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Cidadãos se rebelam contra câmeras de vigilância com IA e freiam expansão da Flock Safety nos EUA

Enquanto a empresa de vigilância Flock Safety vive um momento de forte expansão nos Estados Unidos, a reação nas ruas mostra que muita gente não está nada satisfeita com essa onda de câmeras inteligentes. Em várias cidades, moradores comuns estão questionando contratos, protestando em audiências públicas e até partindo para ações diretas contra a tecnologia, principalmente por preocupações com privacidade e transparência.

Um dos casos mais recentes aconteceu em Longmont, no Colorado, onde a cidade já conta com pelo menos 23 câmeras e leitores de placas equipados com inteligência artificial da Flock. Durante uma audiência que durou cerca de quatro horas, praticamente todas as cadeiras estavam ocupadas e a maioria esmagadora dos presentes foi até lá para criticar o acordo entre o município e a empresa. Segundo a revista local Yellowscene, cerca de 90% das pessoas se manifestaram contra o uso do sistema, apontando riscos à privacidade e falta de clareza sobre como os dados são tratados.

Entre as falas mais contundentes esteve a do engenheiro de software e morador da cidade Andrew Gentry. Ele chamou a atenção para uma possível contradição entre o que a prefeitura afirma e o que aparece nas informações oficiais da Flock. De acordo com ele, o site da cidade garante que as câmeras comunitárias não utilizam reconhecimento facial nem análises preditivas, mas esse mesmo compromisso não aparece de forma clara na documentação da empresa. Para Gentry, isso levanta a suspeita de que padrões de privacidade possam ter sido flexibilizados sem um debate público adequado. Ele também criticou a política de retenção de dados da Flock, que ampliou o período de armazenamento de imagens de 14 para 30 dias, algo que, na visão dele, estica ainda mais os limites do que antes era considerado aceitável.

Ao final da audiência, o conselho municipal decidiu, por cinco votos a um, barrar qualquer expansão futura do contrato com a empresa. O destino das câmeras já instaladas ainda não foi definido, mas a decisão foi vista como uma vitória importante para quem se opõe à vigilância automatizada na região.

Longmont, no entanto, está longe de ser um caso isolado. Em diferentes partes do país, comunidades inteiras e grupos ativistas vêm se mobilizando contra esse tipo de tecnologia, geralmente implementada a pedido de departamentos de polícia. O principal produto da Flock, os sistemas de reconhecimento automático de placas, tem sido alvo de críticas constantes, tanto por erros e falsos positivos quanto pelo potencial de abuso. Há registros de casos em que a tecnologia foi usada de forma claramente inadequada, como o de um chefe de polícia em Atlanta que teria utilizado os dados para perseguir e assediar pessoas, ou o de um policial do Texas que acessou informações de dezenas de milhares de leitores para rastrear uma mulher suspeita de buscar um aborto fora do estado.

Em cidades como Yakima, no estado de Washington, Cleveland, em Ohio, e Eugene, no Oregon, moradores tentam barrar a instalação das câmeras, que funcionam como pontos de uma grande rede interligada de vigilância. Em outros locais, protestos públicos foram organizados, com a ironia de que os próprios manifestantes acabam se tornando alvos das câmeras que contestam.

Nem todo mundo, porém, escolhe os caminhos institucionais. Recentemente, um homem foi acusado de arrancar 13 câmeras da Flock usando ferramentas em Suffolk, na Virgínia. Paralelamente, surgiu o projeto de código aberto DeFlock, que aposta no trabalho colaborativo para mapear leitores de placas espalhados pelo país. A iniciativa chegou a receber uma notificação legal da Flock para encerrar as atividades, mas o responsável pelo projeto segue em frente com o apoio da Electronic Frontier Foundation.

Ainda é cedo para saber quais dessas estratégias terão mais impacto no longo prazo. O que já parece claro é que a resistência ao avanço da vigilância por inteligência artificial está crescendo, e em ritmo acelerado. Com tantas ações acontecendo ao mesmo tempo, não vai faltar material para medir até onde a população está disposta a ir para defender sua privacidade.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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