Ryan Murphy mais uma vez aposta em uma premissa chamativa, provocadora e com potencial para render uma discussão social forte, e é justamente isso que faz The Beauty: Lindos de Morrer chamar atenção logo de cara. A nova série da FX chega em um momento em que a obsessão pela aparência perfeita nunca esteve tão em evidência. Em tempos de harmonização facial, medicamentos para emagrecimento e um culto cada vez mais agressivo ao corpo ideal, a ideia de transformar a beleza em uma doença sexualmente transmissível parece certeira demais para o nosso tempo. Baseada nos quadrinhos de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, a produção imagina uma realidade em que alcançar o padrão estético dos sonhos deixou de ser apenas desejo e passou a funcionar como uma espécie de contágio. A partir daí, a história constrói um mistério que começa com uma investigação policial e vai tentando revelar como esse fenômeno se espalhou de forma tão sedutora pela sociedade.

Desde o anúncio, The Beauty: Lindos de Morrer já despertava curiosidade por reunir um elenco forte, liderado por Rebecca Hall, e por prometer uma mistura de ficção científica, horror corporal e crítica social. Não era difícil olhar para a proposta e imaginar ecos de Arquivo X, A Substância, A Mosca, Corrente do Mal e até um pouco de Black Mirror. Em alguns momentos, a série também flerta com aquela visão mais plástica e provocadora de Estética, especialmente na forma como aproxima corpo, poder, desejo e status. A premissa tem força, o universo é interessante e a embalagem visual ajuda bastante a vender essa atmosfera de beleza, decadência e inquietação. O problema é que, por mais sedutora que a série seja, ela nem sempre consegue ir tão fundo quanto sua própria ideia merecia.
Ainda assim, é impossível negar que existe um apelo real em assistir a The Beauty. A temporada tem um início eficiente, que fisga rápido e sabe criar suspense. A abertura aposta no caos, no estranhamento e no impacto visual para mostrar o que acontece com quem se submete a esse misterioso processo de transformação, e isso funciona muito bem como gancho. Quando os personagens de Rebecca Hall e Evan Peters entram em cena, a trama ganha ritmo e encontra uma linha investigativa que torna tudo ainda mais envolvente. Como entretenimento, a série passa bem. Ela tem atmosfera, mistério, visual marcante e um conceito forte o bastante para manter o interesse do começo ao fim. É o tipo de produção gostosa de assistir, daquelas que fazem o espectador seguir em frente pela curiosidade, pelo clima e pela vontade de descobrir onde aquela ideia vai desembocar.
O problema é que, quanto mais a história avança, mais cresce a sensação de que ela poderia ser muito melhor. Em vez de aprofundar a investigação e explorar com mais firmeza a dupla central, a narrativa vai se espalhando em diferentes núcleos e personagens paralelos que nem sempre acrescentam tanto assim. A estrutura fragmentada, que poderia enriquecer o mistério, em vários momentos parece mais dispersar do que fortalecer a trama. Aos poucos, o suspense investigativo perde parte da força, e a série começa a trocar consistência por estilo, exagero e desvios que enfraquecem o impacto do que estava sendo construído.

Mesmo nesse cenário irregular, o elenco ajuda bastante a sustentar a experiência. Rebecca Hall funciona bem como eixo dramático da temporada, enquanto Evan Peters contribui para o clima de suspense com a familiaridade que já tem com esse tipo de universo. Isabella Rossellini surge como um dos nomes mais marcantes da temporada, trazendo uma presença sofisticada, estranha e magnética que combina perfeitamente com a atmosfera da série. É o tipo de atriz que muda a temperatura de uma cena sem esforço aparente, acrescentando peso dramático e uma elegância inquietante sempre que entra em quadro.

Jessica Alexander também merece destaque por imprimir carisma e personalidade à personagem, reforçando o apelo do elenco jovem e ajudando a manter o interesse do público em momentos nos quais a narrativa perde força. Anthony Ramos entrega uma interpretação segura e envolvente, marcada por naturalidade, presença e carisma, além de fortalecer uma presença latina importante dentro da série. Em uma produção que discute imagem, desejo e construção social, sua participação amplia esse panorama de maneira orgânica, sem soar apenas decorativa. Jeremy Pope também se destaca por trazer intensidade e sensibilidade à tela, acrescentando uma carga emocional que ajuda a dar mais humanidade ao conjunto. Sua interpretação tem firmeza e nuance, o que faz diferença em uma série que, por vezes, se deixa levar mais pelo impacto visual do que pelo aprofundamento dos personagens. No fim, é justamente nesse elenco, e na forma como alguns desses atores conseguem emprestar mais densidade ao material, que The Beauty encontra parte de seus melhores acertos.

Já Ashton Kutcher acaba indo na direção contrária. Entre os nomes do elenco, ele surge como um dos pontos mais fracos da temporada. Seu antagonista deveria ter impacto, carisma e ameaça, mas o que aparece em cena é um personagem sem grande força, com uma atuação que em vários momentos soa apática e artificial. Isso se torna ainda mais problemático porque a série claramente quer dar a ele um peso maior conforme a trama avança. Algumas escolhas estéticas envolvendo esse arco ainda empurram tudo para um tom quase caricato, o que enfraquece ainda mais o que deveria soar perturbador.
O texto também não extrai tudo o que podia da própria premissa. A ideia de que a beleza perfeita se espalha como uma DST é provocadora, atual e cheia de possibilidades para discutir sexo, desejo, status, controle social e o quanto as pessoas estariam dispostas a sacrificar para alcançar o padrão ideal. Só que The Beauty: Lindos de Morrer quase sempre prefere tocar nesses temas de maneira superficial. A série sugere discussões interessantes, mas raramente mergulha nelas com a força necessária. Em vez de se tornar uma crítica mais mordaz sobre a obsessão contemporânea com a aparência, ela escolhe muitas vezes o caminho da estilização, da provocação visual e da superfície.
Isso não significa que a série fracasse. Muito pelo contrário. Há entretenimento de sobra, há imagens fortes, há um universo instigante e há momentos que realmente funcionam. Mesmo quando tropeça, The Beauty continua sendo uma experiência atraente, especialmente para quem gosta de mistério, body horror e ficção pop com comentários sociais. O que frustra não é a série ser ruim, e sim perceber o quanto ela tinha material para ser mais. Justamente por ser tão fácil de assistir e tão boa em fisgar o público, fica mais evidente a sensação de oportunidade parcialmente desperdiçada.
No fim das contas, The Beauty: Lindos de Morrer é uma série envolvente, vistosa e claramente pensada para seduzir o espectador com sua mistura de horror, beleza e mistério. Como passatempo, funciona. Como entretenimento, passa bem e é gostosa de assistir. Mas também deixa a impressão de que havia ali uma obra mais afiada, mais perturbadora e mais memorável tentando emergir. Ryan Murphy entrega uma temporada que prende, diverte e desperta curiosidade, só que nunca alcança toda a potência da própria premissa. E talvez seja justamente isso que mais incomoda: The Beauty até encanta, mas poderia ser muito melhor.
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