Com a opulência de informação existente hoje em dia, somos bombardeados constantemente pelas mais variadas fontes. Nesse contexto é inevitável que muitas obras pareçam similares (e muitas de fato são) aos olhos dos leitores. Então, quando uma obra é capaz de chamar a atenção do leitor já pelo seu título… há algo distinto aí. Peregrinos de Palha & Pena (Dom Mordaz, 2025) é um belíssimo título, que evoca fantasia e aventura, com um toque poético. Quando visualizado em conjunto com a capa, temos aí a porta de entrada para uma verdadeira obra de arte.

Isolado em uma fazenda, o espantalho Tomás passa seus dias entregue à labuta e aos resmungos de seu amigo, o corvo Fel. Quando o celeiro onde dorme é destruído, lhe resta se abrigar na casa grande, até então um eco de seus medos. Lá dentro, ele descobre algo que muda sua perspectiva para sempre: os livros. Decidido a encontrar formas de desvendar a magia e o mistério de suas páginas, ele enfim, decide partir. Rompendo a cerca que sempre o conteve, Tomás vai de encontro a um mundo onde a literatura e a realidade se encontram.
Inspirada por obras como Sandman e Moonshadow, Peregrinos de Palha e Pena é uma novela gráfica que busca romper as fronteiras entre literatura e nona arte. Combinando texto literário e pintura digital, a obra propõe releituras poéticas de personagens emblemáticos como Visconde de Sabugosa, Macunaíma e Brás Cubas.
Crossover
Crossovers no contexto ficcional ocorrem basicamente quando personagens de “universos” distintos interagem. Os exemplos de maior escala podem ser vistos nos crossovers entre DC Comics e Marvel Comics, as duas maiores editoras de quadrinhos ocidentais. No Brasil, a Turma da Mónica (MSP Estúdios) é famosa por realizar crossovers com os mais diversos personagens.
No entanto, a coexistência de Visconde de Sabugosa (personagem criado por Monteiro Lobato), Macunaíma (personagem criado por Mário de Andrade) e Brás Cubas (personagem criado por Machado de Assis) em um mesmo “universo”, como visto em Peregrinos de Palha & Pena, é inédito. (Podemos chamar de um crossover leve, dado que estes personagens não interagem diretamente entre si, interagindo apenas um de cada vez com os protagonistas.)

Mas essa não é a primeira vez que esses personagens aparecem em quadrinhos. Os três já tiveram adaptações por distintas editoras.
Show de referências
Como mencionado na contracapa, Peregrinos de Palha & Pena é inspirada por obras como Sandman (Neil Gaiman) e Moonshadow (J.M. DeMatteis). Ambas também aparecem na obra anterior de Djeison Hoerlle: O Colecionador (Dom Mordaz, 2025).
Aqui também Hoerlle insere diversas referências. Algumas mais diretas, como os três personagens da literatura brasileira citados acima. E nos livros lidos pelos personagens: – O Alienista, de Machado de Assis; Macunaíma, de Mário de Andrade; Educação como Prática da Liberdade, de Paulo Freire.
Paulo Freire, também fica evidente na forma como o Visconde de Sabugosa ensina Tomás. Há também referências a Erich Fromm; A Noite Estrelada (De sterrennacht), de Vincent van Gogh; nazismo; Jesus Cristo; O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien; e O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.
Objetos
Há um importante trecho que acontece no momento de encontro entre Tomás e Macunaíma onde há um debate sobre objetos. O debate perpassa pela noção de que podemos ou não ser definidos por aquilo que possuímos. Acaba derivando para a percepção de que acabamos por sermos possuídos por aquilo que possuímos. Um debate que é abordado no centro da trama de outra HQ de Hoerlle: O Colecionador (Editora Hipotética, Dom Mordaz, 2025). Por fim, o entendimento de que objetos, mais do que fragmentos das histórias de seus donos, eles próprios contam essas histórias.
Ciência
O entendimento de que objetos contam histórias está na base da Arqueologia. É a ciência que faz uso de vestígios materiais (objetos) que, datados e analisados em contexto, permitem a reconstituição do passado das pessoas e civilizações.
Mas o foco principal em Peregrinos de Palha & Pena é objeto de estudo de outra ciência: a linguística. É a ciência que estuda a linguagem em todos os seus aspectos. Na trama, Tomás existia até aquele momento de início sem saber da existência de livros. O conhecimento da escrita abre um mundo de possibilidades para o protagonista. Aí temos um paralelo com a evolução do Homo sapiens, que tendo surgido há aproximadamente 300.000 anos atrás, passa a maior parte sua existência ágrafa (sem escrita, possuindo apenas linguagem falada). A linguagem escrita surge apenas com o agriculturalismo, o sedentarismo e o surgimento das primeiras civilizações. Isso tudo (proporcionalmente) muito recentemente, há apenas cerca de 12.000 anos atrás.
A Jornada do Herói
Por fim, todos os elementos mencionados acima fazem parte da jornada de Tomás, que se estabelece como A Jornada do Herói. A Jornada do Herói é um conceito de jornada cíclica presente em mitos, estabelecido pelo escritor e mitologista Joseph Campbell em 1949 no livro O Herói de Mil Faces. Como conceito de narratologia e mitologia comparada, é o modelo comum de histórias que envolvem um herói que parte em uma aventura, é vitorioso em uma crise decisiva e retorna à casa mudado ou transformado. Posteriormente, Christopher Vogler, roteirista de Hollywood, elaborou em cima da obra de Campbell buscando aplicação direta no cinema hollywoodiano. Tendo escrito A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas em 1992.


Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro consegue dar a cadência perfeita para o desenrolar da trama, alterando os momentos de reflexão com os momentos de interação como um maestro rege uma sinfonia.
Arte: A arte fantástico-onírica engolfa o leitor em um mundo onde descoberta, reflexão e metalinguagem se sobrepõem em cores pinceladas com a mesma combinação de intensidade e delicadeza com que o protagonista avança em sua jornada.
Letras: O letreiramento merece menção especial. É belo, orgânico e combina muito adequadamente com o tom de fábula. Cada personagem tem seu próprio letreiramento distinto e personalizado.
Autores
Djeison Hoerlle, roteiro. É designer, escritor e fundador do selo independente Dom Mordaz de Campo Bom, Rio Grande do Sul. Em suas obras explora metalinguagem, fantasia e humor ácido.

Pablo Teixeira, arte. É ilustrador e concept artist de Altamira, Pará. Começou a estudar pintura durante a pandemia, visando trabalhar com o que ama para fugir da faculdade e trabalhos convencionais.

Demais envolvidos na obra
Braian Malfatti, projeto gráfico e letras.
Iriz Medeiros, revisão
Phellip William, prefácio.
Outras obras dos autores
Djeison Hoerlle: Jardim das Ideias (2021), Perda (2021), O Epitáfio de Bartolomeu (2023), Café Delgado e outros etarismos (2024), Dissabores (2024), O Vigilante do Centro Histórico (2024), O Colecionador (2025), Nada Floresceu em 99 (2026).
Pablo Teixeira: Peregrinos de Palha & Pena é sua primeira HQ.
Reflexões finais
Peregrinos de Palha & Pena é uma grande obra! … Poderia encerrar por aqui e essa constatação direta já deveria ser o suficiente para expressar o que os leitores vão encontrar ao folhear essa novela gráfica. Mas há riqueza demais em seus quadros a ser explorada. Há profundidade e consistência em seus personagens. Para além dos três coadjuvantes (Visconde de Sabugosa, Macunaíma e Brás Cubas) que ganharam novas roupagens, Tomás e Fel encantam com suas personalidades. Talvez o de mais imediato reconhecimento seja Fel, graças a seu cinismo, que encontra fácil reflexo nos dias atuais. Já Tomás, com sua inocência, encanta com seu maravilhamento com as descobertas.
Tomás é conduzido pela trama através da Jornada do Herói, voltando para casa no final tal qual um certo hobbit. Mas aparentemente há mais camadas de significação nessa jornada. Seria Tomás, ao menos em parte, um alter ego do roteirista Djeison Hoerlle enquanto descobrindo-se como escritor?
Por fim, fica uma frase que demonstra claramente o poder das palavras: “Se quer que alguém viva para sempre, escreva sobre esse alguém”. Peregrinos de Palha & Pena é uma ode ao poder das palavras. Um poder eternizador. Um poder libertador.
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