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Expansão Das Cinzas – Avatar: Frontiers of Pandora: uma jornada de redenção e vingança

Quando a Massive Entertainment recebeu o desafio de criar um jogo baseado no universo Avatar, de James Cameron, a expectativa era muito grande. A franquia cinematográfica já havia estabelecido um padrão visual praticamente inatingível e qualquer outro produto precisaria não apenas replicar a beleza de Pandora, mas expandir significativamente o que vimos. Avatar: Frontiers of Pandora, lançado em dezembro de 2023, ultrapassou expectativas ao entregar uma das melhores adaptações do cinema para os games dos últimos anos, e agora, com a expansão Das Cinzas (From the Ashes), lançada em dezembro de 2025, o título consolida seu lugar como uma experiência verdadeiramente memorável no universo Avatar.

A história do jogo base apresenta uma narrativa original que se desdobra a partir de Avatar: O Caminho da Água, o contexto apresentado no segundo filme da franquia. O jogador assume o papel de um órfão Na’vi que foi sequestrado pela RDA quando criança e treinado para ser uma arma viva contra sua própria espécie. Após ser colocado em criossono durante os eventos do primeiro filme Avatar, o personagem acorda dezesseis anos depois em um mundo transformado. Sem vínculos familiares, o jovem Na’vi precisa reconectar com seu legado perdido, aprender os verdadeiros caminhos de seu povo e unir diversos clãs Na’vi espalhados pela Fronteira Ocidental de Pandora contra as forças da RDA que retornaram para explorar mais recursos do planeta. É uma premissa que ecoa os temas dos filmes, mas com uma perspectiva única, pois enquanto Jake Sully luta pela sobrevivência de sua família, seu personagem luta pela compreensão de sua própria identidade e pela cicatrização das feridas que a RDA deixou no mundo.

A expansão Das Cinzas (ou From the Ashes), que chegou simultaneamente com o lançamento do filme Avatar: Fogo e Cinzas, oferece uma mudança dramática de foco narrativo. Em vez de controlar o personagem do clã Sarentu criado pelo jogador, assumimos o controle de So’lek, um guerreiro Na’vi do clã Trr’ong, que já era uma figura secundária no jogo base. So’lek é um homem assombrado por perdas, tendo perdido seu clã, sua primeira montaria ikran e, nesse processo doloroso, sua paz também. Quando a expansão começa, So’lek é emboscado e deixado para morrer pela RDA em aliança com um novo grupo de antagonistas, os Mangkwan, mais conhecidos como o Povo das Cinzas. Despertando em um mundo em chamas, cercado pela desolação, So’lek é motivado pelo desejo de encontrar sua família e vingança aos que o feriram. A narrativa é mais sombria, mais pessoal e, francamente, mais visceral que o jogo base, mergulhando em temas de luto, culpa de sobrevivente e a questão perturbadora de até que ponto a vingança pode levar alguém antes de destruir quem restou.

Avatar: Frontiers of Pandora - Expansão Das Cinzas

No que diz respeito ao gameplay, Avatar: Frontiers of Pandora inova significativamente ao colocar o jogador na pele de uma criatura completamente alienígena. Você não controla um humano em um corpo de Na’vi, mas sim um ser nativo de Pandora com capacidades físicas radicalmente diferentes. O sistema de movimento é absolutamente central à experiência, e a Massive Entertainment acertou completamente aqui. Como um Na’vi de mais de dez pés de altura, você corre mais rápido que qualquer humano conseguiria, pula alturas impressionantes e consegue escalar praticamente qualquer superfície vertical com naturalidade. Essa liberdade de movimento transforma a exploração em algo profundamente satisfatório. Diferentemente de muitos jogos de mundo aberto, que afunilam o jogador em caminhos pré-determinados, Frontiers of Pandora responde aos instintos exploradores que vemos nos filmes. Quer subir aquela montanha distante? Você consegue. Quer contornar aquele acampamento de inimigos pelo topo? Perfeitamente viável. Essa sensação permeia todo o jogo, criando momentos de descoberta genuína que raramente vemos em títulos similares.

As mecânicas de combate equilibram bem a versatilidade com a profundidade. Começando apenas com um arco de longo alcance, você gradualmente desbloqueia arsenal variado incluindo armas de fogo capturadas da RDA e técnicas de combate corpo a corpo devastadoras. O jogo nunca força uma abordagem específica e permite que você seja furtivo ou agressivo conforme a situação. A incorporação do gênero stealth é particularmente elegante, oferecendo ferramentas sofisticadas para incapacitação silenciosa sem ser tão focada em sigilo quanto, por exemplo, Dishonored. O que realmente eleva o combate, especialmente em arenas abertas, é a possibilidade de utilizar o terreno e a altura em seu favor. Voar acima de inimigos com seu ikran e atacá-los com precisão do ar é exatamente tão divertido quanto parece, e essas abordagens verticais abrem novas possibilidades estratégicas que distinguem Frontiers of Pandora de outros títulos.

Avatar: Frontiers of Pandora - Expansão Das Cinzas

Das Cinzas, a nova expansão lançada, amplifica essa imersão através de uma mudança perspectiva revolucionária ao utilizar o modo em terceira pessoa. Inicialmente, ambos os jogos eram estritamente primeira pessoa, uma escolha que, embora funcionasse, criava uma desconexão entre o design visual impressionante e sua visualização. A adição desse novo modo de visão, também como atualização gratuita para o jogo base, é transformadora. Agora você pode ver o corpo de So’lek, seus movimentos fluidos e suas finalizações brutais contra inimigos. Essa câmera permite apreciação completa das animações de combate elaboradas, tornando cada confronto fisicamente satisfatório de maneiras que antes, em formato primeira pessoa, simplesmente não conseguia alcançar. E tudo isso não é apenas uma mudança cosmética, pois a perspectiva afeta como você se posiciona em combate, como você se posiciona furtivamente, como você aprecia o ambiente ao redor. A equipe de desenvolvimento retrabalhou o visual para acomodar essa nova perspectiva, além de mudanças nos sons do jogo. Das Cinzas foi construído como terceira pessoa como padrão para So’lek, e você realmente sente a diferença no polimento das interações e na qualidade cinemática dos momentos narrativos, quando comparamos ao jogo base que não teve todo esse cuidado.

O que faz essa expansão ser realmente especial vai além das mecânicas e inovação, com um foco maior ao que ela consegue adicionar narrativamente ao universo de Avatar. O jogo base explorou temas de identidade perdida e reconexão cultural através de uma perspectiva de inocência e descoberta, porém Das Cinzas abraça a escuridão que ronda a periferia daquele mundo belo e oferece uma perspectiva fundamentalmente diferente através de So’lek. Este é um personagem que conhece a dor, que carrega perda como um escudo, que vê a violência não como última opção, mas como uma linguagem fluente. Os Mangkwan, o antagonista clã das cinzas, introduzido simultaneamente no filme Avatar: Fogo e Cinzas, funciona bem na expansão como recurso narrativo. Não são simplesmente Na’vi malvados, eles são sobreviventes da tragédia cataclísmica em que fez com que seu reino fosse consumido por fogo, em que seus laços com Eywa se tornaram extremos, fazendo com que Varang e seus líderes escolhessem o caminho da escuridão. A expansão tira tempo para explorar suas motivações, tornando o conflito menos sobre bem versus mal e mais sobre diferentes visões sobre viver e sobreviver à catástrofe em Pandora.

Avatar: Frontiers of Pandora - Expansão Das Cinzas

A ligação com os filmes Avatar é particularmente inteligente. O jogo base nunca tenta competir com os eventos dos cinemas, coexistindo numa linha do tempo paralela. Enquanto Jake Sully luta contra o Coronel Quaritch e os Metkayina lidam com ameaças nas águas Orientais, você está lutando suas próprias batalhas na Fronteira Ocidental. Das Cinzas intensifica essa conexão ao importar o antagonismo central do filme, em que os Mangkwan aparecem tanto no terceiro filme quanto na expansão, criando um sentimento de continuidade. A expansão também apresenta os Comerciantes do Vento (Tlalim), um clã Na’vi itinerante que aparece em ambos os filmes e na expansão, sugerindo uma colaboração criativa profunda entre as equipes de Massive Entertainment e Lightstorm Entertainment.

Tanto no jogo base quanto na expansão, um dos aspectos mais impressionantes de Avatar: Frontiers of Pandora – Das Cinzas é sua abordagem à direção de arte visual. Cada árvore é constituída de milhares de folhas individuais que interage com luz e vento, enquanto Das Cinzas apresenta a mesma Floresta Kinglor, mas carbonizada pelas chamas, queimada pelas cicatrizes de invasão. A diferença visual entre as duas versões é perturbadora de maneira intencional, reforçando narrativamente o custo da ocupação RDA e Mangkwan. As montanhas flutuantes, os efeitos de iluminação dinâmica e a forma como a água reflete o ambiente, tudo aponta para um nível de cuidado visual que rivaliza com qualquer cena dos filmes.

Acompanhando esse cuidado, a trilha sonora consegue trabalhar numa composição que evolui ao longo do jogo de um humilde início a uma manifestação completa de identidade cultural Na’vi, incorporando letras nativas e acompanhando enquanto você progride, servindo como reforço emocional do arco narrativo. Das Cinzas apresenta uma trilha mais agressiva e ligada à vingança, mesmo não abandonando a beleza contemplativa que define Avatar, mas com músicas mais intensas e fortes, que reforçam a natureza primitiva da luta de So’lek.

Infelizmente Avatar: Frontiers of Pandora – Das Cinzas não é perfeito e ainda carrega alguns problemas antigos, em que mecânicas de combate em espaços mais apertados se tornem um problema e demonstrem uma certa falta de fluidez pelo tamanho do personagem. A IA dos inimigos às vezes é previsível em seus padrões de patrulha e resposta, enquanto sofremos certos picos de dificuldade inesperados nas missões mais avançadas, especialmente quando enfrentamos os Mangkwan durante a expansão Das Cinzas.

Este jogo é um exemplo de como tratar seu material de origem com respeito, sem tentar reinventar a roda. A Ubisoft produziu um jogo que afirma que adaptações de filmes para os games podem ser realmente bons, oferecendo expansão narrativa e uma experiência que a Massive Entertainment conseguiu criar em Pandora para ir além do que vemos no cinema. Se você é fã de Avatar, estes jogos são absolutamente essenciais, porém com certeza ele foi pensado para um público de gamers que curtem jogos de aventura em mundos vivos e amplos. Se você procura uma narrativa com bons temas e bem desenvolvida através de uma lente sci-fi, verdadeiramente alien, Avatar: Frontiers of Pandora – Das Cinzas oferece exatamente isso.

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Nota final: 5/5

Avaliação: 5 de 5.

Acesse o site oficial do jogo.

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Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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