Durante muito tempo, os contos de fadas nos ensinaram que a felicidade vinha com um pacote fechado, com um príncipe, um beijo e um destino já decidido. Mas e se a verdadeira magia estiver justamente em recusar esse roteiro?
“À Espera de um Feitiço”, estreia de Amy Coombe publicada no Brasil pela Editora Intrínseca, parte dessa inquietação para entregar uma fantasia que dialoga com o clássico enquanto desmonta suas estruturas com delicadeza e uma boa dose de ironia. A obra se encaixa no crescente universo da cozy fantasy, um subgênero que prefere o aconchego ao épico, o desenvolvimento emocional às batalhas grandiosas.

No centro da história está Tanadelle de Widdenmar, uma princesa que simplesmente não quer mais performar o papel que esperam dela. Em vez de compromissos reais e aparências impecáveis, Tandy sonha com algo muito mais simples e, curiosamente, mais revolucionário, como tempo para ler, pensar e viver sem um destino imposto.
É então que surge o elemento fantástico que vira a chave da narrativa. Uma maldição a prende em uma livraria antiga até que ela descubra o que realmente deseja. E aqui o livro já mostra a que veio ao trocar a torre isolada por estantes empoeiradas, o desespero pela contemplação, e a urgência pela descoberta.

Nesse cenário, entra também um pirata que foge completamente do arquétipo do herói clássico. Ele não está ali para salvar ninguém e talvez nem queira. Essa inversão de expectativas é uma das engrenagens mais interessantes da obra, que constantemente brinca com aquilo que o leitor acha que já conhece.
Mas “À Espera de um Feitiço” não se sustenta apenas na estética acolhedora típica da cozy fantasy. O gênero, que tem ganhado força justamente por oferecer histórias mais intimistas e reconfortantes, também abre espaço aqui para discussões relevantes. A presença de personagens queer é tratada com naturalidade, sem transformá-los em alegorias de sofrimento. São personagens que existem para além de conflitos externos, com vidas, afetos e escolhas próprias.

Outro ponto que adiciona profundidade à narrativa é a relação de Tandy com sua família. Seus pais, presos a convenções rígidas, insistem em soluções antiquadas, como a clássica ideia de que um beijo de amor verdadeiro pode resolver tudo. O conflito gerado por essa pressão revela uma camada mais realista e até desconfortável, que contrasta com o tom acolhedor da história.

Esse equilíbrio entre leveza e questionamento é, aliás, uma das principais forças do livro. A cozy fantasy funciona aqui não como escapismo puro, mas como um espaço seguro para repensar estruturas, afetos e expectativas.
Amy Coombe, que hoje vive em Londres, estreia mostrando domínio sobre o tipo de narrativa que quer contar. Ela entende que histórias moldam visões de mundo, e que revisitá-las pode ser tão poderoso quanto inventar algo completamente novo.

No fim, “À Espera de um Feitiço” não é sobre quebrar um encantamento específico, mas sobre algo mais amplo: a coragem de reescrever a própria história. E, convenhamos, isso tem um impacto muito maior do que qualquer final feliz pronto.