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Episódio 8 de Pluribus sugere que a humanidade pode vencer a mente coletiva

Atenção: o texto a seguir contém spoilers importantes do oitavo episódio de Pluribus. Se você ainda não assistiu e prefere descobrir as revelações por conta própria, vale deixar a leitura para depois.

O chamado “ataque de charme” da mente coletiva em Pluribus pode ter acabado saindo pela culatra. No oitavo episódio da série, o coletivo faz um esforço quase exagerado para deixar Carol confortável, apostando em encontros agradáveis, elogios sinceros e até em um senso de humor surpreendentemente humano. A jogada mais arriscada, porém, é permitir que Zosia aja menos como parte de um todo e mais como um indivíduo. Esse detalhe aparentemente simples acaba abrindo uma brecha inesperada e talvez decisiva para o futuro da humanidade dentro do universo da série.

Ao se comportar como uma pessoa de verdade, Zosia começa a acessar lembranças de quando ainda era alguém separado da mente coletiva. Esse momento ganha ainda mais peso quando se soma ao que Carol já havia descoberto anteriormente: a mente coletiva não sente fisicamente tudo o que cada corpo experimenta. A conversa delicada sobre sorvete de manga, que surge mais adiante no episódio, sugere algo poderoso. Talvez não seja a ciência que vá desfazer a união, mas algo muito mais básico, íntimo e humano.

Durante o episódio, o coletivo faz de tudo para parecer “gente como a gente”. Usa sarcasmo, demonstra empatia e tenta criar uma conexão emocional real com Carol. Em vários momentos, a estratégia quase funciona. Carol chega a se esquecer, ainda que por instantes, do quanto ela despreza a forma como a individualidade humana foi apagada. Ainda assim, ela precisa se lembrar conscientemente de que aquele sistema, por mais eficiente que pareça, é profundamente perturbador.

O ponto mais irônico é que o mesmo recurso que torna esse ataque de charme tão eficaz pode ser também a maior fraqueza da mente coletiva. O coletivo percebe que Carol quer conversar com uma pessoa, não com uma entidade abstrata. Por isso, Zosia passa a agir como indivíduo mesmo antes de Carol pedir que ela use o “eu” em vez do “nós”. No início, essa atuação parece forçada, mas aos poucos Zosia sustenta o papel de forma convincente. E é justamente aí que algo real acontece: ela começa a se lembrar de quem realmente foi.

Na manhã seguinte à noite que passaram juntas, Carol pergunta a Zosia qual é sua comida favorita. A resposta vem acompanhada de uma história inesperadamente tocante. Quando criança, Zosia amava sorvete de manga, e explica o motivo com uma riqueza de detalhes que só alguém com memórias próprias conseguiria oferecer. Ela fala das coisas que gostava, das curiosidades da infância e até de como foi crescer na Polônia em um período de grandes transformações. Ao contar tudo isso na primeira pessoa, Zosia revive, ainda que por poucos segundos, a experiência de ser alguém único.

Esse mergulho nas próprias lembranças a enche de alegria, mas logo depois de uma tristeza profunda. São sentimentos que a mente coletiva, em sua forma plena, não experimenta. O coletivo afirma amar tudo de maneira igual, todos os sabores, todas as experiências. Mas aquela criança não amava tudo da mesma forma. Ela amava sorvete de manga acima de qualquer outro. E, naquele breve instante, Zosia não era parte de um todo homogêneo. Ela era apenas uma pessoa.

Isso levanta uma questão inquietante. Se a união fosse realmente total, por que acessar memórias individuais faria alguém recuperar sua identidade, ainda que temporariamente? Em teoria, Zosia não deveria mais existir como pessoa. O episódio, no entanto, sugere que a mente coletiva não é tão perfeita quanto parece. Há sinais claros de que os indivíduos ainda estão lá, escondidos sob a superfície.

Mais cedo na temporada, Zosia já havia explicado que o coletivo não fica bêbado só porque um de seus membros bebe álcool. Carol usa essa informação ao seu favor ao tentar descobrir como desfazer a união, chegando a dopar Zosia para obter respostas mais honestas. A tentativa quase dá certo, já que as drogas enfraquecem momentaneamente o controle do coletivo.

No oitavo episódio, outra pista surge durante uma sessão de massagem que, tecnicamente, Zosia aplica em si mesma. Ela admite que seria insuportável se a mente coletiva sentisse tudo ao mesmo tempo. Nascimentos, mortes, dores e ferimentos acontecem o tempo todo. O coletivo não sente essas experiências, apenas tem consciência delas. Quem sente de fato são os corpos individuais. Como Carol resume de forma simples e direta, indivíduos sentem, enquanto o coletivo apenas sabe.

Quando Zosia acessa suas próprias memórias, ela se conecta a algo físico e específico daquele corpo. Lembra-se dos navios entrando e saindo do porto, da sensação de ganhar um sorvete quando se era pobre e, principalmente, do gosto da manga na língua. É o mesmo tipo de lembrança que nós acessamos quando um cheiro nos transporta para o passado ou quando uma imagem faz o corpo quase reviver uma sensação antiga.

Se Zosia tivesse contado a história de outra pessoa, nada disso provavelmente teria acontecido. Mas foi o corpo que viveu aquela experiência que trouxe a memória de volta. Isso permitiu que a Zosia humana emergisse, ainda que por um instante, escapando da neutralidade fria da mente coletiva.

Carol segue obcecada por uma solução científica para o problema, mas o episódio deixa claro que a resposta pode estar em outro lugar. Cada membro da mente coletiva já foi um indivíduo com gostos, afetos e memórias próprias. Todos tinham o seu “sorvete de manga”. Se essas lembranças puderem ser acessadas, talvez essas pessoas consigam se lembrar de quem realmente são. E, como Pluribus revela em seu oitavo episódio, essa pode ser a chave para desfazer a mente coletiva e devolver a humanidade àqueles que a perderam.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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