“A história do Brasil vista através dos quadrinhos”, é assim que André Diniz entrega “Revolta da Vacina“, nova graphic novel lançada pela DarkSide Books que resgata o tumultuado ano de 1904 no Rio de Janeiro para falar de ciência, política e desigualdade de um jeito que dói de tão atual. A obra marca a estreia do premiado quadrinista no catálogo da editora especializada em terror e fantasia, e chega como um soco no estômago de quem acompanhou os últimos anos de negacionismo e crise sanitária no país.

Na trama, acompanhamos Zelito, um jovem ilustrador cearense que abandona a família em Fortaleza depois da morte do irmão mais velho e parte para o Rio de Janeiro com a impossível missão de provar ao pai descrente que consegue construir carreira como cartunista nos grandes jornais da Capital Federal. O problema é que o ano é 1904 e a cidade vive um caldeirão social e sanitário.

Enquanto Zelito corre atrás de trabalho e tenta sobreviver num Rio caótico, de urbanização colonial e população crescendo sem controle, o governo implementa a vacina compulsória contra a varíola, idealizada pelo sanitarista Oswaldo Cruz, e ao mesmo tempo promove uma reforma urbana que expulsa moradores de cortiços para os morros. O resultado é uma revolta popular turbinada por fake news da época, desconfiança legítima após campanhas truculentas contra o mosquito da febre amarela e manipulação política, que culmina em dias de rebelião que sacudiram a então capital do país.

Se você curtiu a mistura de história do Brasil com ficção em quadrinhos, “Revolta da Vacina” vai fazer você curtir outra obra que também acerta em cheio: “Angola Janga“, de Marcelo D’Salete, traz a mesma pegada de resgatar um episódio histórico brasileiro conhecido, no caso o Quilombo dos Palmares, com narrativa ficcional que humaniza personagens e contextos.

André Diniz não é estreante em usar fatos históricos como pano de fundo para narrativas ficcionais. O quadrinista, com mais de trinta obras publicadas no Brasil e no exterior, já tinha experimentado essa fórmula em títulos como “Olimpo Tropical“, “Que Deus te abandone” e, claro, “Morro da Favela“, republicado pela DarkSide Books em 2020. A ideia, segundo ele mesmo, é trazer o leitor para dentro do contexto da época, fazendo-o viver os problemas e situações na pele do protagonista, o que gera imersão e empatia com vidas que parecem distantes, mas estão mais próximas do que imaginamos.

Visualmente, “Revolta da Vacina” aposta no preto e branco com traços fortes, num aspecto que remete à xilogravura, estilo que Diniz diz ser o que mais gosta de trabalhar nos últimos anos. A escolha estética não é só uma questão de gosto pessoal, mas também reforça o tom sombrio e documental da obra, criando um contraste que realça a violência urbana, a tensão das manifestações e a atmosfera opressiva do Rio de 1904.

Narrativamente, Diniz equilibra pesquisa meticulosa e liberdade criativa. O protagonista Zelito é fictício, mas vive situações reais do período, permitindo que o leitor acompanhe a Revolta da Vacina de dentro do turbilhão, sem a frieza de um livro didático. O autor empresta ao personagem parte de si mesmo, especialmente naquela energia adolescente de querer chegar ao topo do mundo cedo demais, fazer besteira e tentar consertar fazendo mais besteira ainda, como ele mesmo admite em entrevista.

O posfácio do historiador Luiz Antonio Simas fecha o pacote com chave de ouro, contextualizando a desconfiança popular da época: sem esclarecimento sobre a eficácia da vacinação, a população sabia apenas que brigadas de vacinadores acompanhadas por policiais armados tinham autorização para violar residências, vacinar as pessoas e prender quem se recusasse. Até Rui Barbosa declarou que ninguém teria o direito de contaminar o próprio sangue com um vírus, imagine então o que pensava a população mais pobre e afastada da educação formal.

“Revolta da Vacina” é daqueles livros que doem de ler não pela qualidade, que é excelente, mas pela sensação constante de que quase nada mudou em mais de um século. A obra funciona como um documento da persistência de nossas mazelas históricas, informando tanto o jovem leitor em seu primeiro contato com o tema quanto quem já é familiarizado com a história, mas todos inevitavelmente identificam similaridades entre o Brasil do início do século XX e o país que lutou contra a pandemia mais recentemente.

Diniz acerta em cheio ao mostrar como a comunicação falha entre governo e população, a truculência estatal e como a manipulação política cria o terreno perfeito para fake news e desconfiança, seja em 1904 ou em 2021. A luta pela ciência continua, como disse Pasteur, e essa graphic novel é um lembrete potente de que os benefícios da ciência não são para os cientistas, e sim para a humanidade.