Kim Kardashian voltou a ser assunto fora do universo da moda e dos negócios, desta vez por causa de um diagnóstico médico exibido em um episódio recente de The Kardashians. Durante o programa, a socialite ouviu de seu médico que exames indicariam a presença de “buracos” em seu cérebro, associados a uma suposta baixa atividade cerebral provocada por estresse crônico. A declaração chamou atenção imediatamente, mas especialistas dizem que a história está longe de ser tão simples quanto parece.

A revelação acontece em um momento delicado para Kim, que ainda tenta se firmar no caminho para se tornar advogada. Recentemente, ela contou que não conseguiu passar no exame da ordem e chegou até a brincar, ou talvez nem tanto, que o ChatGPT a faz “errar provas o tempo todo”. Agora, a ideia de que seu cérebro estaria apresentando alterações estruturais só aumentou a repercussão em torno de sua rotina intensa e altamente exposta.
Apesar do tom alarmante usado no programa, neurologistas e pesquisadores reagiram com ceticismo. Em um artigo publicado no site The Conversation, a pesquisadora sênior em neurologia Sarah Hellewell, da Curtin University, afirmou que o tipo de tecnologia usado pelo médico de Kardashian tem valor científico bastante limitado e não sustenta conclusões tão dramáticas. Segundo ela, termos como “buracos no cérebro” e “baixa atividade” soam assustadores, mas não encontram respaldo sólido na literatura médica quando baseados nesse tipo específico de exame.
No início do ano, Kim chegou a passar por uma ressonância magnética que levou à identificação de um aneurisma cerebral, um procedimento reconhecido e amplamente utilizado na medicina. Já o exame mostrado no episódio mais recente é diferente. Trata-se do SPECT, uma técnica de imagem que envolve a injeção de substâncias radioativas na corrente sanguínea para mapear o fluxo de sangue no cérebro e em outros órgãos.
Embora o SPECT tenha aplicações clínicas bem específicas, como a avaliação de algumas condições neurológicas, cardíacas e ósseas, seu uso fora desses contextos é altamente questionado. Hellewell explica que não há boas evidências científicas que sustentem a utilização desse exame para diagnosticar uma ampla gama de transtornos, como Alzheimer, TDAH ou distúrbios alimentares, apesar de algumas clínicas promoverem exatamente esse tipo de promessa.
Outro ponto crítico é que alterações no fluxo sanguíneo cerebral podem ocorrer por inúmeros motivos, muitos deles banais. A região do cérebro analisada, o horário do exame, o nível de descanso da pessoa e até o estresse momentâneo podem influenciar os resultados. Por isso, áreas com menor irrigação sanguínea, que alguns chamam de “buracos”, não indicam necessariamente uma doença específica e muito menos comprovam danos causados por estresse crônico, como foi sugerido no caso de Kim.
Há ainda um risco prático importante. Diagnósticos baseados nesse tipo de exame podem levar pacientes a seguirem tratamentos inadequados ou simplesmente ineficazes. Para piorar, o SPECT geralmente não é reconhecido como um procedimento médico necessário, o que significa que o custo, que pode ultrapassar os três mil dólares, costuma sair totalmente do bolso do paciente.
Na avaliação de especialistas, pessoas muito ricas e famosas acabam sendo alvos fáceis desse tipo de prática, pagando caro por exames que oferecem respostas vagas e pouco confiáveis. A tecnologia de imagem médica é, sem dúvida, uma ferramenta poderosa quando bem indicada, mas não há justificativa médica para que indivíduos saudáveis se submetam a exames complexos sem necessidade real.
No fim das contas, o episódio envolvendo Kim Kardashian levanta um alerta mais amplo sobre a medicalização excessiva, o uso comercial de tecnologias controversas e a facilidade com que diagnósticos chamativos ganham espaço na mídia, mesmo quando a ciência pede cautela.