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Água até aqui: a grande enchente de 2024 no Rio Grande do Sul retratada a partir de relatos quadrinizados

A grande enchente de 2024 foi a maior tragédia climática do Rio Grande do Sul. Milhões de pessoas foram afetadas. Cerca de 478 dos 497 municípios gaúchos registraram algum tipo de ocorrência ou danos. Em Água até aqui (Arquipélago, 2025), Pablito Aguiar, atuando como repórter-quadrinista, utiliza a arte sequencial para retratar “histórias de luta, sobrevivência e recomeço na maior tragédia climática do Rio Grande do Sul”. As histórias apresentadas aqui foram publicadas originalmente em Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo.

Capa de Água até aqui.

A obra tem uma estrutura distinta, marcante já no começo, ao vermos no sumário o rosto desenhado de cada indivíduo, cujos nomes dão título a cada capítulo. Uma escolha artística que gera empatia com cada relato.

As histórias/relatos vão de maio a novembro de 2024 nas cidades de Alvorada, Canoas, Porto Alegre, Charqueadas, Canoas, Cruzeiro do Sul, Arroio do Meio e Dona Francisca. Abaixo uma breve descrição de cada uma.

Maninho. Maninho e sua mãe, Vanja, em busca de um banho quente.

Matheus. Depois de perder tudo, Matheus só conseguia pensar em ajudar.

Isis. Para Isis, animais também são humanos.

Claudio. Isolados por dez dias, indígenas Guarani Mbya ficaram sem água.

Talita. A lama destruiu a casa e os objetos da quadrinista Talita.

Carol. A família de Carolina viveu a segunda grande enchente.

Liziane. Liziane foi morar numa ocupação. Até quando?

Leonardo. O que Leonardo viu no maior aterro temporário do Rio Grande do Sul.

Dariane. Na Ilha do Pavão, Dariane se refaz em seu lar.

Irineu. Para se salvar, Irineu pulou do telhado e agarrou um cabo de telefone.

Rosane. Nas ruínas do bairro Passo de Estrela, Rosane e o marido buscam lenha.

Devanir. Sem casa, Devanir espera no que sobrou de uma loja.

João. João Heitor e a descoberta de um sítio arqueológico.

Caramelo. O que diria o cavalo Caramelo se pudesse contar, em palavras, o que viveu?

Meu relato pessoal

Como residente de Porto Alegre, é inevitável a identificação pessoal com a obra. Minha esposa e eu fomos relativamente pouco afetados pela enchente, já que o nível da água não chegou no nosso prédio. “Apenas” ficamos sem luz e água por vários dias. Escutando as notícias vida rádio FM, a única notícia: a enchente. Ficou a memória do cenário de guerra: helicópteros e sirenes quase 24h por dia.

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro segue uma estrutura jornalística de reportagem, onde os personagens focais de cada capítulo estão relatando para o autor.

Ilustração: O traço, simples por um lado, se torna rico em transmitir emoções das pessoas retratadas e o impacto da enchente no ambiente de cada uma destas. O resultado final é de identificação e empatia.

Autor

Pablito Aguiar é quadrinista. Nasceu em Alvorada (RS) e hoje vive e trabalha em Altamira (PA). Desde 2015, escuta histórias reais e as transforma em quadrinhos. Em 2016, lançou de maneira independente o livro Alvorada em Quadrinhos, que reúne relatos de 23 moradores da sua cidade natal. Possui formação em Design (Unisinos, 2012), Bellas Artes (Universidad del País Vasco, 2015) e Comunicação Digital (Unisinos, 2017). Atualmente trabalha como repórter-quadrinista para a plataforma Sumaúma – Jornalismo do Centro do Mundo.

Prêmios 

2019: 2º lugar no Concurso Sulamericano “Historias de vida que sobreviven la violencia y persecución en el campo en Sudamerica”.  – Categoria Quadrinhos

2018: 1º lugar no 25º Salão Internacional de Desenho para Imprensa (Sidi) – Categoria Quadrinhos  

Demais obras:

– Conversas em Porto Alegre (Editora Arquipélago, 2024).

– Marisqueiras (Independente, 2023).

– Almoço: uma conversa com Eliane Brum (Editora Arquipélago, 2022).

– Biblioteca de Alvorada (Independente, 2022).

– Lar (Independente, 2018).

– Alvorada em Quadrinhos (Independente, 2017). 

– Ana Bela (Independente Ano, 2017).

– Forca (Independente, 2016). 

– Rosana (Independente, 2016).

Além destas, o autor também possui entrevistas em quadrinhos, mapas e outras ilustrações.

Reflexões finais

Cada um dos relatos coletados serve de amostra para o que aconteceu com milhões de pessoas durante a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. Ao longo destes, certos sentimentos e situações são evidenciados.

Resiliência talvez seja o primeiro substantivo a ficar evidente. A enchente forçou e “exigiu” isso das pessoas. As pessoas tiveram que perseverar em meio à uma adversidade enorme.

O altruísmo e a solidariedade vieram junto ou logo em seguida. Além de salvarem a si mesmas, muitas pessoas escolheram salvar e ajudar as outras, mesmo já tendo perdido tudo e mesmo se colocando em risco. Nesse ponto houve também aqueles que focaram no salvamento dos animais não-humanos que foram abandonados. A enchente deixou bem claro que muitas pessoas consideram animais (não-humanos) como objetos. Que podem simplesmente serem deixados para trás. Ficou marcante como imagem icônica da enchente o resgate do cavalo Caramelo.

Até aqui ficou evidente que foram as pessoas por si próprias se ajudando umas as outras. Porque houve um abandono pelo poder público. Doações particulares, até mesmo de água potável, chegaram muito antes do que qualquer providência do governo. Famílias foram morar em ocupações e juízes mandaram desocuparem depois de uma certa data, independentemente de se as pessoas teriam para onde voltar. Situação revoltante, dada a quantidade de prédios desocupados que existem em Porto Alegre. E na escala maior temos a ganância do capitalismo como causa primordial destruidora do meio ambiente.

A enchente teve impactos distintos em pessoas distintas. Para algumas pessoas o relato foi de “aceitação” à indiferença: “A gente se acostuma.” … “É a vida da gente.” … “Tá vivo, tá bom.” … Para outras pessoas o impacto foi destruidor: “Naquela noite, tudo que eu sou e todos os objetos que marcavam meu lugar no mundo ficaram para trás.”

Talvez uma análise derradeira nesse sentido foi feita por uma pessoa ao observar o gigantesco aterro temporário: “O que as pessoas perderam mesmo foi tempo.”. Pois é importante lembrar que tudo o que alguém obtém na vida é “pago” com tempo de vida. E esse tempo não é recuperável.

Todos esses relatos nos lembram o quão frágil é a vida que vivemos. Um cotidiano na corda bamba. Ao ler Água até aqui, aos poucos as memórias foram voltando, e com elas as lágrimas. Para aqueles que viveram a tragédia, ficam as memórias de um evento devastador. Para aqueles que acompanharam pelos noticiários, ficam os relatos, que devem vir acompanhados de um alerta: ninguém, em nenhuma parte do planeta, está livre de passar por um evento climático devastador atualmente.

A ganância e a falta de respeito com a biosfera ainda podem levar à extinção uma espécie que, em sua arrogância, tem a coragem de se autointitular sapiens.

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Biólogo/geneticista pesquisador na área de evolução humana, genética de populações humanas, coevolução gene-cultura, videogames e sua interação com a ciência. Pesquisador colaborador no Game_Pesq, grupo de pesquisa sobre jogos eletrônicos, cultura e sociedade. Consultor científico no Science Game Center e no Molecular Jig Games. Autor no Nerdizmo.

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