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Deserto do atacama floresce após chuvas históricas provocadas pelo El Niño

Conhecido por ser o deserto quente mais seco do mundo, o Atacama, no Chile, está passando por uma transformação impressionante. Depois de um período de chuvas intensas associado ao El Niño excepcionalmente forte que se desenvolve no Pacífico Oriental, áreas da região começaram a ser tomadas por flores coloridas, criando uma paisagem que parece saída de um cenário de fantasia.

A floração acontece em uma região que, normalmente, recebe pouquíssima chuva. O Atacama está localizado entre a Cordilheira dos Andes e a cadeia montanhosa costeira, uma posição geográfica que dificulta a chegada de umidade tanto da Amazônia quanto do Oceano Pacífico. Por isso, a média anual de precipitação gira em torno de 15 milímetros, enquanto o núcleo hiperárido do deserto pode registrar apenas 1 a 3 milímetros por ano, ou até menos.

As condições mudaram significativamente em 2026. Segundo informações divulgadas pela imprensa, algumas áreas do Atacama receberam aproximadamente 180 milímetros de chuva durante a temporada, um volume extraordinário para um dos ambientes mais secos do planeta. A água permitiu que sementes que permaneciam adormecidas no solo por longos períodos começassem a germinar, dando origem a uma nova temporada de floração.

A expectativa das autoridades chilenas é que o fenômeno atinja seu auge em outubro, quando os campos de flores poderão ocupar uma área de até 15 mil quilômetros quadrados. A previsão, no entanto, depende de fatores que vão além do volume de precipitação, como a capacidade de absorção do solo, as temperaturas e a exposição à luz solar.

Gabriela López, responsável pelas Áreas Protegidas da província de Atacama na CONAF, destacou que a floração não depende exclusivamente da chuva. O conjunto de condições ambientais é determinante para que as plantas consigam se desenvolver. Autoridades regionais também enxergam o espetáculo natural como uma oportunidade para o turismo e para a economia local, mas reforçam a necessidade de preservar o patrimônio ambiental durante o período de visitação.

Como as flores sobrevivem em um dos lugares mais secos do mundo?

A chamada floração do deserto é formada por uma diversidade de espécies vegetais, muitas delas encontradas exclusivamente nessa região do Chile. De acordo com informações da Universidade Católica do Chile, o Atacama abriga 1.893 espécies de plantas. Algumas sementes conseguem permanecer em estado de dormência por até dez anos, aguardando que a combinação adequada de chuva e condições ambientais permita o reinício do ciclo de crescimento.

Essa capacidade de esperar por condições favoráveis é uma das principais estratégias de sobrevivência das plantas do deserto. Muitas espécies desenvolveram características que ajudam a reduzir a perda de água e suportar a intensa exposição ao sol. Entre essas adaptações estão revestimentos cerosos, pelos finos que refletem a radiação solar, folhas pequenas e sistemas radiculares especializados.

Quando a floração acontece, o cenário árido se transforma em uma explosão de cores. Tons de rosa, roxo, amarelo e azul-claro se espalham pela paisagem, atraindo a atenção de visitantes e pesquisadores. Apesar da aparência exuberante, a existência dessas flores é relativamente breve. O período de crescimento e reprodução é limitado, e a disponibilidade de polinizadores também pode ser reduzida no ambiente desértico.

As cores intensas e os contrastes das flores podem contribuir para a atração de polinizadores, aumentando as oportunidades de reprodução durante a curta janela em que as plantas permanecem em atividade.

Atacama pode florescer novamente em 2026 após eventos recentes

Embora seja um acontecimento extraordinário, a floração do Atacama não é completamente inédita. Nos últimos 40 anos, foram registrados cerca de 15 episódios de florescimento, que costumam ocorrer de maneira irregular, em intervalos de aproximadamente três a dez anos, quando a combinação de chuva, temperatura e umidade se mostra favorável.

O que chama a atenção na temporada atual é a proximidade com os eventos anteriores. O deserto também floresceu em 2025, apenas um ano antes, enquanto outros episódios foram registrados em 2022, 2017 e 2015. A floração de 2022 foi considerada incomum por ter ocorrido durante um período de La Niña, condição climática que apresenta características diferentes das associadas ao El Niño.

Já em 2015, o fenômeno também esteve relacionado à influência do El Niño, que contribuiu para a ocorrência de chuvas capazes de despertar a vegetação adormecida no deserto.

A possibilidade de observar duas temporadas de floração em anos consecutivos torna o período especialmente marcante para a região. Ainda assim, a ocorrência de flores não significa que o Atacama tenha deixado de ser um deserto extremamente árido. Trata-se de uma resposta temporária da vegetação a condições ambientais específicas, que podem não se repetir por vários anos.

O espetáculo também serve como um lembrete da capacidade de adaptação da vida em ambientes extremos. Sob o solo aparentemente desprovido de vegetação, sementes podem permanecer em espera durante longos períodos, prontas para aproveitar uma rara oportunidade de crescimento. Quando a chuva chega na intensidade e no momento adequados, o deserto revela uma paisagem que costuma permanecer escondida durante grande parte do tempo.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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