As gigantes da mineração de Bitcoin nos Estados Unidos e no Canadá estão trocando seus antigos data centers de criptomoedas por estruturas dedicadas à Inteligência Artificial e computação de altíssimo desempenho. Diante da queda expressiva da rentabilidade com a mineração de criptomoedas, fragilizada, entre outros fatores, pelo recente “halving” do Bitcoin e por custos de energia cada vez mais elevados, empresas como Bitfarms, Core Scientific, IREN (ex-Iris Energy), Cipher Mining e Riot Platforms , entre outras, decidiram reinventar seu modelo de negócio através do boom da IA.

A transformação nem sempre é simples. Migrar de mineração de criptomoedas para servir como provedor de infraestrutura para inteligência artificial exige atualizações profundas: troca de hardware, ASICs usadas para minerar Bitcoin não servem para tarefas de IA, por servidores com GPUs potentes, redes de alta velocidade, armazenamento rápido e configuração de software especializada para cargas de trabalho de machine learning. Além disso, há a necessidade de garantir fornecimento de energia contínuo e confiável, já que operações de IA exigem disponibilidade quase ininterrupta, o que nem sempre combina com as exigências regulatórias e de fornecimento que afetavam a mineração.
Para algumas dessas empresas, a conversão já se mostra mais lucrativa do que a mineração. A Bitfarms, por exemplo, anunciou que planeja encerrar suas operações de mineração até 2027. O CEO da empresa destacou que um único de seus sites no estado de Washington, atendendo demandas de IA por meio de racks com GPUs Nvidia e sistemas modernos de resfriamento, poderia produzir “mais renda operacional líquida do que já geramos minerando Bitcoin.”
Casos emblemáticos como o da Core Scientific ilustram o potencial dessa transição: depois de declarar falência em 2022, a empresa reestruturou suas operações e firmou contratos de longo prazo com provedores de nuvem e IA, transformando seus antigos data centers de mineração em núcleos para cargas de trabalho de alto desempenho, desde treinamento de modelos de machine learning até cloud computing corporativo.
A empresa IREN, antes voltada ao Bitcoin, contratou uma enorme infraestrutura de energia e anunciou planos ambiciosos para expandir sua capacidade de processamento de IA. Com GPUs e data centers planejados para suportar grandes volumes de workload de IA, a IREN pretende surfar a onda de demanda por computação intensiva, oferecendo seus espaços para clientes de cloud, startups de IA e empresas de tecnologia.
Tudo isso reflete uma mudança mais ampla no mercado: o que era visto como “mina de ouro digital” virou, para muitos, infraestrutura pronta para a próxima revolução tecnológica. As mesmas instalações que já consumiam energia pesada e exigiam resfriamento intenso agora se tornaram candidatas naturais para abrigar clusters de IA, que valorizam justamente esses atributos. Com custos de energia, regulamentações e dificuldade de lucro cada vez maiores a mineração tradicional de Bitcoin perdeu seu brilho, e dar lugar à IA aparece como caminho para maior segurança financeira e relevância no mercado.
Se antes esses complexos representavam a ânsia por Bitcoins e criptomoedas, hoje eles ilustram a construção silenciosa de uma nova fronteira digital, onde quem domina o poder computacional pode estar mais bem posicionado do que quem apenas valida blocos na blockchain. Se o passado dessas mineradoras foi pautado pela busca de moedas digitais, o futuro delas provavelmente será medido em GPUs, data centers e contratos de IA, nada mal para quem já tem energia conectada, espaço e experiência em escala.