Do ser humano ao dinossauro, da estrela-do-mar ao capim marinho, passando por cogumelos, leveduras e samambaias, toda a vida complexa da Terra compartilha uma origem surpreendentemente comum. Apesar das diferenças visíveis, todos esses organismos pertencem a um mesmo grupo chamado eucariotos, caracterizado por células que possuem um núcleo envolto por membrana. Entender como esse tipo de célula surgiu sempre foi um dos grandes mistérios da biologia, já que é justamente aí que começa a história da vida complexa no planeta.

Há décadas, cientistas tentam reconstruir esse momento crucial da evolução. A hipótese mais aceita indica que os eucariotos surgiram entre 1,6 e 2,2 bilhões de anos atrás, quando um organismo do grupo das arqueias passou a viver em associação íntima com uma bactéria capaz de usar oxigênio. Essa parceria simbiótica teria dado origem a estruturas fundamentais das células modernas, abrindo caminho para a diversidade de formas de vida que conhecemos hoje.
Seguindo esse rastro evolutivo, pesquisadores vinham tentando identificar qual linhagem de arqueias poderia representar o ancestral direto de todos os eucariotos. Em 2023, um estudo conduzido por cientistas da Universidade do Texas em Austin trouxe uma resposta bastante convincente. Ao analisar o genoma de centenas de microrganismos arqueanos, a equipe concluiu que todos os eucariotos conhecidos podem ser rastreados até um único grupo chamado arqueias de Asgard.
Dentro desse grande grupo, os pesquisadores descreveram uma linhagem específica conhecida como Hodarchaeales, apelidada de Hods. Esses microrganismos vivem em sedimentos marinhos e chamaram a atenção por possuírem proteínas que, até pouco tempo atrás, eram consideradas exclusivas dos eucariotos. Essa semelhança molecular reforça a ideia de que eles estão muito próximos do ponto de transição entre arqueias simples e células complexas.
Para Brett Baker, um dos autores do estudo e professor da universidade, o mais empolgante é justamente observar esse meio-termo evolutivo. Segundo ele, os Hods parecem ocupar uma posição de “grupo-irmão” dos eucariotos no mundo das arqueias, ajudando a visualizar como ocorreu a passagem de um tipo de célula para outro. Não por acaso, Baker costuma brincar em palestras dizendo que “somos todos Asgardianos”, uma piada que reflete bem o peso da descoberta.
Os nomes escolhidos para essas linhagens bebem diretamente da mitologia nórdica. Asgard é o reino dos deuses, enquanto Hod, ou Höðr, é o filho cego de Odin que acaba matando o próprio irmão Baldr em uma tragédia causada por Loki. Apesar da referência mitológica, os Asgard archaea são bem reais e provavelmente surgiram há mais de dois bilhões de anos. Seus descendentes ainda existem hoje, escondidos em ambientes extremos como fontes termais e camadas profundas de sedimentos oceânicos.

Ao estudar esses organismos modernos, os cientistas acreditam ser possível reconstruir os primeiros passos da vida complexa na Terra. Em vez de fósseis ou artefatos antigos, a investigação se apoia nos códigos genéticos desses micróbios, funcionando como uma espécie de máquina do tempo molecular. Para Valerie De Anda, outra autora do estudo, trata-se da primeira oportunidade real de analisar os “projetos” biológicos do ancestral que deu origem às células eucarióticas.
Publicado na revista Nature em 2023, o estudo não apenas ajuda a esclarecer um dos maiores enigmas da biologia evolutiva, como também reforça uma ideia poderosa e quase poética: apesar de toda a diversidade da vida na Terra, plantas, animais e fungos compartilham uma herança profunda e antiga, ligada a microrganismos que viveram bilhões de anos antes de qualquer forma de vida complexa existir. De certa forma, todos nós carregamos um pouco de Asgard em nossas células.
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