Ancestors: The Humankind Odissey é um jogo com a proposta fascinante de colocar o jogador na pele de hominídeos para evoluir ao longo de 8 milhões de anos. Com pouca informação sobre mecânica e objetivo, o game é realmente aquilo que propõe: imersivo, difícil e visceral, uma vez que exige muita tentativa e erro, percepção e paciência.

Embora não fique preso ao rigor científico, Ancestors se baseia nas últimas descobertas científicas para representar arquétipos de um local e momento da história na Terra. Portanto, começa com os primeiros hominídeos que viveram na África há 10 milhões de anos.

Como a própria evolução humana não é linear, o jogo propõe experimentar a seleção natural e desenvolvimento biológico através de seu próprio caminho na história da evolução.

O jogador deve escolher um nome para sua linhagem, selecionar experiência de jogo e o nível de assistência – mas no fim das contas, os desenvolvedores logo avisam que não pretendem ajudar muito.

A narrativa da evolução

Ancestors: uma jornada pela evolução humana

Em meio à floresta densa regida pela lei da natureza, vemos predadores capturarem presas e se tornarem presas de outros predadores: uma sugestão do que devemos enfrentar para sobreviver. Um hominídeo caminha calmamente com seu filhote nas costas, quando uma águia pré-histórica captura os dois e mata o adulto na naturalidade da cadeia alimentar.

Devemos comandar o filhote sobrevivente de volta para seu clã. Uma jornada que funciona um tutorial básico com pouquíssimas informações, o suficiente para começar a experimentar as mecânicas e encarar todas as descobertas sozinhos.

Curiosidade e Instinto

Ancestors: uma jornada pela evolução humana

Quando retornei ao clã e encarnei um dos adultos, já entendi que tudo seria feito na base do instinto. Não há muita sugestão do que fazer, significados dos elementos da interface ou muito sobre a mecânica. Fiquei um bom tempo experimentando os movimentos do personagem, suas necessidades básicas e como supri-las, assim como usar sua percepção.

Como é necessário descobrir de maneira orgânica tudo o que você precisa fazer, desde os comandos simples, até encontrar objetivos, usar a percepção e curiosidade é essencial.

A percepção do personagem é o elemento principal para detectar ameaças, identificar alimentos e elementos da natureza que serão usados ao seu favor e para se comunicar com outros hominídeos.

Detectar a qualidade da água e da comida é essencial para evitar a intoxicação alimentar, e prestar atenção nos benefícios que um alimento oferece ao corpo, ajuda a evitar fraturas ósseas e até o frio.

Em vez de instruções, o jogo apenas oferece algumas ferramentas básicas para que você use por conta própria para atingir qualquer objetivo que você defina para si mesmo ou que seja proposto em algum momento.

À medida que você explora e interpreta, desvendar a floresta acaba sendo instintivo, mas nada é tão óbvio assim.

Descobrir todos os ícones à sua volta é fundamental para saber onde há folhas para criar uma cama, galhos para criar uma arma, comidas, perigos e o mais importante de tudo: não importa quantos ícones iguais você já tenha identificado na região, desvendá-los ajuda a desenvolver a percepção do personagem.

Cérebro, o protagonista

Ancestors: uma jornada pela evolução humana

Ancestors não é apenas um jogo de sobrevivência e o grande protagonista da narrativa é o cérebro. Desenvolver os sentidos de audição, olfato, visão e até boas horas de sono são essenciais para amadurecer a massa cinzenta, sendo ela a principal responsável por novas habilidades físicas e progressos.

Eu vejo Ancestors como um jogo puramente mental, tanto para o jogador quanto para o personagem. E esse é um dos fatores mais fascinantes dele: que a primeira percepção surge em nós mesmos e nós apenas a aplicamos no controle.

Além de tudo, a árvore de skills gira em torno de habilidades neurais que se parece muito com uma série de neurônios com axônios, conectados pela longa extremidade de uma célula nervosa. Nela, as habilidades são solidificadas na prole para que sejam passadas para as próximas gerações.

Esses neurônios começam com classificações de alto nível, tais como Inteligência, Sentidos, Motricidade e Comunicação, e ficam cada vez mais avançados à medida que você experimenta os elementos do jogo.

É possível repassar os aprendizados adquiridos para o clã inteiro gastando energia neural, como pontos de experiência, que podem ser adquiridas quando você leva um dos bebês do clã nas costas para explorar a floresta, por exemplo. O acesso à árvore é feito quando colocamos o personagem para dormir.

Outro efeito biológico fascinante é como um bebê do clã pode nascer com mutação espontânea que altera seu metabolismo para que possa digerir melhor os alimentos, por exemplo. Os filhotes também são importantes para manterem habilidades adquiridas e repassarem para a seguinte geração.

Evoluir tem impacto em todo o clã, já que você permite que eles aprendam coisas novas às quais nunca teriam acesso. Depois de muita tentativa e erro, você vai aprender que a sua sobrevivência está ligada à sobrevivência de todo o clã. Não é possível evoluir sozinho.

Também é curioso como cada interação com os elementos do cenário influem nas habilidades e no próprio personagem. Quando encontramos um predador, por exemplo, ele entra em pânico e tudo fica preto com desenhos de ameaças que ele teme – por instinto ou experiência.

Em momentos como esse, um ponto branco aparece na tela e caminhar em sua direção ajuda a manter a calma novamente. Assim como é possível enfrentar o medo e melhorar uma atividade psicológica.

Uma jornada de frustração

Já deu para ter uma ideia de que Ancestors não é um jogo para todos os gostos. Além de estar interessado em acompanhar a evolução humana, você precisa estar disposto a se frustrar muitas vezes e aprender na marra de incontáveis erros e acertos, ainda com a possibilidade de perder tudo matando todos os adultos do seu clã, como eu fiz (risos de nervoso). Por isso até é preciso ponderar se é prudente reunir todo o clã para te acompanhar durante as explorações.

De repente, você pode estar andando tranquilão até seu objetivo e ser atacado por um javali, uma cobra ou um grande felino impiedoso. Ou estar pulando de galho e galho com a máxima autoconfiança e se estatelar no chão. Daí o caminho de volta para o clã ou um abrigo pode ser fatal.

Você pode levar horas para entender que batendo uma pedra na outra com determinadas folhas dá para produzir remédios. Ou que com os galhos é possível fazer uma arma, embora a vitória no combate contra o predador não seja garantida.

Até formar um casal pode ser difícil, já que apenas tirar insetos das costas do parceiro escolhido não significa conquista bem sucedida.

É importante observar as características e funções de cada hominídeo do grupo. Os mais velhos têm a pelagem acinzentada, e andam com mais dificuldade, sendo menos aptos para a exploração. Assim como os bebês, que apenas ficam seguros perto de outros adultos. Além de serem quesitos para escolher um parceiro, é fundamental para entender que matar os adultos jovens do clã significa que você tá bem ferrado.

Programação biológica

Caminhar através da evolução humana e poder direcionar um hominídeo até o que somos hoje é uma iniciativa ousada e bem feita. Apesar de desafiador, Ancestors é um jogo honesto em sua abordagem científica e em quesito de jogabilidade, porque deixa sua complexidade bem evidente para quem quiser se aventurar.

Particularmente, o vejo como um dos jogos mais bem feitos dos últimos tempos, em toda sua construção artística e progressiva de narrativa e mecânica. Um jogo revolucionário que dinamiza a ciência, exemplificando a nossa origem de maneira que tomamos controle dela própria. E ainda assim com toda a aventura do gênero de sobrevivência.

Patrice Désilets foi genial ao construir um jogo que reacende nossos instintos primitivos, nos colocando em contato com nossa essência, origem e “programação biológica” através de uma jornada que devemos explorar de mente aberta.

Afinal, todos nós somos biologicamente programados para sobreviver na floresta.


Ancestors: The Humankind Odyssey está disponível para PC, PS4 e Xbox One.

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