Durante muito tempo, a menopausa foi tratada como uma espécie de ponto final para a atividade dos ovários. Com o fim da fase reprodutiva, a queda na produção de hormônios e o esgotamento da reserva de óvulos fizeram com que esses órgãos fossem vistos quase como estruturas que simplesmente perdiam sua função. Novas pesquisas, porém, estão colocando essa ideia em xeque.

Cientistas estão descobrindo que os ovários continuam apresentando uma atividade significativa mesmo anos depois da menopausa. E o que acontece dentro deles pode ter relação não apenas com os hormônios, mas também com envelhecimento, inflamação, sistema imunológico e até com a saúde de outros órgãos.
A descoberta ganhou força a partir do trabalho da bióloga reprodutiva Francesca Duncan, da Universidade Northwestern. Ao estudar ovários de mulheres entre 50 e 75 anos, sua equipe esperava encontrar estruturas relativamente inativas. O objetivo inicial era investigar a senescência, processo associado ao envelhecimento celular.
O resultado, entretanto, foi bastante diferente do esperado. Ao analisar as proteínas presentes nos ovários, os pesquisadores encontraram diferenças moleculares importantes entre mulheres de diferentes idades. Em outras palavras, um ovário de uma mulher de 70 anos não apresentava exatamente o mesmo perfil de um ovário de uma mulher de 60 anos.
Para Duncan, isso indica que alguma coisa continua acontecendo no órgão mesmo depois do fim da capacidade reprodutiva. A questão agora é descobrir exatamente o que essa atividade significa para o organismo.
A mudança de perspectiva é importante porque, durante décadas, o ovário foi estudado principalmente por sua relação com a reprodução. A atenção científica se concentrou na produção de óvulos e nos hormônios relacionados ao ciclo menstrual, enquanto o período posterior à menopausa recebeu muito menos atenção.
Isso também ajuda a explicar por que, no passado, a retirada dos ovários durante determinadas cirurgias era encarada com menos preocupação. Com o avanço das pesquisas, porém, surgiram evidências de que a remoção de ovários saudáveis pode estar associada a consequências importantes para a saúde, incluindo alterações relacionadas ao sistema cardiovascular, à função cerebral e à mortalidade precoce, especialmente quando o procedimento acontece antes da menopausa natural.
Mesmo depois da menopausa, os ovários não deixam simplesmente de produzir hormônios. Eles continuam liberando pequenas quantidades de substâncias como testosterona e estrogênio. A quantidade é muito menor do que durante a fase reprodutiva, mas os pesquisadores ainda tentam determinar qual é exatamente a importância dessa produção residual.
O possível impacto chega até o cérebro. Estudos de neuroimagem conduzidos por Pauline Maki, da Universidade de Illinois em Chicago, encontraram uma associação entre níveis mais elevados de estrogênio circulante depois da menopausa e um funcionamento mais eficiente de determinados circuitos relacionados à memória durante tarefas específicas.
Ainda não está completamente esclarecido de onde vem todo esse estrogênio nem qual é a participação exata dos ovários. Uma das hipóteses é que o cérebro passe por processos de adaptação depois da queda hormonal provocada pela menopausa. A comunicação entre o cérebro e os ovários pode fazer parte desse processo, embora ainda sejam necessárias novas pesquisas para entender essa relação.
Outra descoberta intrigante envolve o sistema imunológico. Em um estudo publicado na revista Molecular Human Reproduction, a equipe de Duncan comparou diferentes estágios do envelhecimento ovariano em camundongas. Conforme os animais envelheciam, genes relacionados à inflamação e à atividade imunológica ficavam mais ativos, enquanto o número de células do sistema imunológico presentes nos ovários também aumentava.
Os resultados obtidos em animais não podem ser automaticamente aplicados aos seres humanos, mas podem ajudar a explicar algumas das alterações observadas nos ovários humanos após a menopausa.
Uma das possibilidades investigadas pelos pesquisadores é que o envelhecimento do ovário provoque um aumento progressivo da inflamação no próprio órgão. Isso levanta uma questão ainda sem resposta: em determinado momento, essa atividade poderia deixar de ser benéfica e passar a contribuir para doenças associadas ao envelhecimento?
O câncer de ovário é uma das preocupações levantadas pelos pesquisadores, já que alterações inflamatórias e imunológicas podem modificar o ambiente do órgão. Ao mesmo tempo, não se sabe se essas mudanças são necessariamente prejudiciais ou se representam uma tentativa do organismo de adaptar o ovário à nova fase da vida.
Outro estudo está investigando uma possibilidade diferente. David Pépin, biólogo reprodutivo do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School, acredita que o ovário pode encontrar maneiras de manter sua produção hormonal mesmo quando os folículos que abrigam os óvulos começam a desaparecer.
Pesquisas realizadas com gatas submetidas a uma terapia genética experimental mostraram que os animais continuaram produzindo estrogênio, testosterona e inibina mesmo depois que a maturação dos folículos havia sido interrompida.
A explicação pode estar no estroma, conjunto de células que forma parte da estrutura do ovário. Experimentos preliminares sugerem que essas células podem assumir parte da produção hormonal quando os folículos diminuem. A hipótese ainda precisa ser confirmada por estudos mais amplos, mas poderia ajudar a explicar por que os ovários continuam apresentando atividade hormonal depois da menopausa.
O mais interessante é que o estrogênio pode ser apenas uma parte dessa história. Os pesquisadores ainda sabem relativamente pouco sobre a participação de outros hormônios produzidos pelos ovários e sobre como as mudanças nesse órgão podem influenciar diferentes aspectos do envelhecimento.
Por isso, a imagem do ovário como um órgão que simplesmente deixa de funcionar depois da menopausa está começando a ficar ultrapassada. As evidências indicam que ele continua mudando, produzindo sinais químicos e interagindo com o restante do organismo.
O grande desafio agora é descobrir se essa atividade tem efeitos predominantemente protetores, prejudiciais ou se pode desempenhar funções diferentes conforme os anos passam. A resposta pode mudar a maneira como a ciência entende a menopausa e, principalmente, o papel dos ovários na saúde feminina ao longo de toda a vida.
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