A NASA está prestes a voltar a colocar uma tripulação na rota da Lua pela primeira vez em mais de 50 anos. A missão Artemis II teve o cronograma mexido nos últimos dias por causa de frio e vento na Flórida, e a agência passou a trabalhar com a primeira oportunidade de lançamento não antes de 8 de fevereiro de 2026.
Só que o “grande momento” do programa continua sendo a Artemis III, que é a missão pensada para colocar astronautas de volta na superfície, perto do polo sul lunar. A própria NASA, na última atualização ampla de cronograma divulgada em dezembro de 2024, apontou o alvo de “meados de 2027”, mas deixou claro que isso depende de marcos técnicos importantes darem certo.
E é justamente aí que um ponto crítico voltou ao centro da conversa: o traje espacial de caminhada lunar.
“Vai ser um estresse físico extremo”
Quem levantou a bandeira de alerta foi Kate Rubins, ex astronauta da NASA e microbiologista, que falou sobre o assunto em um comitê da National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Ela destacou que, na Lua, o desafio físico é diferente do que a tripulação enfrenta em caminhadas espaciais na Estação Espacial. E que a rotina prevista pode ser pesada: longos períodos dentro do traje e atividades extraveiculares frequentes.
Rubins também chamou atenção para um problema bem prático. Mesmo com a gravidade menor ajudando, o conjunto ainda é “pesado” e pode limitar movimentos, aumentando a chance de tombos. E levantar depois de cair não é simples. Segundo ela, pode exigir uma manobra parecida com um “push up pulando”, o que vira um risco quando você está cansado, com pouca margem para erro e longe de suporte médico rápido.
O traje AxEMU é mais moderno, mas ainda em evolução
O traje em questão é o AxEMU, desenvolvido pela Axiom Space dentro do contrato xEVAS. A NASA selecionou a Axiom em 2022, e a própria empresa divulgou que o primeiro task order ligado ao traje lunar tem valor de US$ 228 milhões.
A ideia é que ele seja bem mais flexível do que os trajes do programa Apollo, permitindo movimentos mais naturais, como ajoelhar para coletar amostras. Só que, na visão de Rubins, ele ainda precisa melhorar antes de virar o equipamento de trabalho diário na superfície.
Nem todo mundo vê o cenário com tanta preocupação
No mesmo encontro, o astronauta e médico Mike Barratt apresentou uma visão mais otimista. Ele afirmou que o traje “está chegando lá” e citou um número que ajuda a entender por que a NASA ainda está confiante no processo: já haveria cerca de 700 horas de testes pressurizados acumuladas.
Testes em água, gravidade simulada e muita validação antes do prazo
Para reduzir risco, o caminho é testar até cansar. A Axiom informou que o AxEMU já passou por testes tripulados na Neutral Buoyancy Laboratory, o grande “tanque” usado para simular condições de microgravidade e treinar caminhadas espaciais.
Além disso, a NASA tem planos de continuar as avaliações em diferentes cenários, incluindo voos parabólicos para simular gravidade parcial e entender melhor como o traje se comporta quando o astronauta precisa se mover, se abaixar e recuperar o equilíbrio.
O que isso tem a ver com SpaceX e Blue Origin
O traje é só uma peça do quebra cabeça. Para a descida e subida da Lua, o plano da Artemis III foi desenhado em torno do sistema de pouso lunar da SpaceX, o Starship, selecionado pela NASA para levar astronautas até a superfície.
Já a Blue Origin foi escolhida como segunda fornecedora de módulo lunar, mas para a Artemis V, mais adiante no programa. Ou seja, o “relógio” de Artemis III continua muito ligado ao progresso do pouso lunar e do traje ao mesmo tempo.
No fim, o recado de Rubins não soa como um “vai dar errado”. Soa como o tipo de alerta que aparece quando a fase deixa de ser protótipo bonito e vira equipamento de missão real, com horas de trabalho pesado, poeira lunar, risco de queda e fadiga acumulada. E, para a NASA, isso é o tipo de problema que precisa estar resolvido bem antes do primeiro passo.
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