Sabe aquele barulho chato de ventoinha turbinando quando você abre um jogo pesado? Tem gente que prefere encarar 60 °C na água do que ouvir um zumbido. A Billet Labs, uma fabricante de Londres que já virou notícia até por desentendimento com o Linus Tech Tips, resolveu testar os limites da física mais uma vez.
A missão era clara: montar um PC gamer com Ryzen 7 9800X3D e RTX 5080, dois componentes que juntos passam fácil de 500W, sem usar uma única ventoinha. O resultado é uma máquina que funciona, mas que também mostra por que o “silêncio absoluto” ainda é um sonho complicado para PCs de alto desempenho.
O segredo está na “chaminé”
Sem ventoinhas para empurrar o ar, a solução foi apelar para um princípio básico da natureza: o ar quente sobe.
O time empilhou três radiadores de tamanhos diferentes (o maior com 200 x 400 mm na base, depois um de 140 x 280 mm e no topo um de 120 x 240 mm), criando uma torre que funciona como uma chaminé.
O ar aquecido pelos radiadores superiores sobe e cria uma sucção natural, puxando ar fresco pelo radiador maior que está embaixo.
A tubulação de cobre polido e os encaixes de latão, soldados à mão com maçarico, dão um visual steampunk moderno que já virou marca registrada da empresa. Mas não é só estética: o próprio cobre ajuda a dissipar calor antes mesmo de a água chegar aos radiadores.

Placa-mãe pelada e base de alumínio
Outro desafio era a placa-mãe. O modelo usado, uma Gigabyte Aorus Pro B850, tem duas mini ventoinhas embutidas para resfriar os VRMs e o SSD M.2.
Para manter a proposta “fanless”, a equipe montou tudo sobre uma chapa de alumínio de 8 mm e usou camadas de pads térmicos para transferir o calor da placa direto para essa base metálica.
Até a fonte de 600W recebeu pasta térmica no fundo para jogar calor na mesma chapa.
O teste de fogo: jogos reais
No silêncio do laboratório, o sistema impressiona. Em modo ocioso, a água fica na casa dos 28 °C e o único ruído audível é um leve zumbido da bomba trabalhando a 80% da velocidade.
A coisa muda de figura sob carga. Após 30 minutos de Cinebench, a temperatura da água salta para 39 °C e a CPU atinge 90 °C. Nos games, o cenário é mais severo: em sessões de Cyberpunk 2077 e FurMark, o líquido chega a 56 °C.
A boa notícia? A RTX 5080 segurou a onda sem throttling. A má notícia? O Ryzen 7 9800X3D não teve a mesma sorte, encostando em 95 °C e começando a reduzir o clock nos testes mais extremos.

O verdadeiro vilão: a bomba
O calcanhar de Aquiles não foi nem a placa de vídeo, nem o processador. A bomba d’água usada no sistema tem um limite operacional de 60 °C. Quando a temperatura da água chegou nesse valor durante o teste combinado (Cinebench + FurMark), o sistema entrou em zona de perigo.
Acima disso, a água começa a vaporizar dentro da bomba, causando cavitação, ruído metálico e desgaste prematuro.
Sucessor de um polêmico “radiador vitoriano”
Este novo projeto é uma evolução direta do “Raddy”, um PC anterior da Billet Labs que usava um radiador de ferro fundido de 50 kg para refrigerar componentes parecidos. O Raddy era visualmente incrível, pesava cerca de 100 kg e precisava de descargas semanais por causa de bolhas de cavitação na bomba.
E ainda tinha ventoinhas escondidas, o que frustrou a ideia de um sistema realmente silencioso. A nova máquina resolveu alguns desses problemas, mas mostrou que tirar todas as ventoinhas é um desafio muito maior do que parece.
Uma empresa que já viveu altos e baixos
A Billet Labs não é estranha a polêmicas no mundo do hardware. Em meados de 2023, a empresa se envolveu em uma controvérsia pública com o Linus Tech Tips (LTT), um dos maiores canais de tecnologia do mundo.
A história começou quando a Billet Labs enviou um protótipo de water block customizado para o LTT testar.
O produto era projetado para uma placa de vídeo RTX 3090, mas foi testado incorretamente em uma RTX 4090, gerando resultados péssimos e críticas duras no vídeo.
Para piorar, o protótipo foi acidentalmente leiloado pelo canal. Após a pressão da comunidade, Linus Sebastian admitiu o erro, pagou pela peça e se desculpou publicamente, em um episódio que abalou a confiança entre as duas empresas.

Uma ventoinha de 120 mm pode ser a resposta
A Billet Labs já anunciou o próximo passo: adicionar uma única ventoinha de 120 mm no topo da torre. A ideia não é ventilar componentes diretamente, mas apenas ajudar a “puxar” o ar quente para cima, amplificando o efeito chaminé que já existe naturalmente.
A expectativa é que essa pequena adição consiga reduzir vários graus na temperatura da água, mantendo o sistema praticamente inaudível e, principalmente, respeitando os limites operacionais da bomba.
Enquanto isso não acontece, o experimento serve como uma aula prática de termodinâmica aplicada a PCs.
Mesmo com mais de 1 m² de área de superfície entre os três radiadores, cobre puro na tubulação e uma chapa de alumínio como dissipador extra, o sistema não conseguiu lidar com cargas acima de 450W sem ultrapassar os limites seguros da bomba.
Às vezes, uma pequena ventoinha bem posicionada faz toda a diferença.


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