O músico e construtor Burls Art decidiu descobrir até onde seria possível simplificar uma guitarra elétrica sem deixá la inutilizável. O resultado é um instrumento sem braço e sem corpo convencional.
No lugar da estrutura de madeira, ele utilizou dois cabos de aço próprios para aviação, tensionados sobre uma armação metálica. O conjunto recebeu seis cordas, trastes, ponte, captador e componentes eletrônicos inspirados em uma Telecaster.
A ideia começou como um experimento e acabou se transformando em uma guitarra que realmente pode ser tocada.
Uma antiga estrutura de cama virou suporte
Os primeiros testes foram feitos sobre uma bancada usando pedaços de madeira, cabos de aço com espessura de 1/16 de polegada e esticadores.
O projeto precisou passar por várias modificações porque a ausência de um corpo rígido afetava diretamente o funcionamento das cordas. Em determinado momento, até uma haste de chave de fenda foi usada para conseguir fazer uma corda vibrar de maneira audível.
A estrutura definitiva acabou sendo montada sobre uma antiga armação metálica de cama. Peças impressas em 3D foram utilizadas para segurar os trastes e outros componentes.

Afinação virou um problema
Um dos maiores desafios apareceu quando as cordas foram colocadas sob tensão.
Ao apertar uma delas, os cabos mudavam de posição e alteravam a tensão das outras. Isso fazia com que a afinação de uma corda interferisse nas demais.
A folga lateral dos cabos também produziu um efeito curioso. Pequenos movimentos na estrutura podiam alterar o tom das notas e criar uma espécie de efeito de tremolo involuntário.
Projeto tem apenas 15 trastes
A guitarra manteve a escala de 25,5 polegadas, medida comum em modelos inspirados na Telecaster.
O projeto, porém, ficou limitado a 15 trastes. Burls Art chegou a considerar 21, mas barras maiores dificultariam o acesso às peças durante a montagem.
Os componentes eletrônicos também foram mantidos próximos de uma configuração tradicional, incluindo ponte, captador, controles, chave e entrada do instrumento.

O som mudou sem a madeira
A comparação com uma Telecaster convencional revelou uma diferença perceptível.
A guitarra suspensa produziu um som mais oco e permitiu que as notas desaparecessem mais rapidamente. O instrumento não conseguiu reproduzir a mesma sustentação encontrada na guitarra tradicional usada como comparação.
Isso adiciona uma nova camada a um debate antigo entre guitarristas sobre quanto do som de uma guitarra elétrica depende do corpo e da construção do instrumento. Em 2022, outro experimento também colocou cordas e captador em uma estrutura sem corpo tradicional e chamou atenção para a importância de elementos como captador, posição e altura em relação ao som amplificado.
Experimento funciona, mas está longe de ser convencional
A criação de Burls Art mostra que uma guitarra elétrica não precisa necessariamente ter a aparência que conhecemos para produzir som e ser tocada.
Ao mesmo tempo, o projeto evidencia por que a construção tradicional continua prática. A guitarra de cabos é mais difícil de afinar, oferece uma experiência diferente para a mão e apresenta menor sustentação das notas.
O resultado funciona principalmente como um experimento de construção e acústica. É uma guitarra que desafia a ideia de quais partes de um instrumento são realmente indispensáveis.
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