Nos anos iniciais da Guerra Fria, Ray Bradbury escrevia Fahrenheit 451. Uma história que começou despretensiosamente em forma de conto, e veio a ser um importante livro onde o escritor depositou suas ideias valiosas em uma crescente decadência e disfuncionalidade da sociedade americana. Hoje, tão evidente pelo mundo. 

A obra política foca no teor subversivo dos livros, que apesar da aparência inofensiva de suas folhas de papel, são constituídos principalmente de ideias, reflexões e denúncias sobre o mundo.

Bradbury imagina uma época (não tão ficcional) onde livros foram proibidos e a sociedade é privada do pensamento crítico. 

Em Fahrenheit, o escritor concede uma arma poderosa na mão de quem o recebe. Na qual ilustra porque os livros são tão temidos. E porque são -e continuam a ser- esquecidos e substituídos pelas telas, em sua época ainda somente a TV.

Há uma sátira feroz sobre como as televisões ocuparam as salas dos americanos como integrantes de uma família. Posteriormente, ao redor do mundo. Oferecendo um espetáculo do qual se cria a ilusão de o espectador também fazer parte. 

Os bombeiros agora exercem a função de incendiar e não mais apagar incêndios. Para conter o pensamento crítico, eles perseguem subversivos que mantêm escondidos em suas casas bibliotecas ou exemplares. 

Guy Montag é integrante do corpo de bombeiros, e segue ordens sem questionar nada a sua volta. Até que ele conhece Clarisse, uma menina ‘estranha’, que possui a mania incomum de reparar nos pequenos detalhes.

Num encontro, ela metralha o bombeiro com questões profundas e inusitadas, mencionando algo que ele nunca havia parado para pensar: felicidade.

Montag fica perturbado e entra em crise existencial, questionando o sistema do qual ele há pouco se sentia honrado em fazer parte. Curioso em descobrir o que há de tão perigoso naquelas folhas de papel.

Magnetizado pelo conteúdo que encontra, ele segue um caminho sem volta para sua prisão mental.

“Os livros mostram os poros no rosto da vida”

Fahrenheit 451, adaptação cinematográfica de François Truffaut (1966)

Beatty é chefe dos bombeiros, um personagem truculento. Mas contraditório em sua posição anti-livros.

Ele deixa sinais de que é perturbado por questões filosóficas e já tenha sofrido ‘as dores’ dos sentimentos que os livros provocam. Recusa os títulos como se recusasse sua própria essência.

A aversão pelas obras é generalizada entre a massa, que decidiu, voluntariamente, virar as costas para as ideias críticas. 

O governo não precisou criar esse repúdio na população. E os bombeiros apenas promovem um espetáculo pirofágico que é televisionado para entreter os espectadores. 

A mídia orquestra o espetáculo, e define o rumo da opinião pública.  Aqui, grifada a construção de um ‘inimigo’ como terrorismo psicológico a favor da manipulação midiática, apontada mais tarde pelo linguista Noam Chomsky

Esse ódio que a população e Beatty compartilham, ainda levanta a reflexão sobre a dificuldade de lidarmos com as falhas humanas. 

A perfeição é motivo de obsessão desde os povos ancestrais. E nada nos causa mais dor que lidar com nossas falhas.

E não colocam os livros grandes espelhos em nossa frente?

Nos obrigando a lidar não só com erosões das ações humanas, mas nossa mortalidade e fragilidade diante a vastidão das possibilidades. De estar à mercê da aleatoriedade.

Penso que se as pessoas são inclinadas ao ódio sobre o outro, porque este as lembram de algo que recusam nelas mesmas, estão fadadas a terem a mesma relação com os livros ou qualquer outra coisa que ouse lembrá-las da realidade. 

Assim foram tão perseguidos ao longo da história da humanidade escritores, filósofos, cientistas e pensadores que buscaram responder ou levantar questões sobre nossa existência e lugar no Universo. 

Quando livros abundantes em descobertas e teorias foram queimados por serem alvo do “Index Librorum Prohibitorum” da Igreja Católica.

Tal herança vista em fogueiras que queimaram possíveis chaves de libertação durante o Nazismo e outros governos ditatoriais. 

Não tão distante da comunicação de massa, co-produtora do fluxo frenético do cotidiano que não abre espaço para o silêncio e reflexão. Hipnotiza o espectador com conteúdo fácil e o coloca em posição passiva. 

A TV, ou as telas, são o refúgio perfeito, o entorpecente que nos envolve em anedonia. 

Fahrenheit é conciso, de apenas 216 páginas, mas de tal densidade filosófica que provoca tais pensamentos citados e entra na mente do leitor de maneira a nunca mais deixa-lo.

“Os que não constroem precisam destruir. Isso é tão antigo quanto a história e seus delinquentes juvenis”.

Fahrenheit 451, adaptação cinematográfica de François Truffaut (1966) 

O fogo, elemento fundamental da construção de toda civilização, também é arma essencial para nossa autodestruição. 

Como Jorge Luís Borges já disse uma vez: “O livro é a grande memória dos séculos… se os livros desaparecessem, desaparecia a história e, seguramente, o homem”.

O incêndio também é metáfora para a necessidade de destruição. Como se estivéssemos condenados ao ciclo eterno de destruição e reconstrução.

Portanto, não há nada mais importante do que a memória dos que constroem. 

Em tempos de destruição, é necessário haver testemunhas. Talvez muitos não se lembrem depois, ou não acreditem. Então é preciso contar, seguir em frente, libertar a si e quem puder.   

Em toda nova geração, como Bradbury ensina e acende uma chama de esperança, é uma oportunidade de passar ideias adiante e reunir uma legião dos que constroem. Para quem sabe, no futuro, já não tenhamos mais a necessidade de caminhar em direção às lâmpadas, como as moscas.

Tudo o que Montag encontra borbulhando em sua cabeça já estava ali, descansando no subconsciente. Parte dele como o próprio sangue nas veias. Clarisse apenas ‘acende uma chama’.

A cada nova ideia de um personagem que instigava a mente do protagonista, suas novas compreensões e reflexões sobre o seu papel dentro desse maquinário que move o mundo, eu também era um pouco Montag.

Os homens-livros vêm no contrafluxo da opressão, enchendo as páginas com muita sabedoria, conforto e resistência. Surgem com a solução inteligente em meio a destruição: é melhor guardar os livros dentro de nós, onde ninguém virá procura-los.

A essência que antes habitava a mente de um escritor, inevitavelmente é transportada à nossa. Eternizada quando a levamos em tudo o que fazemos e para quem cruzar nosso caminho. 

Bradbury sintetizou todas suas ideias mais críticas e esperançosas em um livro de narrativa deliciosa, como se um sábio senhor contasse para crianças curiosas histórias fascinantes sobre o mundo. 

Fahrenheit 451 é, acima de tudo, um ataque feroz e ainda sutil ao status quo.

O testemunho de um homem que viu o avanço da debilidade em massa e concebeu um livro que seria puro conforto à resistência e o principal alvo de uma fogueira.

Uma obra atemporal e indelével. Redescoberta a cada nova geração, assim como os homens-livros ensinaram Montag. 

Onde Adquirir:

Ficha Técnica – Fahrenheit 451

Autor: Ray Bradbury
Capa comum: 216 páginas
Editora: Biblioteca Azul; Edição: 2ª (1 de junho de 2012)

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