Livros e HQ

“O Elemento” chega para mergulhar o leitor na São Paulo lisérgica de 1979

A nova graphic novel de Fido Nesti, “O Elemento“, chegou às livrarias esse ano pela Quadrinhos na Cia., selo da Companhia das Letras, trazendo uma narrativa policial e psicodélica ambientada no coração da ditadura militar brasileira.

Com 180 páginas e capa em formato grande, o livro representa mais um passo ambicioso na carreira do artista paulistano, que já havia conquistado o Prêmio Eisner com sua adaptação quadrinizada de “1984” em 2020.

O Elemento, de Fido Nesti

A história se passa em 1979, no bairro da Liberdade, em São Paulo, enquanto a cidade inteira volta os olhos para o céu na expectativa dos destroços da estação espacial Skylab, que ameaçam desabar sobre a metrópole. No centro dessa atmosfera de tensão coletiva está Arsênio, um jovem repórter que precisa equilibrar emprego e sanidade enquanto navega por uma São Paulo infestada de punks, militares e assombrações que parecem emergir das sombras da repressão.

O Elemento, de Fido Nesti

Entre fardas e cabelos moicanos, Arsênio é guiado por uma voz fantasmática de uma cantora desaparecida e por esqueletos misteriosos que surgem em becos sem saída, numa trama que mistura elementos de noir, delírio e paranoia típicos dos anos de chumbo no Brasil. A narrativa não poupa o leitor de karaokês diabólicos, outdoors falantes e melodias indecifráveis, tudo isso costurado por referências constantes à tabela periódica de Dmitri Mendeleev, que esconde elementos químicos em cada página da obra.

O Elemento, de Fido Nesti

A edição impressa de “O Elemento” traz como diferencial um pôster da tabela periódica desenhada pelo próprio Fido Nesti, reforçando a conexão da HQ com a química que percorre toda a obra.

Esse formato permite que Nesti desenvolva uma narrativa densa sem se estender em demasia, mantendo o ritmo de uma leitura que pode ser devorada em uma sessão, mas que exige atenção aos detalhes visuais e narrativos que o autor espalha generosamente. A proposta editorial da Quadrinhos na Cia. continua a apostar em obras de autores nacionais com ambição literária e visual, reforçando o selo como um espaço importante para a graphic novel brasileira contemporânea.

O Elemento, de Fido Nesti

Visualmente, Fido Nesti constrói uma São Paulo de 1979 onde a paranoia da ditadura militar se mistura com elementos lisérgicos e referências psicodélicas que remetem à estética dos anos 1970. O traço de Nesti, conhecido por seu trabalho em publicações como a Folha de S.Paulo e a revista The New Yorker, traz um estilo que equilibra realismo e delírio, criando uma atmosfera que lembra os filmes noir clássicos mas com uma identidade visual marcadamente brasileira.

O Elemento, de Fido Nesti

A ambientação no bairro da Liberdade é particularmente rica em detalhes, com a representação de uma São Paulo que oscila entre o concreto brutalista da arquitetura dos anos 1970 e o caos urbano de uma cidade sob tensão política. As referências visuais incluem desde a estética punk emergente até a presença onipresente dos militares, criando um contraste visual que reflete as tensões sociais e políticas do período.

O Elemento, de Fido Nesti

O roteiro de “O Elemento” segue uma estrutura que mistura elementos de investigação jornalística com sobrevivência psicológica, onde Arsênio precisa calcular bem seus passos para fugir de emboscadas e assombrações. A narrativa se constrói como uma jornada onde paranoia, delírio e pesadelo se combinam, criando uma experiência de leitura onde nada é o que parece ser e o leitor é constantemente desafiado a separar realidade de alucinação.

A conexão com a química, que está presente em toda a obra, não é apenas um elemento decorativo, mas uma camada narrativa que exige atenção do leitor, incentivando uma releitura atenta para descobrir onde os elementos químicos se escondem em cada página. Essa abordagem transforma a experiência de leitura em algo mais próximo de um quebra-cabeça, onde cada elemento visual e textual contribui para a construção de um significado mais amplo sobre o período sombrio da história brasileira que a obra retrata.

Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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