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IA pode estar criando um ciclo que ameaça a própria economia que a sustenta

A inteligência artificial está avançando rapidamente, mas o crescimento da tecnologia também começa a levantar uma questão curiosa. Em alguns setores, a IA pode estar alimentando um ciclo que enfraquece justamente as atividades humanas das quais ela depende.

Documentos internos da Microsoft revelados durante o processo movido pelo The New York Times contra a empresa e a OpenAI mostram que executivos já discutiam esse risco. O problema foi descrito internamente como um “doom loop”, ou ciclo de destruição, ligado principalmente à relação entre inteligência artificial e produção de conteúdo.

A IA precisa do conteúdo humano

Modelos de inteligência artificial são treinados com enormes volumes de informação produzida por pessoas. Notícias, livros, imagens, músicas, vídeos e outros materiais ajudam a formar a base usada pelos sistemas para aprender padrões.

O problema aparece quando as mesmas ferramentas passam a substituir parte do consumo desse conteúdo.

Um leitor pode perguntar algo ao ChatGPT ou ao Gemini e receber um resumo de uma reportagem sem necessariamente visitar o site que publicou o material. Com menos acessos, os veículos podem perder publicidade, assinantes e receita.

Isso reduz os recursos disponíveis para produzir novas reportagens. E menos conteúdo original pode significar uma oferta menor de material humano para alimentar a próxima geração de modelos.

É esse círculo que os documentos internos descrevem como uma ameaça ao próprio ecossistema do qual a IA depende.

Tráfego dos sites já está mudando

A preocupação não é apenas teórica. Dados do Reuters Institute mostram que o tráfego enviado pela busca orgânica do Google para mais de 2.500 sites caiu 33% globalmente entre novembro de 2024 e novembro de 2025. Nos Estados Unidos, a queda chegou a 38%.

Os responsáveis por veículos de comunicação ouvidos no levantamento esperam uma redução ainda maior nos próximos anos, principalmente com o crescimento das ferramentas de busca que entregam respostas diretamente ao usuário.

Isso cria um problema especialmente delicado para empresas que dependem de visitas vindas de mecanismos de busca para manter seus negócios.

O fenômeno pode atingir outras profissões

O mesmo princípio pode aparecer em outras áreas.

Na música, no cinema e no design, ferramentas generativas já conseguem produzir conteúdos que antes exigiam trabalho humano. Isso não significa que essas profissões necessariamente desaparecerão, mas aumenta a pressão sobre modelos de negócio que dependem da venda desse trabalho.

No mercado de trabalho, existe ainda outro tipo de ciclo. Candidatos usam inteligência artificial para produzir currículos e respostas cada vez mais semelhantes, enquanto empresas utilizam sistemas automatizados para analisar essas candidaturas.

O resultado pode ser uma corrida na qual cada lado usa mais IA para compensar as limitações criadas pelo uso da própria tecnologia.

Investimento também cria uma nova pressão

Existe uma preocupação semelhante no lado financeiro.

Os cinco maiores provedores de infraestrutura em nuvem devem gastar mais de US$ 1 trilhão em investimentos relacionados à IA entre 2025 e 2026, segundo o Banco de Compensações Internacionais. Esses gastos já superam, em alguns casos, os lucros e o fluxo de caixa disponível, aumentando a necessidade de financiamento.

Ao mesmo tempo, empresas precisam provar que essa capacidade computacional gigantesca vai gerar retorno suficiente.

É mais um exemplo de como a corrida pela inteligência artificial pode criar pressões próprias. Quanto mais as empresas investem, maior é a necessidade de encontrar aplicações capazes de transformar esse investimento em receita e produtividade.

IA não significa necessariamente colapso econômico

Apesar dos riscos, isso não significa que a inteligência artificial esteja destinada a destruir a economia.

Estudos do FMI apontam que a tecnologia também pode aumentar a produtividade, criar novas atividades e transformar profissões existentes. O problema está na velocidade da mudança e na capacidade de trabalhadores, empresas e governos de se adaptar.

O ponto central é que eficiência não é suficiente por si só. Se a tecnologia reduz custos para uma empresa, mas elimina a fonte de renda que sustenta seus clientes, fornecedores ou produtores de conteúdo, o benefício pode acabar sendo acompanhado por consequências inesperadas.

A grande questão para os próximos anos será encontrar uma forma de fazer a IA crescer sem destruir os ecossistemas humanos que tornam essa própria tecnologia útil.

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Jornalista há mais de 20 anos e fundador do NERDIZMO. Foi editor do GamesBrasil, TechGuru, BABOO e já forneceu conteúdo para os principais portais do Brasil, como o UOL, GLOBO, MSN, TERRA, iG e R7. Também foi repórter das revistas MOVIE, EGW e Nintendo World.

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