A guerra no entorno do Mar Vermelho está obrigando algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo a repensar uma parte da infraestrutura que mantém a internet global funcionando. Google, Meta, Microsoft e outras gigantes da computação em nuvem estão procurando rotas terrestres alternativas para transportar dados entre a Europa e a Ásia, diante do risco crescente de interrupções nos cabos submarinos que atravessam a região.
O motivo é simples, mas preocupante. Mais de 90% da capacidade de transmissão de dados entre Europa e Ásia passa por cabos instalados no fundo do Mar Vermelho. Essas conexões entram na região pelo estreito de Bab al Mandab, uma passagem marítima com menos de 32 quilômetros de largura entre o Iêmen e os países africanos Djibuti e Eritreia. O problema é que justamente esse pequeno corredor se tornou uma área estratégica em meio ao conflito no Iêmen.

Em setembro, os houthis, grupo classificado pelos Estados Unidos como organização terrorista, assumiram o controle do lado iemenita do estreito, incluindo a ilha de Mayyun. No início de outubro, forças do governo apoiadas pela Arábia Saudita afirmaram ter recuperado posições importantes na região e nas proximidades do porto de Mocha. Os houthis, porém, contestaram a versão.
Para as empresas responsáveis por uma parcela gigantesca do tráfego mundial de dados, o cenário representa um risco difícil de ignorar. Mesmo que existam vários cabos submarinos atravessando o Mar Vermelho, a maioria passa pela mesma área estreita. Isso significa que uma interrupção em um ponto estratégico pode comprometer várias conexões ao mesmo tempo.
A alternativa está em levar parte desse tráfego para o continente. O problema é que as rotas terrestres são mais caras e, em muitos casos, ainda não têm a mesma capacidade das conexões submarinas.
Em setembro, o Google teria comprado um par de fibras ópticas que percorrem tubulações estatais na Turquia por um valor entre duas e três vezes superior ao preço estimado de novas linhas que atravessariam o país. Segundo uma fonte familiarizada com o negócio, que pediu anonimato porque os detalhes não são públicos, a companhia pagou um valor significativamente acima dos cerca de 6 milhões de euros, aproximadamente US$ 7 milhões, esperados para novas conexões semelhantes.
A movimentação não ficou restrita ao Google. Em setembro, a Microsoft anunciou que pretende investir mais de US$ 400 milhões até 2030 em conexões terrestres e submarinas no Oriente Médio. O Iraque também assinou um acordo com a empresa de telecomunicações catariana Ooredoo para transportar dados em direção à Europa por uma rota subterrânea que parte do porto de Al Faw, no sul do país.
Segundo informações obtidas pelo site Rest of World, praticamente todas as grandes empresas de computação em nuvem estão procurando alternativas para o tráfego que atualmente passa pelo Mar Vermelho. Google e Meta já teriam começado a utilizar, em parte, uma rota terrestre que atravessa o Iraque e que anteriormente permanecia como uma espécie de plano de emergência.
A preocupação aumentou porque reparar um cabo submarino danificado nessa região não é uma tarefa simples. Em condições normais, uma equipe especializada pode levar uma ou duas semanas para realizar um reparo, dependendo da disponibilidade de um navio. Em uma zona de conflito, porém, a operação depende de autorizações e garantias de segurança para que as embarcações possam trabalhar.
Foi exatamente isso que aconteceu em 2024. Três cabos submarinos do Mar Vermelho foram danificados, provavelmente pela âncora de um navio cargueiro que havia ficado à deriva depois de ser atingido por um míssil lançado pelos houthis. O conserto levou meses porque as equipes responsáveis precisaram aguardar autorização e garantias de que os navios de reparo não seriam atacados.
O especialista Paul Brodsky, da empresa de pesquisa de telecomunicações TeleGeography, resume o problema de maneira direta. Ter capacidade disponível em vários cabos não significa necessariamente ter rotas realmente independentes. Se todas essas conexões passam pelo mesmo trecho estreito de água, um único incidente pode afetar grande parte delas simultaneamente.
Essa vulnerabilidade é particularmente importante porque Google, Meta, Microsoft e Amazon concentram aproximadamente três quartos da capacidade internacional de internet utilizada no mundo, segundo dados da TeleGeography. Quando a infraestrutura dessas empresas é afetada, as consequências podem aparecer muito além dos próprios serviços de tecnologia.
Um exemplo ocorreu em março, quando drones iranianos atingiram centros de dados da Amazon nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein. Aplicativos bancários e sistemas de pagamento da região ficaram fora do ar, enquanto a empresa de software Snowflake também registrou interrupções.
Diante do risco no Mar Vermelho, as empresas de computação em nuvem começaram a informar aos operadores de infraestrutura quantas fibras pretendem utilizar e em que momento. A expectativa é que as rotas terrestres sejam testadas antes de uma eventual emergência, garantindo que possam assumir parte do tráfego caso algum cabo submarino seja cortado.
Por enquanto, entretanto, os cabos no fundo do mar continuam sendo a opção preferida. Eles conseguem transportar enormes volumes de informação por distâncias muito longas e custam menos do que manter uma infraestrutura terrestre equivalente. Por isso, as rotas alternativas provavelmente continuarão funcionando como uma espécie de seguro, prontas para serem ativadas quando necessário.
O que preocupa o setor é justamente a possibilidade de a instabilidade no Iêmen deixar de ser uma situação temporária. Empresas de infraestrutura esperavam que a região voltasse a uma situação mais estável e previsível, mas a permanência do conflito começa a mudar essa expectativa.
Para Martin Frank, consultor estratégico da IQ Networks, uma empresa iraquiana que comercializa capacidade em uma fibra instalada entre o sul do Iraque e a fronteira com a Turquia, o setor começa a considerar cada vez mais a possibilidade de que a atual situação se torne o novo normal.
É uma mudança importante para a internet mundial. Por trás de serviços de streaming, redes sociais, bancos, jogos online, aplicativos e sistemas de inteligência artificial existe uma enorme rede física de cabos, centros de dados e rotas de comunicação. Quando uma região estratégica entra em conflito, o impacto pode chegar muito além de suas fronteiras.
No caso do Mar Vermelho, a preocupação das gigantes da tecnologia mostra que a chamada nuvem está longe de ser algo puramente virtual. Grande parte da internet ainda depende de estruturas físicas extremamente concentradas e, em alguns pontos do planeta, vulneráveis a guerras, acidentes e disputas geopolíticas.
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