Antes dos celulares no bolso, do streaming infinito e das redes sociais disputando cada segundo de atenção, o entretenimento passava por coisas bem mais simples. Brincar na rua, fazer artesanato e se reunir no chão da sala para jogar um bom e velho jogo de tabuleiro faziam parte da rotina. Para quem cresceu antes da era das telas, era comum largar a bicicleta na garagem e passar horas jogando Banco Imobiliário, Detetive ou Jogo da Vida com amigos e familiares.

Nos últimos anos, os jogos de tabuleiro voltaram a ganhar espaço. Seja pelo fator nostalgia, por noites de jogos em bares ou por famílias que nunca abandonaram o hábito, eles reaparecem como uma forma acessível de diversão e convivência presencial em um mundo cada vez mais digital. Além disso, encaixam-se bem em um estilo de vida mais simples e sustentável: um único jogo pode atravessar gerações e não depende de baterias, atualizações ou metais raros para funcionar.
Os benefícios dos jogos de tabuleiro para o desenvolvimento infantil já são conhecidos, especialmente no estímulo à leitura e à socialização. Agora, uma nova pesquisa acrescenta mais um ponto positivo à lista. Jogos baseados em números, como Banco Imobiliário, Othello e Ludo, podem contribuir diretamente para melhorar o desempenho das crianças em matemática.
De acordo com o estudo, crianças entre três e nove anos apresentam avanços em habilidades como contagem, soma e na compreensão de números maiores e menores quando participam regularmente de jogos de tabuleiro com foco numérico. O formato desses jogos, que combina movimento, regras simples e progressão visual, parece facilitar o aprendizado de conceitos matemáticos básicos.
“Os jogos de tabuleiro fortalecem as habilidades matemáticas em crianças pequenas”, explica o pesquisador Jaime Balladares, da Pontificia Universidad Católica de Chile. Segundo ele, esse tipo de atividade pode ser encarado como uma estratégia educativa com impacto tanto em competências matemáticas simples quanto em habilidades mais complexas. Além disso, os jogos podem ser facilmente adaptados para incluir objetivos de aprendizagem em matemática e em outras áreas do conhecimento.
A pesquisa analisou resultados de 19 estudos publicados a partir dos anos 2000, todos envolvendo crianças de três a nove anos. Em média, os participantes jogavam cerca de duas vezes por semana, por sessões de 20 minutos, ao longo de seis semanas. Antes e depois desse período, as crianças eram avaliadas em tarefas relacionadas à matemática, como contar em voz alta e resolver operações simples.
Os pesquisadores observaram melhorias em diferentes aspectos, desde o reconhecimento básico de números até a capacidade de somar e subtrair corretamente, além do interesse geral pela matemática. Em mais da metade das tarefas analisadas, houve avanço significativo após as sessões de jogos. Em cerca de um terço dos casos, as crianças que participaram das atividades com jogos tiveram desempenho superior ao das que não jogaram.
Para Balladares, ainda há muito espaço para novas pesquisas que explorem como esses jogos podem influenciar outras habilidades cognitivas e aspectos do desenvolvimento infantil. Ele acredita que, nos próximos anos, o uso de jogos de tabuleiro como ferramentas educativas deve crescer, acompanhando a criação de propostas cada vez mais bem pensadas para o aprendizado.
Enquanto isso, a dica é simples: vale a pena tirar o jogo do armário e convidar as crianças para brincar. E os adultos também não ficam de fora. Mesmo que os tempos das tardes inteiras na rua tenham passado, os jogos de tabuleiro continuam sendo uma forma divertida, educativa e totalmente livre de telas de passar tempo juntos.