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Carol Façanha lança “Voraz” e anuncia PhD em literatura fantástica na Escócia

Durante a Bienal do Livro de São Paulo, o NERDIZMO conversou com a escritora Carol Façanha sobre o lançamento de “Voraz”, sua produção literária recente e os próximos passos de uma carreira marcada por fantasia, ficção científica, horror e discussões sobre gênero, poder e liberdade.

Carol Façanha Voraz

A autora também revelou uma importante novidade: vai iniciar um PhD em Glasgow, na Escócia, com pesquisa voltada à escrita criativa e à literatura comparada.

Uma romantasia ambientada no Rio

“Voraz” é uma romantasia (mistura de romance e fantasia) ambientada em um Rio de Janeiro alternativo, onde o antigo Cassino da Urca continua existindo e é controlado por criaturas que combinam características de lobisomens e vampiros.

Carol Façanha Voraz

Nesse universo, os lobisomens exploram a população por meio da coleta de sangue e submetem especialmente as chamadas Bruxas de Prata. Essas mulheres são capazes de criar espadas com o próprio sangue, mas vivem em uma estrutura que reduz seus corpos e suas vidas a instrumentos de exploração.

Carol Façanha Voraz

A dinâmica começa a mudar quando o filho do alfa afirma que, se uma das bruxas sangrar, ele também estará disposto a sangrar. Para Carol, esse momento representa uma ruptura simbólica: os homens privilegiados precisam decidir do que estão dispostos a abrir mão para construir uma sociedade mais justa.

Carol Façanha Voraz

O título do livro também está ligado à forma como o desejo feminino é tratado socialmente. Segundo a autora, mulheres ambiciosas e que expressam seus desejos costumam ser julgadas de maneira muito mais severa do que os homens.

“Se a gente não chamasse mulheres de p***s ou de cachorras porque elas têm desejo, se a gente chamasse só de voraz, talvez isso não viesse acompanhado de julgamento.”

Carol Façanha Voraz

Para Carol, libertar-se da culpa e da preocupação constante com a forma como os outros interpretam seus desejos pode abrir espaço para novas possibilidades de liberdade.

Da vítima ao monstro

A escritora explicou que muitas de suas obras são atravessadas por uma mesma investigação: o que acontece quando sobreviver já não é suficiente?

Carol Façanha Voraz

Durante o doutorado, Carol desenvolveu a estrutura narrativa “Da Vítima ao Monstro”, uma espécie de jornada do herói voltada para mulheres que percebem a vulnerabilidade de seus corpos em uma sociedade hostil e caminham em direção a uma transformação monstruosa, literal ou simbólica.

Essa ideia aparece em diferentes gêneros e cenários de sua produção. Mesmo quando escreve fantasia, distopia ou horror, a autora retorna a personagens que precisam encontrar novas perguntas para situações em que as respostas tradicionais já não dão conta de suas identidades.

Em vez de escolher entre casamento e carreira, submissão e rebeldia, ou permanência e fuga, essas mulheres passam a questionar os limites das opções que lhes foram oferecidas.

A entrevista também abordou outros livros de Carol Façanha, que vem construindo uma bibliografia marcada pela diversidade de gêneros e pela presença de protagonistas femininas enfrentando estruturas de opressão.

“A Ilha das Nuvens Cadentes”

“A Ilha das Nuvens Cadentes” nasceu da ideia de uma ilha habitada por figuras associadas à mitologia, mas ganhou uma abordagem própria: deuses gregos que perderam seus poderes e podem ser substituídos por humanos.

Carol Façanha Voraz

A protagonista já ocupou o cargo de Pandora diversas vezes e, depois de tantas transformações, não consegue mais se lembrar de quem era originalmente. Para recuperar sua identidade, ela precisa desafiar o Olimpo.

Voltado ao público jovem, o livro também questiona a busca incessante por popularidade, dinheiro, poder e reconhecimento. A história propõe uma reflexão sobre o desejo de ser algo maior e sobre a possibilidade de que a própria humanidade já seja suficiente.

Uma das provocações apresentadas por Carol é: o que seria preferível? Ser uma humana sem poderes, perseguida pelo Olimpo, ou uma deusa incapaz de lembrar quem foi?

“Ciborgues rebeldes sonham com a morte”

Na ficção científica “Ciborgues Rebeldes Sonham com a Morte” acompanhamos Flávia, Lúcia e Diana, três mulheres submetidas de maneiras diferentes ao sistema que controla suas vidas. Ambientado em 2557, o livro apresenta um futuro em que homens matam mulheres e preservam seus cérebros em corpos ciborgues. Flávia tenta sobreviver dentro da estrutura de poder; Lúcia acredita inicialmente que a submissão pode garantir proteção; e Diana transforma sua revolta em desejo de destruição.

Carol Façanha Voraz

A obra parte dessas três respostas distintas para discutir violência, silenciamento e resistência. Para Carol, nenhuma das personagens encontra sozinha uma saída realmente eficaz, mas a união entre elas permite que suas forças sejam combinadas.

Publicado pela Patuá, o romance venceu o Prêmio Voz e foi descrito pelo PublishNews como uma narrativa curta e intensa sobre liberdade, política e as formas de controle impostas às mulheres.

A autora também é conhecida por títulos como “Não Esqueça”, “A Hora da Serpente”, “A Prisão de Escamas”, “Sonhos de Fumaça” e “Filha da Lama”. Sua série “Corte Viperina” também esteve entre os destaques de sua participação na Bienal do Livro de São Paulo.

A força das comunidades literárias

Carol mantém uma relação próxima com a comunidade que acompanha seu trabalho. Os leitores compartilham expectativas, comentários e críticas, mas a autora afirma que não pretende escrever apenas aquilo que o público espera.

Carol Façanha Voraz

Se os leitores aguardam uma nova romantasia, ela pode apresentar uma distopia feminista. Se esperam uma releitura da mitologia grega, pode escolher outro caminho. Essa disposição para surpreender faz parte do processo criativo da escritora.

Ao mesmo tempo, Carol reconhece a importância dessas comunidades para a valorização da literatura nacional. O público ajuda a apontar o que funciona, revela quais temas despertam interesse e participa diretamente da circulação das obras brasileiras.

Glasgow e o caminho para mais autoras brasileiras

A grande novidade revelada na entrevista é que Carol Façanha vai realizar um PhD em Glasgow, na Escócia, com estudos em escrita criativa e literatura comparada. Durante o doutorado, ela pretende desenvolver um romance com base em “The Language of Madness”. A proposta parte de uma pergunta provocadora: e se a histeria fosse um superpoder?

Carol Façanha Voraz

Para essa proposta, mulheres internadas em diferentes instituições psiquiátricas conseguem se comunicar por telepatia. Enquanto isso, homens tentam transformar essa habilidade em uma ferramenta para prever resultados de loteria e movimentos do mercado financeiro. A histeria passa, assim, a ser tratada como uma moeda de troca e como uma fonte de poder disputada por diferentes grupos.

Carol também pretende aprofundar a pesquisa sobre a estrutura “Da Vítima ao Monstro” e ampliar a presença de autoras brasileiras e latino-americanas nos debates acadêmicos e no mercado editorial internacional.

A escritora espera que essa experiência possa abrir portas para outras autoras nacionais, incluindo nomes ligados à Editora Oculta, criada por ela ao lado de Évany Campos e Amanda Ferreira. Entre os projetos mencionados estão possíveis publicações internacionais de “Coração Sangrento” e “Odile”.

Novos projetos a caminho

Carol contou que existem negociações em andamento com diferentes editoras, mas ainda não há anúncios oficiais sobre os próximos lançamentos. Alguns manuscritos estão sendo avaliados e a autora espera que sua expansão internacional ajude a levar suas obras para novos mercados.

Ela também participará da Feira do Livro de Frankfurt por meio do Passaporte Frankfurt, iniciativa associada à editora Cássia Carrenho e ao Movimento Indie.

A autora reconhece que a mudança para outro país exigirá planejamento, especialmente por envolver uma nova moeda, rotina, fuso horário e custos de viagem. Ainda assim, o objetivo é transformar essa experiência em uma ponte para outras vozes da literatura fantástica brasileira.

Com “Voraz”, Carol Façanha amplia uma obra que combina fantasia, crítica social e personagens femininas dispostas a desafiar os papéis que lhes foram impostos. E, a partir de Glasgow, a escritora promete levar essa investigação para novos territórios literários, acadêmicos e internacionais.

Leia “Voraz” e acompanhe o trabalho de Carol Façanha para conhecer uma das vozes mais inventivas da literatura fantástica brasileira contemporânea.

Obrigado Lavanda Literária, a melhor assessoria de comunicação especializada no meio editorial, pela parceria e por proporcionar a produção deste conteúdo exclusivo.

Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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