A cultura pop japonesa transformou mitologias antigas em universos épicos capazes de conquistar fãs no mundo inteiro. De deuses gregos reinterpretados em animes a sistemas complexos de poder espiritual, o anime provou que praticamente qualquer tradição cultural pode ganhar novas camadas de significado quando traduzida para esse formato. Agora, um projeto brasileiro quer seguir esse caminho, mas com uma proposta inédita: levar o universo da Umbanda para uma animação com estética dark fantasy.
Esse é o objetivo de “A Gira”, anime inspirado no livro A Gira – Tranca Rua das Almas, criado pelo carioca Valter Ramos, empresário do ramo de tecnologia, dirigente espiritual e apaixonado por animes. Aos 46 anos, Ramos lidera junto com sua esposa Julieta Castro duas casas religiosas, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Glória e a Cabana do Mestre Omulú. Ele também participa do movimento Girão de Umbanda, que reúne mais de cinquenta tendas em encontros coletivos realizados duas vezes por ano para celebrações espirituais.
A ideia do projeto nasceu de um desejo antigo do autor: ver a Umbanda representada na cultura pop com respeito e profundidade. Segundo ele, essa vontade também foi motivada pela missão de combater estigmas que historicamente cercam entidades como Exu e Pomba Gira. O livro que deu origem ao anime foi inspirado espiritualmente pela entidade Exu Tranca Rua das Almas e apresenta diálogos intensos, conflitos espirituais e momentos de grande tensão dramática.
Ao perceber que a narrativa possuía um tom forte e visualmente marcante, Ramos decidiu que a linguagem do anime seria a forma ideal de expandir esse universo. O projeto está sendo desenvolvido em parceria com seu filho Victor Hugo Norberto Ramos e uma equipe de ilustradores fãs de anime e praticantes da mesma religião.
A proposta inicial é adaptar diretamente o primeiro livro da trilogia, mas com uma expansão narrativa própria da animação. A história inteira se passa durante uma única noite em um terreiro de Umbanda, que se transforma no palco de uma grande batalha espiritual. A primeira temporada foi planejada como uma espécie de antologia em tempo real com 21 episódios, cada um explorando diferentes histórias e conflitos que surgem durante essa noite de gira.

Na trama, a fronteira entre os mundos espiritual e material começa a se romper. O dirigente espiritual do terreiro percebe que algo mudou na chamada “ordem das almas”. O local passa então a funcionar como uma verdadeira fortaleza espiritual cercada por forças sombrias. No centro desse conflito está Exu Tranca Rua das Almas, que assume o papel de comandante da defesa do espaço sagrado contra a invasão de um poderoso mago das trevas.
Mas o conflito não acontece apenas no plano espiritual. Enquanto entidades lutam contra ameaças invisíveis, os frequentadores do terreiro enfrentam seus próprios dilemas emocionais. Um dos arcos mais importantes acompanha Jair, um viúvo que vive preso ao luto há mais de duas décadas e cuja jornada de cura espiritual se torna um dos pontos mais emocionantes da história.
No universo de “A Gira”, os Exus não aparecem como figuras demonizadas, mas sim como guardiões espirituais que atuam como uma espécie de “polícia do karma”. Eles são retratados como entidades firmes e sábias que ajudam a quebrar feitiços negativos e cobrar responsabilidade pelas ações humanas.
As Pombas Giras também desempenham papel central na narrativa. Personagens como Dona Sete Catacumbas e Dona Maria Padilha surgem como estrategistas poderosas e alquimistas espirituais. Uma delas utiliza rosas encantadas para criar barreiras místicas que protegem o terreiro, enquanto outra atua na cura emocional de pessoas atormentadas por dores profundas.
Visualmente, o projeto pretende seguir uma estética que mistura dark fantasy com realismo urbano brasileiro. No plano físico, o anime mostrará elementos tradicionais da Umbanda, como guias, cartolas, capas e charutos. Já no plano astral, esses elementos se transformam em manifestações energéticas grandiosas, com armas espirituais, vestes imponentes e poderes visualmente intensos, em uma releitura épica inspirada na estética típica dos animes.
A ambientação mistura cenários urbanos contemporâneos com ambientes espirituais surrealistas. Uma rua escura iluminada por postes falhando pode se transformar no palco de um confronto espiritual, enquanto o interior simples de um terreiro ganha camadas místicas quando a visão astral entra em cena. A trilha sonora também promete reforçar essa identidade brasileira, combinando o som tradicional dos atabaques com rock e música orquestral. O álbum com as músicas da série já foi enviado para plataformas como Spotify, Apple Music e YouTube Music.
Além da ação e da fantasia, o projeto também pretende abordar temas mais profundos, como intolerância religiosa, espiritualidade, ética e o conflito entre fé e ciência. Parte da narrativa mostra entidades confrontando falsos líderes religiosos e médiuns que utilizam a espiritualidade de forma corrupta, reforçando a mensagem de que a verdadeira caridade espiritual não envolve exploração ou manipulação.
Atualmente o projeto se encontra em fase de pitch, ou seja, de apresentação para possíveis parceiros e investidores. O roteiro da primeira temporada, perfis de personagens e concept arts já estão prontos. Enquanto buscam apoio de estúdios e plataformas de streaming como Crunchyroll, Netflix ou Prime Video, os criadores também consideram lançar campanhas de financiamento coletivo para mobilizar fãs de anime e comunidades ligadas às religiões afro-brasileiras.
Para Valter Ramos, o potencial cultural do projeto é enorme. Ele acredita que o anime pode ajudar a ampliar a visibilidade da Umbanda e das tradições espirituais brasileiras na cultura pop global. Se mitologias japonesas, gregas ou nórdicas conquistaram fãs ao redor do mundo através da animação, a mitologia urbana brasileira também teria força para gerar universos narrativos fascinantes.
A expectativa é que praticantes da religião se sintam representados com respeito, enquanto fãs de anime descubram um novo sistema de magia e espiritualidade cheio de elementos originais. Pontos riscados, atabaques capazes de gerar ondas de choque espirituais e barreiras místicas feitas de pétalas de rosas são apenas algumas das ideias que prometem atrair o público.
No centro de tudo está a mensagem principal da obra, resumida em uma frase atribuída ao próprio Exu Tranca Rua das Almas: nas almas não há esconderijo.
Se o projeto alcançar o sucesso esperado, os criadores já imaginam expandir esse universo para mangás e histórias focadas nas origens dos Orixás e outras entidades espirituais. Em outras palavras, a ideia é transformar “A Gira” em um verdadeiro universo narrativo inspirado na espiritualidade brasileira.
E como dizem os criadores do projeto, o ritual já começou. A gira está aberta.
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