Se a última temporada de Game of Thrones já estava sendo alvo de muitas críticas, o episódio final veio para deixar os fãs com um gostinho de decepção.

A pesquisadora Zeynep Tufekci, professora da Universidade da Carolina do Norte, fez uma análise de todas as temporadas e traz uma explicação pelo ódio generalizado pela temporada conclusiva da série.

Esse desgosto é resultado de uma mudança no formato da narrativa da história, não exatamente seu desfecho, explica Zeynep em um artigo da Scientific American.

Enquanto se manteve alinhada com os livros originais de George R. R. Martin, a série se destacou por abordar uma narrativa “sociológica e institucional, em um ambiente [hollywoodiano] dominado pelo [modelo] psicológico e individual”.

Após assumir a oitava temporada, os showrunners David Benioff e D. B. Weiss mudaram a narrativa sociológica da série para a psicológica – o modelo principal que Hollywood e outras séries de TV usam para contar histórias.

A pesquisadora especula que a conclusão da história seria a mesma, mas foi contada de uma maneira diferente do que a série abordou durante suas sete temporadas.

Em narrativas sociológicas, os personagens têm suas histórias individuais e entidades, mas também são moldados pelas instituições e eventos externos que os rodeiam.

GoT manteve sua estrutura nessa narrativa e este talvez seja um dos principais motivos de 17 milhões de pessoas ligarem suas TVs aos domingos para acompanha-la.

Esse modelo já é sinalizado pelo fato de que personagens centrais não carregam toda a carga narrativa e explicativa. Ou seja, desde a primeira temporada estes personagens morrem e não colocam um fim na história.

Ainda nessa narrativa, os personagens se desenvolvem de maneira muito próxima de uma pessoa real. A união de histórias internas, desejos, psicologia, pressões externas, instituições, normas e eventos que normalmente moldam um ser humano foi a base do construção dos personagens em GoT.

A série criou uma rede de comportamento dos personagens onde é sempre possível analisar a conduta de cada um deles baseado em seu histórico de vida. Dessa maneira, podemos ter uma visão menos superficial de suas ações: desde os atos malignos, como as boas intenções podem ser subvertidas e até os incentivos que estruturam o comportamento de cada um.

Essa complexidade em torno da construção dos personagens levou a narrativa de GoT muito longe dos moldes hollywoodianos e das narrativas superficiais, que abordam uma mensagem moralista simplista e o clichê da luta entre o bem e o mal.

A narrativa sociológica ainda faz com que o espectador se coloque no lugar de qualquer um dos personagens e pense se faria mesma coisa se estivesse em determinada situação.

É algo que vai muito além da empatia, porque desperta uma compreensão mais ampla no espectador quando ele pensa “é, eu também faria isso sob tais circunstâncias”.

A mudança na narrativa da última temporada pode ser vista quando não há uma matança generalizada de personagens principais: “Foi o primeiro indicador da nova direção do storytelling dos roteiristas, que passaram a dar mais peso às histórias individuais, abandonando a narrativa sociológica”, explica a pesquisadora.

Weiss e Benioff perderam a mão para desenvolver um desfecho digno dos personagens, inclusive para abordar outro tema sociológico tão importante: a corrupção pelo poder.

“A corrupção pelo poder é uma das mais importantes dinâmicas psicossociais que estão por trás de muitos pontos de inflexão importantes na história e em como surgem os males da sociedade”, diz Zeynep.

Daenerys é um exemplo de como o poder corrompe o homem, mas é um tema que também deixou a desejar eu seu fim.

Ao longo da série, vimos a personagem se transformar em uma dinâmica dual à medida que buscava poder absoluto: um lado partia de perspectiva egoísta (seu desejo de ter seus filhos como governantes) e o outro de uma perspectiva altruísta (o desejo de libertar os escravos e prisioneiros, dos quais ela já foi um dia).

Os roteiristas reduziram toda complexidade de escolhas e impulsos de Daenerys, justificando seus atos tirânicos como um determinismo genético simplista, que foge completamente do que testemunhamos ao longo das sete temporadas.

Não que a narrativa sociológica descarte aspectos psicológicos e até mesmo genéticos de um personagem, mas o ponto principal é como tudo isso são interações complexas com consequências emergentes: a maneira como o mundo realmente funciona.

“A preferência pela narrativa individual e psicológica é compreensível: a história é mais fácil de contar à medida que gravitamos em direção à identificação com o herói ou odiamos o anti-herói, no nível pessoal”, explica a pesquisadora.

Essa mudança estrutural da narrativa não compromete só o prestígio da série, mas também se torna um desserviço para o nosso momento histórico, porque complica a compreensão e a reação a mudanças sociais, estimulando as pessoas a sempre buscarem um vilão simples para os problemas complexos da sociedade atual.  

E você, o que achou da última temporada de Game of Thrones?

Leia também: Porque o final de Game of Thrones não merece tanto ódio

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