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33 mineiros chilenos foram enterrados vivos e estas são as táticas que os mantiveram vivos

Em 5 de agosto de 2010, o que parecia ser mais um dia de trabalho na mina San José, na região do Atacama, no Chile, rapidamente se transformou em um dos maiores desastres de mineração já acompanhados pelo mundo. Após horas de trabalho, Alex Vega e outros trabalhadores ouviram assobios agudos, estrondos cada vez mais fortes e o barulho de rochas se movimentando. A montanha havia desabado.

Trinta e três mineiros ficaram presos a cerca de 640 metros de profundidade, em um ambiente de calor intenso, umidade próxima dos 100% e escuridão completa. O grupo permaneceria isolado por 69 dias, até o resgate em 13 de outubro. Durante esse período, comida e água precisaram ser cuidadosamente racionadas, enquanto o medo, a incerteza e a falta de contato com o mundo exterior ameaçavam a estabilidade emocional dos homens.

O desastre de 2010 cativou o público mundial e fortaleceu ainda mais o senso de comunidade no povo chileno.

O caso ganhou repercussão internacional e transformou a área ao redor da mina em uma espécie de acampamento improvisado. Familiares, jornalistas e equipes de resgate passaram semanas acompanhando as tentativas de encontrar e retirar os trabalhadores. Agora, a história também volta ao centro das atenções com a série documental “Chilean Mine Rescue: Race Against Time”, do National Geographic, lançada em 25 de setembro e disponível em streaming a partir do dia seguinte.

Mas enquanto as equipes trabalhavam para encontrar uma maneira de retirar os mineiros da montanha, havia outro problema urgente: como impedir que 33 pessoas confinadas em condições extremas entrassem em colapso psicológico?

Foi nesse ponto que entraram em cena o psicólogo chileno Alberto Iturra, que já tinha experiência com trabalhadores de mineração, e Albert Holland, psicólogo ligado à NASA. Durante 49 dias, os dois participaram de uma operação de psicologia aplicada a uma situação completamente fora do comum.

Quando os primeiros contatos com os mineiros finalmente foram estabelecidos, os especialistas encontraram algo que não esperavam. Apesar das condições extremas, os homens apresentavam consciência, percepção de tempo, linguagem e comportamento social em condições melhores do que o imaginado.

Isso não significava, porém, que a situação fosse segura do ponto de vista psicológico. Eles não haviam passado por uma preparação específica para enfrentar semanas de isolamento, privação sensorial e a possibilidade real de morrerem antes que alguém conseguisse alcançá-los.

A estratégia dos psicólogos começou pela comunicação. Holland defendia que os mineiros não poderiam ser tratados como um grupo isolado do restante da operação. Era necessário considerar também as famílias e as equipes que trabalhavam na superfície. Ele chamou essa estrutura de “Triângulo de Suporte”.

A lógica era simples. Se as informações transmitidas às famílias fossem desorganizadas ou excessivamente negativas, a ansiedade poderia chegar aos mineiros e comprometer sua esperança. Por isso, Iturra e Holland mantinham reuniões diárias às 18h com os familiares reunidos no acampamento próximo à entrada da mina.

Familiares, amigos, imprensa e outros curiosos montaram um acampamento improvisado do lado de fora da mina. Durante 69 dias, aguardaram ansiosamente o resgate dos 33 homens.

A mensagem que eles repetiam era que aquilo não seria uma corrida rápida, mas uma maratona. A ideia era preparar todos para uma espera prolongada, evitando que cada novo atraso fosse interpretado como sinal de fracasso.

Outra preocupação era impedir que surgisse uma divisão entre os homens presos no subsolo e as pessoas que trabalhavam na superfície. A experiência da NASA com equipes confinadas em ambientes extremos ajudou Holland a estabelecer uma rotina rígida. Os períodos de sono e vigília dos mineiros deveriam acompanhar, tanto quanto possível, os horários das pessoas na superfície. Até a iluminação foi utilizada para ajudar a manter os ritmos biológicos.

Iturra, por sua vez, trabalhava com um princípio que chamou de “todo suma”, expressão que pode ser entendida como “tudo soma”. A ideia era valorizar cada ação positiva realizada pelos mineiros, familiares e equipes de resgate, enquanto tentava reduzir influências que pudessem aumentar a tensão.

Um dos pontos mais importantes era não transformar os 33 homens em simples vítimas à espera de serem salvas. Iturra defendia que eles deveriam participar ativamente das decisões e da própria sobrevivência.

Em vez de retirar deles qualquer responsabilidade, a estratégia buscava dar aos mineiros tarefas, objetivos e pequenas formas de controle sobre a rotina. O objetivo era fazer com que se enxergassem como participantes do resgate, e não apenas como pessoas esperando que outras resolvessem sua situação.

Essa autonomia também envolvia respeitar momentos importantes para o grupo. Quando os mineiros estabeleceram uma hora diária de oração, por exemplo, Iturra determinou que ela não deveria ser interrompida.

Em outra ocasião, autoridades tentaram enviar vinho e empanadas para comemorar o bicentenário do Chile. A iniciativa foi barrada pelo psicólogo, que considerava arriscado introduzir álcool naquele ambiente depois de tanto tempo sem consumo, especialmente diante das condições psicológicas e físicas dos homens.

Nem todas as decisões foram recebidas com tranquilidade. Uma das medidas mais controversas foi limitar inicialmente as ligações telefônicas dos mineiros com seus familiares a apenas 30 segundos. A intenção era impedir que problemas financeiros, conflitos familiares ou notícias negativas chegassem ao subsolo e aumentassem a ansiedade.

Alex Vega foi um dos trabalhadores que mais reclamou da regra. Na época, chegou a dizer que subiria sozinho pelo poço da mina e encerrou uma ligação com Iturra. Depois do resgate, entretanto, afirmou ter compreendido o motivo daquela restrição.

Para Iturra, a comunicação precisava permitir carinho e apoio emocional, mas não necessariamente transportar todos os problemas existentes na superfície para dentro da mina. A preocupação era preservar um espaço psicológico em que os homens pudessem manter vínculos afetivos sem serem sobrecarregados por conflitos externos.

Outra estratégia importante foi combater o tédio. Pode parecer um detalhe diante de uma situação de vida ou morte, mas permanecer durante semanas em um espaço subterrâneo sem atividades poderia aumentar a sensação de desespero e fazer o tempo parecer ainda mais lento.

Os mineiros passaram a jogar dominó e jogos improvisados e também conseguiram acompanhar partidas de futebol em uma pequena tela de vídeo. A rotina ajudava a criar referências temporais e oferecia momentos de distração em meio à espera.

Alex Vega na superfície após ser resgatado. Depois do desastre, seu pai o ajudou a superar o medo de minas por meio de terapia de exposição.

A experiência também mostrou algo sobre a capacidade humana de adaptação. O psicólogo clínico George Bonanno, da Universidade Columbia e autor de “The End of Trauma”, descreve essa capacidade como flexibilidade cognitiva. Em situações adversas, as pessoas podem identificar as circunstâncias e recorrer às ferramentas que possuem para se adaptar a elas.

Mesmo assim, sobreviver ao desastre não significou simplesmente voltar à vida normal no dia seguinte ao resgate. Alguns dos mineiros enfrentaram consequências psicológicas após deixar a mina. Vega, por exemplo, conta que teve pesadelos recorrentes relacionados principalmente às primeiras horas do desabamento e chegou a precisar dormir com as luzes acesas.

Depois de algumas semanas, ele deixou boa parte da medicação que estava utilizando. Com ajuda do pai, que também era mineiro, passou por uma espécie de exposição gradual ao ambiente que havia passado a temer. Durante sete dias, voltou progressivamente a entrar em uma mina menor. Poucos dias depois, os pesadelos desapareceram.

Os especialistas também defendiam que a volta à vida cotidiana deveria acontecer de maneira gradual, com períodos junto às famílias, atividades leves e acompanhamento terapêutico. No entanto, Holland precisou retornar aos Estados Unidos antes do resgate, enquanto uma equipe médica do sistema público chileno assumiu parte do acompanhamento.

A história dos 33 mineiros acabou se tornando um caso de estudo sobre comportamento humano em situações extremas. Para Holland, uma das principais lições foi perceber como conhecimentos desenvolvidos pela NASA para lidar com missões espaciais de longa duração podem ser adaptados para outros ambientes extremos.

Iturra chegou a uma conclusão complementar: situações excepcionais exigem protocolos igualmente específicos. Segundo ele, procedimentos psicológicos convencionais nem sempre são suficientes quando as circunstâncias fogem completamente do cotidiano.

No fim, a sobrevivência dos mineiros não dependeu de uma única estratégia. Comunicação, rotina, atividades, vínculos familiares, autonomia e principalmente a união do grupo fizeram parte de uma complexa rede de suporte.

Depois de 69 dias no subsolo, os 33 homens voltaram à superfície diante de uma audiência mundial. O caso mostrou não apenas os desafios técnicos envolvidos em um resgate desse tamanho, mas também como a mente humana pode se adaptar quando não existe outra alternativa além de continuar esperando.

Como resumiu Alex Vega ao relembrar aquele período, os 33 homens conseguiram, em meio a uma situação extrema, deixar de agir apenas como indivíduos e funcionar como um único grupo.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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