Uma história que começa com uma mulher conversando com um homem de chifres dentro da boca de um peixe poderia ser o começo de um conto de fantasia. Mas aqui em Cornos (lançada primeiramente de forma independente em 2016, esta edição atual foi lançada em 2024 pela Editora Hipotética) a cena descrita não traz o alívio do escapismo que a fantasia pode proporcionar. Em Cornos, essa cena é o transbordamento do peso da realidade para o sonho da protagonista.

Cornos conta a história de uma jovem mulher em um momento difícil da vida, com frustrações e incertezas. Então, ela começa a ter sonhos estranhos com um homem de chifres. Nessa fronteira nebulosa entre sonho e realidade, a jovem precisa descobrir: o que o estranho quer, afinal?

A obra explora temas densos como angústia, depressão, frustração e estagnação. Ao menos três temas podem ser considerados como base da obra, tanto por função narrativa como geracional: sonhos, depressão, suicídio.

Sonhos
Os sonhos acompanham a humanidade desde tempos remotos e sempre despertaram curiosidade, interpretação e debate. Entre os registros mais antigos de que se tem notícia está um relato atribuído ao rei sumério Dumuzi, datado de cerca de 2500 A.E.C. Nesse episódio, sua irmã interpreta o sonho como um aviso de perigo e recomenda que ele se esconda. O relato apresenta imagens simbólicas e ameaçadoras, associadas a presságios de morte.
Esse interesse parece abranger áreas bastante diversas. Todas as artes já abordaram os sonhos de alguma forma. Além disso, áreas de estudo distintas abordam o tema de diferentes formas.
Antropologia: Saber aquilo que determinado grupo pensa sobre os sonhos, pode permitir compreender sua cultura. Nas religiões, por exemplo, são muito frequentes sonhos vistos como profecias ou indicativo do que fazer.
Psicólogos ocidentais como Sigmund Freud e Carl Jung popularizaram algumas das ideias mais conhecidas sobre a interpretação dos sonhos. Para Freud os sonhos eram mensagens do inconsciente. O propósito dos sonhos, segundo ele, era realizar desejos reprimidos. Já para Jung, sonhos seriam um caminho para as partes de si mesmo, além de sua consciência, capazes de alertá-lo sobre qualquer coisa através de símbolos universais.
Cientificamente, sonhos são dados, e como tal, podem ser analisados. Isso começou na década de 1950, com a descoberta da fase de sono R.E.M. (rapid-eye movement, ou movimento rápido dos olhos). Atualmente, exames cerebrais começaram a detectar os assuntos dos sonhos ao treinar algoritmos de forma que possam reconhecer a atividade cerebral das pessoas. Pesquisas que estudaram como o sono pode promover a memória, especificamente a formação de memórias de longo prazo, descobriram que as imagens vistas nos sonhos são um produto originado pelo processo de criação de memória.
Como pôde ser visto, o tema é muito vasto.


Depressão
A depressão é um transtorno mental que pode se tornar grave e crônico que altera o humor, causando tristeza profunda, desesperança e perda de interesse por atividades antes prazerosas. Ela afeta a saúde física e mental, exigindo acompanhamento médico e psicológico.
Os sintomas podem variar dentre as pessoas afetadas, mas os principais incluem: 1) Emocionais: Tristeza persistente, irritabilidade, ansiedade, sensação de culpa e perda de autoestima; 2) Físicos: Fadiga constante, dores inexplicáveis, alterações no sono (insônia ou excesso) e no apetite; 3) Cognitivos: Dificuldade de concentração e problemas de memória; 4) Comportamentais: Isolamento social e perda de vontade de realizar tarefas diárias.
É importante salientar que há diferença entre depressão e tristeza. A tristeza é uma reação natural e passageira a eventos da vida. A depressão é uma condição clínica que persiste por mais de duas semanas, prejudicando o funcionamento diário (trabalho, estudos e relações) independentemente da resolução de problemas externos.
A depressão tem tratamento e envolve uma abordagem multidisciplinar. Ele geralmente consiste em psicoterapia e antidepressivos.


Suicídio
Os dados globais sobre suicídio indicam uma redução nas últimas décadas, embora esse movimento não aconteça da mesma forma em todos os lugares. Em parte das Américas, inclusive no Brasil, os indicadores seguem trajetória preocupante, o que mostra que avanços gerais não eliminam desigualdades regionais no enfrentamento do problema.
O suicídio é um grave e complexo problema de saúde pública. Estima-se que mais de 90% das pessoas que tiram a própria vida possuem algum transtorno psiquiátrico tratável (como depressão ou bipolaridade). A prevenção envolve quebrar tabus, escutar sem julgamentos e buscar ajuda especializada imediatamente.
Compreender o comportamento suicida envolve identificar sinais de alerta. Mudanças repentinas ou persistentes no comportamento exigem atenção, incluindo: 1) Isolamento: Afastamento de amigos, familiares e atividades que antes davam prazer; 2) Comunicação: Expressões diretas ou indiretas de vontade de morrer, “desaparecer” ou ser um “peso” para os outros; 3) Despedidas: Organizar pertences e doar objetos queridos de forma incomum; 4) Desesperança: Comportamentos autodestrutivos, descuido com a aparência e falas sobre falta de sentido na vida.
Lembrete importante
Os temas abordados acima, depressão e suicídio, são muitos complexos e necessitam de mais informação que a encontrada brevemente aqui para obter discernimento.
Se precisar, peça ajuda!
O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.
A ligação para o número 188 é gratuita a partir de qualquer linha telefônica, fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações.
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: O roteiro é focado, não há nenhum momento de alívio perante a inevitabilidade que vai sendo construída. Cada palavra utilizada tem peso.
Arte: A arte é detalhada e com traços que transmitem toda a angústia e sensação de estar preso, sem sair do lugar. O traço dos personagens são uma mistura de delicadeza e sofrimento, transmitindo toda a emoção destes.
Autor

Dieferson Trindade, roteiro, arte, arte de capa e letras: Nascido em Porto Alegre (RS) em 1996, é autor independente, já tendo publicado uma dezena de quadrinhos desde o início da carreira em 2016, quando estreou com Cornos. Suas obras dialogam com temas existencialistas e pautas sociais relevantes.
O virapágina de número 51, substack de Érico Assis, traz um sensível perfil de Dieferson.
Outras obras do autor
– Joãos & Joanas – Por Beltranos e Beltranas (2017).
– O Mundo de Oz (2017).
– Afronta (2018).
– Aérea (2019).
– Nossos Olhos (2019).
– Segunda Feira eu paro (2019).
– Buracos (2020).
– Os Dias Ruins Acabaram (2021).
– Dobras (2022).
– Mudança (2022).
– Rodoviária (2022).
– Os Pássaros (Ugrito 31) (2023).
– Bilica: Origem (2024).
– Revelação (2024).
– O Colecionador (2025).
Prêmio
Indicado desenhista 42º troféu Angelo Agostini 2026 por O Colecionador.
Reflexões finais
A sensação de apatia e estagnação, mas também de angústia e ansiedade por uma definição que precisa chegar em algum momento… Todas essas sensações são transmitidas por Dieferson Trindade em sua obra de estreia: Cornos.
O homem com cornos leva a protagonista em uma viagem onírica de autoconhecimento e autoenfrentamento. É interessante aqui o paralelo (intencional ou não) com as Portas dos Sonhos da mitologia greco-romana. Elas aparecem tanto na Odisseia, de Homero, quanto na Eneida, de Virgílio. Através dessas portas, situadas no reino de Hipnos (o Sono), os deuses enviavam sonhos aos mortais. Pela porta feita de corno passavam os sonhos verdadeiros e proféticos. Pela porta feita de marfim passavam os sonhos falsos, ilusórios e enganosos.
Numa intepretação mais direta, o indivíduo cornífero atua como uma manifestação metafórica dos medos, das culpas ou ainda do subconsciente tentando contato com o consciente.
Cornos, assim como grande parte das obras de Dieferson, pode ser interpretado como autoficção. A saúde mental tem um grande peso, e isso é refletido em como o ambiente é mostrado. Por fim, lançar essa obra teve um efeito catártico no autor, como o próprio relata nas páginas finais.
Dado o caráter autocontido da obra, e que o roteiro conduz de forma primorosa até o seu final, não resta espaço (e nem há necessidade) para um olhar para o que está além do que é visualizado pela protagonista. Mas aqui neste espaço pode-se fazer uma reflexão: nenhuma vida é autocontida o suficiente a ponto de não ter impacto na vida de outras pessoas. A vida é um contínuo, seja ele geracional ou de relacionamento. Quando uma vida termina outras continuam. Dessa forma, o que fazemos em vida ecoa na eternidade.
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