No filme biográfico Charlie Says, a diretora Mary Harron (Psicopata Americano) aborda uma perspectiva nunca explorada antes sobre a Família Manson: as das ‘Garotas Manson’, como eram chamadas as seguidoras do carismático e perigoso líder da seita.

O enredo foca em Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel, as três mulheres que cometerem assassinatos brutais a mando de Charles Manson, e estão condenadas à prisão perpétua. Uma professora tenta desvencilhar as jovens das fantasias ensinadas por Manson ao longo dos anos, realizando um trabalho doloroso de compreensão sobre a realidade dos crimes que cometeram.

Como jovens aparentemente inofensivas e gentis puderam cometer atos tão horrorosos? Para entender, a narrativa viaja entre o presente e o passado para mergulhar no cotidiano da seita e como Manson realizava seu trabalho meticuloso de manipulação psicológica a cada dia.

 A Família Manson se estabeleceu em um antigo set de filmagens no Rancho Spahn, no fim da década de 60, nos arredores de Los Angeles. O grupo vivia de peregrinações, roubos e visitas aos depósitos de lixo da cidade grande em busca de comida.

O estilo de vida alternativo, que pregava liberdade e um lugar contrário ao sistema foi atrativo para os jovens, especialmente para aqueles que não tinham onde morar ou buscavam um lugar para fazer parte. Ali, principalmente as mulheres, encontravam um homem magnetizante, inteligente, carismático e sedutor.

 A liberdade era regada a doses de LSD, baseados e orgias. Mas ao longo da história, o paraíso hippie começa a mostrar suas hierarquias e como a ideia da “liberdade” cai em contradição junto de seu líder.

Parecido muitas vezes como um guru, Manson pregava a desconstrução do ego, mas aos poucos vemos que a mensagem é proferida por um cara egocêntrico e megalomaníaco. Com seu poder de dialética e domínios sobre a psicanálise, sempre levando as teorias de Freud, o homem constrói teias mentais impossíveis de escapar.

O líder sabia especialmente como envolver as mulheres, usando iscas perversas de inseguranças e vulnerabilidades inclusive inconscientes para mantê-las presas sob seu domínio, fazendo com que se sentissem amadas, desejadas e completas, mesmo quando as coisas não eram tão dóceis assim.

Ao proibir que os seguidores mantivessem contato com familiares, e ao escolher os nomes dos integrantes do grupo, Manson os destitua de suas identidades para moldá-los da maneira como quisesse.

A divisão das tarefas e costumes, como “homens se servem primeiro”, mostram uma divisão patriarcal, com a figura central descrita como “o pai que todas as garotas querem” e podem “foder com ele”, como diz uma das personagens.

Respeitado. Admirado. Reverenciado. Manson sabia como construir seu império: longe da sociedade, onde não conseguiu viver fora de prisões e centros de detenção, ele encontrou um mundo onde poderia nutrir seu ego e poder.

O harém era famoso pelas mulheres que ele oferecia aos amigos em troca de favores. Dennis Wilson, da banda Beach Boys era um ávido frequentador do local, e inclusive gravou a música de Manson, Cease to Exist, com o título Never Learn Not To Love.

A escolha pelos arredores de LA não foi à toa. Ele queria ser famoso e espalhar sua palavra através da música. Mas nunca conseguiu. Também não foi aleatória a escolha do primeiro assassinato comandado por ele: cinco pessoas foram mortas na casa que Sharon Tate, uma das vítimas, e seu marido Roman Polanski compraram de Terry Melcher, o produtor musical que havia negado a Manson um contrato como músico em sua produtora.

O líder revela sua verdadeira face toda vez que é contrariado ou perde o controle da situação. Sua inteligência e benevolência rapidamente são trocadas por desequilíbrio, sempre sugerindo que ele vai explodir a qualquer momento. As doses de insanidade aparecem quando ele discursa sobre a grande missão que a Família terá no futuro.

Quando o White Album dos Beatles foi lançado, ele tinha certeza de que havia uma mensagem por trás da música Helter Skelter: a profecia apocalíptica de uma guerra racial, em que os negros dominariam os brancos.

Ele pregava à Família que durante a guerra viveriam em uma caverna onde fariam amor e se multiplicariam em milhares para governar o resto do mundo quando voltassem.

O plano dos assassinatos era justamente iniciar tal conflito: a ideia era chamar a atenção da mídia e culpar os Panteras Negras. A guerra nunca aconteceu de fato. E Manson nunca foi líder de ninguém além de seus seguidores, que como o filme mostra, passaram por uma lavagem cerebral pesada, chegando a acreditar com fervor em coisas absurdas.

Charlie Says é importante para entender as muitas camadas de Charles Manson. Mas é fundamental para compreender as dinâmicas de poder através da manipulação psicológica e como uma mente é capaz de subjugar várias outras mentes.

Sobretudo, como alguém é capaz de abrir mão de si mesmo para se sentir pertencente, amado, e deixar de pensar por si próprio em nome da devoção pela palavra de um líder.  

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