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Chocolate cultivado em laboratório pode chegar ao mercado até 2026 e mudar a indústria do cacau

O chocolate que chega às prateleiras hoje não é tão diferente daquele produzido no século 19. A cadeia do cacau ainda depende fortemente de plantações na África Ocidental, rotas comerciais herdadas do período colonial e poucos grandes intermediários que controlam preços e oferta. Agora, duas empresas acreditam que essa lógica pode ser quebrada com cacau cultivado em laboratório.

A belga Puratos, gigante global de ingredientes para panificação e confeitaria, anunciou uma parceria com a startup americana California Cultured para desenvolver chocolate feito a partir de cacau cultivado por células. O objetivo é lançar um produto comercialmente viável para uso profissional até o fim de 2026, inicialmente nos Estados Unidos.

A tecnologia parte de amostras retiradas de plantas de cacau selecionadas por aroma e sabor. Em vez de plantar, colher e fermentar grãos ao longo de meses, a California Cultured cultiva diretamente as células do cacau em tanques com nutrientes. Em poucos dias, esse material pode ser transformado em chocolate após processos semelhantes aos tradicionais, como fermentação e torra.

Segundo o CEO da startup, Alan Perlstein, a ideia é cultivar exatamente o tecido que vira chocolate. O desafio não está apenas na ciência, mas na escala. Levar o processo do laboratório para uma linha industrial pode levar de seis meses a até três anos, dependendo da infraestrutura e da aprovação regulatória.

Esse não é um projeto isolado. Diversas empresas investigam alternativas ao cacau tradicional, impulsionadas por mudanças climáticas, colheitas instáveis e preços recordes da matéria-prima. A Puratos afirma que o cacau cultivado não pretende substituir os agricultores, mas funcionar como um complemento mais estável e independente do clima.

Antes de chegar ao consumidor, o chocolate de laboratório ainda precisa vencer três barreiras importantes. A primeira é a regulação. Desde 2024, a California Cultured busca aprovação da FDA e precisa obter o selo GRAS, que atesta que o ingrediente é seguro para consumo. A segunda é a aceitação do público, já que grandes marcas vendem chocolate com base em tradição e familiaridade. A terceira é o custo. Hoje, produzir cacau em laboratório ainda é mais caro do que o método convencional, principalmente por falta de escala.

Se essas barreiras forem superadas, o impacto pode ser enorme. O mercado global de chocolate movimenta mais de 120 bilhões de dólares por ano e depende do trabalho de milhões de pequenos agricultores. Ao mesmo tempo em que promete reduzir problemas ambientais e garantir fornecimento constante, o cacau cultivado levanta dúvidas sobre o futuro desses produtores.

A Puratos defende que a inovação é necessária diante das crises recentes de safra e vê o chocolate de laboratório como uma forma de fortalecer a resiliência da indústria. Já críticos alertam que a tecnologia pode surgir justamente quando agricultores começam a conquistar melhores condições e mais poder de negociação.

Com investimentos pesados e prazos definidos, o chocolate cultivado em laboratório deixou de ser apenas conceito. Se chegar ao mercado como prometido, pode mudar não só o sabor das barras, mas toda a lógica por trás de um dos doces mais populares do mundo.

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Jornalista há mais de 20 anos e fundador do NERDIZMO. Foi editor do GamesBrasil, TechGuru, BABOO e já forneceu conteúdo para os principais portais do Brasil, como o UOL, GLOBO, MSN, TERRA, iG e R7. Também foi repórter das revistas MOVIE, EGW e Nintendo World.

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