A cantora e compositora Monik, conhecida pelo sucesso “Diva do Interior”, lançou recentemente o videoclipe de “Amigo Gay”, seu novo single. Disponível no canal oficial da artista no YouTube, o trabalho marca uma nova fase em sua carreira, com uma abordagem mais ousada, sensual e aberta à experimentação visual.
A música nasceu de uma experiência real vivida por Monik: uma decisão equivocada que resultou em uma situação constrangedora, ressaca moral e muitas piadas entre os amigos. Ao transformar o episódio em canção, a artista encontrou uma maneira de ressignificar a própria história com humor e leveza.
Dirigido por Duda Carraschi, irmã de Monik, e produzido pela Cosmos Filmes (responsável pelo videoclipe “Nuvem Negra, de Linn da Quebrada), o videoclipe combina referências da cultura pop, humor e semiótica. As situações que poderiam ser explícitas são representadas de maneira simbólica, criando uma narrativa visual provocativa sem revelar tudo de forma literal.
“Esse é o videoclipe mais sexual que eu já lancei até o momento. É uma versão da Monik que o público ainda não conhece, mais ousada e aberta a explorar novas possibilidades visuais”, afirma a artista.
A produção também dialoga com referências sonoras e estéticas próximas de nomes como Cansei de Ser Sexy, Bonde do Rolê e Banda Uó, além de apresentar cenários inspirados em diferentes universos narrativos. Entre as referências visuais estão o videoclipe “Rush”, de Troye Sivan, e o universo do filme “Backrooms: Um Não-Lugar”, do diretor Kane Parsons.
Em entrevista ao Nerdizmo, Monik fala sobre a criação do videoclipe de “Amigo Gay”, a parceria com a irmã, a experiência de trabalhar com uma equipe especializada em cinema e audiovisual, a produção do próprio beat e a presença de profissionais LGBTQIA+ nos bastidores.
Referências de cinema e a estética camp
Quais foram as suas principais referências do cinema e da cultura pop na hora de criar esse universo visual no seu videoclipe? Teve algum diretor, filme ou linguagem estética específica que serviu de inspiração para o projeto?
A diretora do videoclipe, Duda Carraschi, é minha irmã e foi ela quem também dirigiu o clipe de “Amigo Gay”.
No cenário do barracão, que representa a festa, a principal referência narrativa veio de “Rush”, do Troye Sivan. A ideia era criar um universo de muito flerte e desejo, mas com uma abordagem mais cinematográfica. Na fotografia, pensamos em pretos menos enterrados, uma luz mais quente e uma estética mais realista, quase como se estivéssemos acompanhando aquela noite de forma muito íntima. Basicamente todo mundo naquela festa estava pronto para flertar, menos eu, que mais uma vez fiquei no zero a zero. O espectador está espiando, sem convite, o que houve naquela noite, por isso iniciamos o clipe em um travelling dentro do esgoto. Além de já dar um tom “sujo” para o videoclipe.
Já o banheiro representa um momento mais conturbado, depois da “brotheragem” entre eu e meu amigo gay. Logo após, eu apareço mergulhada em uma banheira de leite enquanto estou remoendo minhas próprias decisões, criando um contraste entre a sensualidade da imagem e o desconforto daquele momento.
No cenário de estúdio, a Duda quis trabalhar com a ideia de um “não-lugar”. A referência conceitual veio do universo dos backrooms e do próprio filme “Backrooms: Um Não-Lugar“, especialmente dessa ideia de espaços que parecem familiares, mas não pertencem a lugar nenhum. É onde eu e o amigo gay trocamos intimidade, e esse espaço não existe fisicamente; não é um quarto, um banheiro ou uma sala. É justamente a representação de um lugar que socialmente parece não existir, onde uma mulher hétero e um homem gay podem trocar afeto sem que isso precise ser enquadrado pela lógica tradicional do desejo.
Para a direção de arte e fotografia dessa cena, a referência estética foi o universo dos comerciais de perfume, com uma imagem mais sofisticada, artificial e quase onírica, criando esse contraste entre o real e um espaço que existe apenas dentro da narrativa.


A parceria com Duda Carraschi
Como foi trabalhar com sua irmã na direção e com uma produtora especializada em cinema e audiovisual?
Foi um grande desafio que exigiu um trabalho intenso de pré-produção. A Duda é extremamente organizada e gosta de planejar tudo com antecedência para chegar ao set com cada detalhe calculado.
Não foi o primeiro contato dela com essa produtora de cinema, pois ela já tinha dirigido dois comerciais de TV com a mesma equipe. Por já estar habituada ao ritmo deles, ela sabia exatamente como conduzir o projeto.

A experiência técnica com equipamentos de cinema
Esta foi a sua maior produção audiovisual, gravada com câmeras e lentes de qualidade de longa-metragem ao lado de uma equipe vinda do cinema e da publicidade. Na prática, como essa estrutura de ponta impactou a iluminação, a fotografia e a escala narrativa do clipe?
Conseguimos reunir uma equipe muito potente para esse projeto e uma estrutura que permitiu que a proposta visual fosse executada com bastante precisão. Em outros trabalhos, a Duda costuma trabalhar com equipes mais enxutas e acaba acumulando diferentes funções. Dessa vez, ela conseguiu concentrar sua energia na direção e transmitir sua visão para que cada área pudesse desenvolver o roteiro a partir da sua própria linguagem.
Na direção de fotografia, a Heloisa Pellegrini construiu a luz de cada universo com bastante precisão. Ela veio de Florianópolis especialmente para executar esse projeto e trouxe um olhar sofisticado para a fotografia, trabalhando as diferenças de temperatura, contraste e textura entre os cenários.
Na direção de arte e produção, Dan Pinheiro pensou minuciosamente a construção de cada ambiente, desde os elementos da festa no barracão até os pequenos detalhes do banheiro, sempre mantendo a lógica de cores estabelecida pela Duda.
Narrativamente, eu passei o briefing de como eu queria que essa história fosse contada, e a Duda trabalhou com uma mistura de experimentação e quebra da linearidade, sem abrir mão de uma história que possa ser acompanhada pelo espectador. A ideia é que a imagem possa criar desvios, brincar com a percepção e propor momentos mais sensoriais sem deixar de sustentar a narrativa.
No fim, foi justamente a integração entre direção, fotografia, arte e produção que permitiu que o roteiro saísse do papel com uma identidade visual bastante marcada.

A visão da beatmaker: mudar do áudio para o visual
Por ser uma artista que produz os próprios beats, como funciona a sua mente criativa na hora de compor? Você já constrói a produção musical pensando nos cortes, no ritmo das cenas e na linguagem de câmera, como se estivesse criando a trilha sonora de um filme?
Essa foi a primeira vez que lancei um beat produzido por conta própria. Eu já tinha co-produzido todos os outros beats que lancei, mas esse foi o primeiro que realmente fiz a criação inteiramente sozinha. Na verdade, quando eu crio a letra, normalmente o conceito dos visuais vai nascendo junto, mas criar o beat é diferente… eu penso muito mais na sensação que eu quero que aquela pessoa sinta. Ultimamente tenho gostado de beats com uma pegada que remeta aos anos 2010. Gosto dessa sensação nostálgica, mas ao mesmo tempo atual, e também gosto de misturar gêneros, como em “Amigo Gay”, em que misturei funk, pop e drum and bass.

Representatividade LGBTQIA+ e a estética pop dos bastidores
O clipe teve uma equipe criativa composta por pessoas LGBTQIA+ em cargos estratégicos como roteiro, edição e arte. De que maneira esse repertório cultural compartilhado nos bastidores ajudou a refinar o humor, os detalhes de cena e a identidade visual do projeto?
Sim! Fiz questão de que a equipe criativa fosse composta inteiramente por pessoas da comunidade LGBTQIA+ — desde a revisão da letra até o roteiro, coreografia, figurino e direção de arte do videoclipe. Como é uma música que fala sobre esse universo, queria que a história fosse contada a partir do ponto de vista de homens gays, permitindo que cada um trouxesse sua própria vivência e bagagem pessoal para o projeto.
–
Leia mais sobre música!