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Takashi Murakami retorna ao Brasil com reedição especial de O Cão que Guarda as Estrelas e o inédito Pino

A Editora JBC apresenta ao público brasileiro dois lançamentos que consolidam ainda mais a importância de Takashi Murakami no cenário das narrativas visuais contemporâneas. Trata-se de uma reedição especial e ampliada de O Cão que Guarda as Estrelas, que reúne as histórias clássicas do mangá com um inédito produzido especialmente para este volume, e do lançamento de Pino, uma obra totalmente original que expande o universo temático do autor para novas reflexões sobre a humanidade.

A volta triunfal de um clássico

Takashi Murakami

O Cão que Guarda as Estrelas é, indiscutivelmente, uma das obras mais impactantes do mangaká. Publicado originalmente na revista Weekly Manga Action, o título vendeu mais de 400 mil cópias no Japão e angariou uma adaptação cinematográfica. No Brasil, a história havia sido publicada pela JBC em 2014, mas agora retorna em uma edição especial que vai além da simples reimpressão, com páginas em papel Polen Bold de alta gramatura, capa texturizada e detalhes em hotstamping dourado, a nova edição resgata as versões revisadas de O Cão que Guarda as Estrelas e O Outro Cão que Guarda as Estrelas, acrescidas de uma inédita narrativa.

A história, narrada pela perspectiva de Happy, um cão da raça Akita que vive com uma família de classe trabalhadora numa meditação profunda sobre a lealdade incondicional dos animais de estimação. Quando o homem da família enfrenta o divórcio, o desemprego e a pobreza, Happy o acompanha numa jornada de carro pelo sul do Japão, e é através dos olhos do cão que Murakami explora temas universais: solidão, perda, alegria e a efemeridade da vida. A narrativa é tocante ao revelar como a companhia de um cão pode ser reconfortante para seguir em frente.

Quando a IA questiona a própria existência

Takashi Murakami

Se O Cão que Guarda as Estrelas trata da lealdade animal como metáfora existencial, Pino realiza uma transposição sofisticada desse tema para o futuro. Com 336 páginas, também em papel Polen Bold e com detalhes de acabamento especial, o mangá apresenta um robô humanoide equipado com a mais avançada Inteligência Artificial desenvolvida pela tecnologia, superando até mesmo a inteligência humana.

A trama se passa em um futuro próximo onde robôs como Pino prestam diversos serviços à sociedade. Um desses autômatos trabalha sozinho em um centro de pesquisa responsável por cuidar de animais usados em testes de medicamentos. Quando o laboratório é desativado e Pino recebe a ordem de destruir tudo, incluindo a si mesmo e as cobaias, o robô toma uma decisão que transcende sua programação num ato que sugere a emergência de sentimentos.

Takashi Murakami

A narrativa que se segue é investigada por um ex-investigador determinado a provar que Pino desenvolveu emoções genuínas. Ao conhecer outras unidades do robô, particularmente uma que cuida de uma idosa com Alzheimer, assumindo o papel de seu filho falecido, Murakami constrói uma reflexão que é simultaneamente filosófica e profundamente humanista.

Clássicos modernos emocionantes

Takashi Murakami

O que torna o lançamento simultâneo particularmente revelador é o diálogo temático implícito entre as duas obras. Ambas exploram a capacidade de seres não-humanos, um cão e um robô, de experimentar empatia, lealdade e amor por outros seres. Em O Cão que Guarda as Estrelas, Murakami revelava a sabedoria silenciosa do cão que compreende a dor humana. Em Pino, ele transporta essa mesma questão para um futuro onde a máquina supera o humano em inteligência, mas o indivíduo Pino questiona a frieza de sua própria programação.

Essa justaposição é particularmente relevante em um contexto onde a Inteligência Artificial ocupa cada vez mais espaço nas discussões éticas globais. Diferentemente de obras clássicas como Astro Boy, que questionava a humanidade dos robôs desde os anos 1950, ou Pluto, que reinterpretava esses debates com uma lente mais madura, Pino aborda a questão do desenvolvendo de sentimentos pela IA de forma ainda mais íntima e visceral.

Takashi Murakami

Takashi Murakami se estabeleceu como um autor capaz de combinar uma arte acolhedora e sensibilidade emocional com questões existenciais profundas. Seus mangás não buscam o espetáculo visual ou a ação frenética. Em vez disso, constroem narrativas que exigem introspecção do leitor. Através de tramas tocantes que abordam a perspectiva de seres que não falam, cães e robôs, o mangaká força uma reavaliação de como compreendemos empatia, humanidade e conexão.

As duas edições especiais lançadas pela JBC são manifestações de um artista que amadureceu em sua exploração temática, expandindo seu universo de reflexão sem abandonar o que o define: a capacidade de extrair profundidade emocional de narrativas aparentemente simples.

Takashi Murakami

Ambos os volumes incluem marcadores de página exclusivos que formam um par quando posicionados juntos, um detalhe que, à sua maneira, reflete o diálogo visual e temático entre as duas obras. Para leitores que já conhecem Takashi Murakami e para aqueles que desejam conhecê-lo, estes lançamentos representam uma oportunidade singular de compreender a evolução de um criador que reinventou a forma como mangás podem abordar questões humanísticas universais.

Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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