Um dos projetos mais curiosos e misteriosos da história dos games acaba de ganhar um desfecho inesperado. Depois de mais de 25 anos, o Resident Evil perdido para Game Boy Color (que foi cancelado) voltou à vida, revelando o quão perto ele esteve de se tornar um lançamento oficial no fim dos anos 1990.
Em 1999, a Capcom confiou à pequena desenvolvedora britânica HotGen uma missão praticamente impossível: levar o Resident Evil original do PlayStation para o portátil da Nintendo. A ideia era condensar toda a experiência de terror em 3D em um cartucho de apenas 2 MB, pronto para chegar às lojas no Natal daquele mesmo ano.
Para isso, o estúdio precisou reconstruir o jogo do zero, transformando cenários e personagens em sprites detalhados, fixando ângulos de câmera para guiar o jogador pela mansão Spencer e mantendo boa parte dos quebra cabeças que marcaram o clássico.

Mesmo com as limitações do hardware, os zumbis apareciam coloridos na tela, as armas funcionavam como esperado e personagens como Chris Redfield ainda tinham presença e personalidade.
Enquanto a HotGen cuidava da adaptação da jogabilidade, a Fluid Studios se dedicava a extrair o máximo visual possível do Game Boy Color, tentando reproduzir algo próximo de uma estética 32 bits em um sistema muito mais modesto.
O desenvolvimento, porém, começou a enfrentar problemas quando a publisher Virgin passou a exigir mais conteúdo original do que o previsto inicialmente. Com o projeto estimado entre 75 e 85 por cento concluído, o programador principal Nigel Speight acabou deixando o estúdio, frustrado com os rumos do jogo.
O trabalho seguiu com o programador assistente Pete Frith, que lembra de longas sessões de testes com a equipe de controle de qualidade da Capcom e de uma versão que, segundo ele, já estava praticamente pronta.
Mesmo assim, os atrasos se acumularam e o lançamento, previsto para 1999, foi sendo empurrado. Em 2000, com o projeto ainda sem uma data clara, a Capcom decidiu cancelar tudo de vez.

A justificativa teria vindo de figuras centrais da empresa, possivelmente o próprio criador da série, que não estavam convencidas de que o Game Boy Color era a plataforma certa para Resident Evil. Para completar o cenário, o artista principal do projeto faleceu, e a Capcom optou por seguir outro caminho, lançando mais tarde Resident Evil Gaiden, um título totalmente novo e com visão superior, pensado especificamente para o portátil.
Durante anos, o jogo virou lenda. Em 2011, algumas versões inacabadas começaram a circular na internet, incluindo uma que parecia estar perto da conclusão.
Ainda assim, faltavam partes importantes, como o confronto final, e havia telas de depuração espalhadas pelo código. Fãs e preservacionistas passaram mais de uma década tentando entender e completar aquilo que a HotGen havia deixado para trás.

A virada aconteceu recentemente, quando o site Games That Weren’t anunciou ter encontrado a versão final do projeto, a última build antes do cancelamento oficial. O detalhe mais impressionante é que o próprio Pete Frith forneceu a ROM.
Diferente dos vazamentos anteriores, essa versão permite jogar a campanha de Jill Valentine do início ao fim, incluindo a batalha contra o Tyrant e o início do desfecho da história. Ainda existem falhas, como pequenos travamentos após combates e alguns softlocks, mas o jogo é plenamente jogável.
Essa build final também traz elementos inéditos, como uma sequência de abertura funcional, novos efeitos sonoros e a trilha sonora completa, com todos os temas sombrios e sons característicos que definem o clima da série.
Imperfeito, mas incrivelmente próximo de um produto final, esse Resident Evil para Game Boy Color se transforma agora em um dos resgates mais fascinantes da história dos videogames, mostrando que, às vezes, até projetos dados como mortos podem encontrar um caminho de volta.
Veja mais sobre games.