Um naufrágio ocorrido há cerca de 800 anos continua ajudando pesquisadores a reconstruir uma das antigas redes de comércio marítimo que conectavam diferentes regiões da Ásia, da África e do Oriente Médio. Encontrado no Mar de Java, próximo à Indonésia, o navio carregava milhares de objetos que permaneceram preservados no fundo do oceano e hoje oferecem pistas sobre as pessoas, mercadorias e rotas que faziam parte desse sistema de trocas.
Entre os materiais recuperados estão cerca de 200 toneladas de ferro, milhares de peças de cerâmica, resina, além de presas de elefante. A coleção, atualmente estudada por pesquisadores do Field Museum e de outras instituições, permite observar detalhes que dificilmente poderiam ser identificados apenas por documentos históricos.

Uma das pesquisas em andamento envolve justamente o marfim encontrado no local. Cientistas do Field Museum e da University of Maryland, Baltimore County estão realizando análises de DNA nas presas de elefante recuperadas do naufrágio. O objetivo é descobrir se os animais eram de espécies africanas ou asiáticas.
A resposta pode ajudar a reconstruir com mais precisão as rotas percorridas pelas mercadorias antes de chegarem ao navio. A origem do marfim, por exemplo, pode indicar conexões comerciais que iam muito além do local onde a embarcação acabou afundando.

O próprio conjunto de cerâmicas já revelou como essas antigas redes eram complexas. Por meio de técnicas como a fluorescência de raios X portátil, pesquisadores conseguiram identificar diferenças na composição dos objetos e relacioná-los a determinados centros de produção na China. Algumas dessas peças foram fabricadas a mais de 3 mil quilômetros do local do naufrágio.

O estudo também ajudou a revisar a idade estimada da embarcação. Inscrições encontradas em algumas cerâmicas indicam que determinados nomes geográficos presentes nas peças deixaram de ser utilizados depois de 1278, quando os mongóis invadiram a região. Com essa informação, os pesquisadores consideram possível que o navio tenha afundado ainda no século XII, por volta de 1162.
A coleção chama atenção justamente pela quantidade e diversidade de materiais preservados. Entre os objetos estão milhares de tigelas simples, apelidadas pela pesquisadora Lisa Niziolek de “tigelas IKEA” por serem peças comuns e bastante semelhantes entre si. Ao lado delas, existem vasos mais elaborados, recipientes decorados, jarros e outros objetos que ajudam a mostrar diferentes aspectos da produção e do comércio da época.
Também estão sendo estudados itens encontrados em menor quantidade, como fogareiros de cerâmica que podem ter sido utilizados pela tripulação e pelos passageiros durante a viagem. Outro grupo interessante são os kendis, recipientes sem alças que podem ter sido utilizados em diferentes práticas religiosas, incluindo tradições budistas, hindus e muçulmanas.

Para Niziolek, a própria existência de uma coleção desse tamanho disponível para pesquisa e exposição é algo incomum entre os museus. A variedade dos materiais permite investigar não apenas a origem dos objetos, mas também como eles circularam antes de chegar ao navio.
Mais de oito séculos depois, o naufrágio do Mar de Java continua funcionando como uma espécie de cápsula do tempo. Das simples tigelas produzidas em grande quantidade às peças mais sofisticadas e ao marfim de origem ainda investigada, cada objeto acrescenta uma pequena parte à história de uma rede comercial marítima que conectava povos e regiões muito distantes entre si.
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