Células cerebrais humanas cultivadas em laboratório conseguiram aprender a jogar DOOM. A demonstração foi feita pela Cortical Labs, startup australiana de biotecnologia, usando o CL1, um computador biológico que combina tecido vivo com hardware tradicional.
O sistema abriga cerca de 200 mil neurônios humanos sobre um microchip equipado com uma matriz de eletrodos, capaz de enviar e receber sinais elétricos em tempo real.

Os neurônios usados no CL1 são derivados de células-tronco obtidas a partir de doadores adultos e mantidos vivos em uma solução nutritiva. Eles se conectam diretamente aos eletrodos do chip, que traduzem informações digitais em estímulos elétricos.
No caso do DOOM, a imagem do jogo é convertida em padrões de sinais que representam paredes, inimigos e espaços livres. As respostas elétricas dos neurônios são então mapeadas para ações como andar ou atirar.
A adaptação do jogo foi feita pelo desenvolvedor Sean Cole, que utilizou Python e a API da Cortical Labs para integrar o DOOM ao CL1, localmente ou via plataforma Cortical Cloud.
Após cerca de uma semana de treinamento, os neurônios passaram a executar ações básicas no jogo. Eles superam movimentos aleatórios, identificam ameaças simples e chegam a eliminar inimigos, ainda que com movimentos irregulares e desempenho abaixo do de um jogador humano iniciante.
O feito representa um salto importante em relação ao experimento anterior da empresa, no qual um conjunto maior, com cerca de 800 mil neurônios, aprendeu a jogar Pong. DOOM é muito mais complexo, com ambiente tridimensional, múltiplos inimigos, armas diferentes e decisões rápidas sob pressão.
O CL1 também evoluiu desde então, passando a operar com 59 eletrodos e latência inferior a um milissegundo, o que permite respostas quase instantâneas.

Pesquisadores envolvidos no projeto destacam que sistemas biológicos aprendem de forma diferente das inteligências artificiais tradicionais. Em vez de algoritmos de retropropagação, os neurônios se adaptam naturalmente graças à plasticidade biológica. Ainda não está claro como esse aprendizado ocorre sem olhos, corpo ou consciência, o que torna o CL1 uma ferramenta valiosa para estudos sobre cognição e processamento cerebral.
A Cortical Labs já comercializa o CL1 para instituições de pesquisa interessadas em estudar o funcionamento do cérebro, testar medicamentos e reduzir a dependência de modelos animais. Embora esteja longe de substituir computadores convencionais, o fato de neurônios vivos conseguirem lidar com um jogo caótico como DOOM mostra que a computação biológica pode ter vantagens em ambientes dinâmicos e imprevisíveis, abrindo novas possibilidades para ciência e tecnologia.
Veja mais sobre tecnologia!