o vento solar. É o magnetismo do planeta, gerado pelo movimento do ferro e do níquel derretidos no núcleo externo, que cria a magnetosfera, uma região que envolve a Terra e funciona como um escudo contra partículas carregadas vindas do Sol.

Dentro dessa estrutura, a magnetosfera aprisiona plasma, um gás eletrificado que acaba sendo puxado e esticado em direção ao lado noturno do planeta. Esse fluxo cria a chamada “magnetocauda”, uma extensão gigantesca que acompanha a Terra como se fosse um rastro invisível. O vento solar funciona quase como o ar moldando uma gota de chuva em queda: comprime a magnetosfera do lado voltado para o Sol e alonga a parte traseira, deixando-a parecida com uma lágrima esticada.

Embora essa cauda magnética seja uma presença constante, ela é extremamente sensível ao humor do Sol. Em abril de 2023, por exemplo, uma ejeção de massa coronal especialmente forte distorceu tanto o ambiente ao redor da Terra que chegou a arrancar temporariamente a magnetocauda, substituindo-a por estruturas chamadas “asas de Alfvén”, que surgem quando o vento solar fica mais lento do que a velocidade das ondas magnéticas que se propagam no plasma.

Mesmo com décadas de observações e diversas sondas espaciais estudando o tema, muito sobre essa cauda gigantesca continua desconhecido. A Agência Espacial Europeia lembra que o tamanho descomunal da magnetocauda, que pode se estender a mil vezes o raio da Terra, torna quase impossível compreendê-la usando uma única espaçonave. É como tentar mapear um continente inteiro com uma única câmera voando ao acaso.

O fato é que a Terra tem, sim, uma cauda colossal, e ela está sempre lá, nos seguindo no espaço enquanto viajamos ao redor do Sol. Invisível, silenciosa e absolutamente essencial para proteger nosso planeta e ela lembra o tempo todo que o nosso lar é muito mais complexo (e estranho) do que parece à primeira vista.

Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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