Cinema

A Estética do Rigor: Kokuho – O Preço da Perfeição é o novo fenômeno do cinema japonês

O cinema japonês contemporâneo vive um momento de dualidade fascinante entre suas megaproduções de anime e dramas viscerais que resgatam a identidade histórica do país. Kokuho – O Preço da Perfeição, dirigido por Lee Sang-il, posiciona-se exatamente nesse epicentro.

Após uma passagem triunfante pela Quinzena dos Cineastas no Festival de Cannes e a consagração como a maior bilheteria de um live-action no Japão, o longa estreou no Brasil no dia 5 de março com o peso de uma indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. Mais do que um drama de época, a obra é um estudo antropológico sobre a obsessão pela arte e o custo da herança cultural.

O choque entre o submundo e a tradição sagrada

Ambientado inicialmente na Nagasaki de 1964, o roteiro, baseado na obra de Shuichi Yoshida, estabelece um contraste imediato entre a violência do crime organizado e a disciplina estática do teatro Kabuki. A jornada de Kikuo, interpretado na adolescência pela revelação de Monster, Sōya Kurokawa, começa no trauma: filho de um líder da Yakuza assassinado, ele é acolhido por Hanai Hanjiro II, uma lenda viva do teatro. Rebatizado como Toichiro, o jovem é inserido em um sistema de castas artísticas onde o talento individual trava uma batalha constante contra o peso do sobrenome e da tradição.

A narrativa acompanha décadas de uma rivalidade fraternal com Shunsuke, o herdeiro natural da casa Tanba-ya. O que torna Kokuho (Tesouro Nacional) uma experiência distinta é como Lee Sang-il filma o processo de aprendizado. Não há romantização e o Kabuki é apresentado como um ofício de privações, onde o corpo do ator é moldado à força para atingir uma perfeição que beira o inumano. Quem acompanha a carreira de Ryô Yoshizawa (Kingdom) verá aqui sua atuação mais madura, capturando a transição de um jovem marginalizado para um mestre que carrega a alma de uma nação em seus gestos milimétricos.

A maestria técnica e o reconhecimento da Academia

A indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo não é meramente cosmética, mas narrativa. No Kabuki, a maquiagem kumadori e as perucas elaboradas são extensões da psicologia dos personagens, sinalizando emoções e status que o diálogo muitas vezes omite. O trabalho técnico do filme consegue traduzir para o espectador ocidental a complexidade dessas máscaras de tinta, transformando o rosto dos atores em telas de expressão dramática pura. É uma vitória para a Sato Company e a Imovision trazerem este título em co-distribuição, garantindo que o público brasileiro tenha acesso a uma obra que preza pelo espetáculo visual sem sacrificar a densidade do roteiro.

O elenco de apoio, encabeçado pelo veterano Ken Watanabe, ancora o filme em uma realidade crua, impedindo que ele se torne apenas uma peça contemplativa. Há um senso de urgência em cada cena, uma sensação de que a glória nos palcos é apenas a fachada de uma vida marcada por traições e sacrifícios pessoais. Lee Sang-il, conhecido por sua sensibilidade ao adaptar dramas complexos, entrega aqui sua obra mais ambiciosa, provando que o cinema japonês de prestígio continua sendo um dos pilares mais sólidos da produção global.

O veredito de uma obra necessária

A convite da SATO Company, o NERDIZMO participou de uma exibição exclusiva e com apresentação de Kabuki da Companhia Fujima de Dança Kabuki. Kokuho – O Preço da Perfeição é uma obra que exige atenção, mas recompensa o espectador com uma beleza melancólica e rara.

Ao explorar os bastidores de uma arte milenar através de uma lente contemporânea, o filme dialoga com temas universais: a busca por identidade, a superação do luto e a linha tênue entre a dedicação e a autodestruição. Para quem busca um cinema que desafie os sentidos e ofereça uma imersão profunda em uma cultura distinta, a estreia em março é obrigatória. É o Japão em seu estado mais autêntico, técnico e, acima de tudo, emocionante.

Celebração à tradição, estética e excelência das artes japonesas

Em parceria com a SATO Company e a Imovision, a Casa Osten apresenta KOKUHŌ, uma exposição que celebra a tradição, a estética e a excelência das artes japonesas, em diálogo com o universo do filme Kokuho – O Preço da Perfeição, concorrente ao Oscar 2026.

A mostra propõe uma imersão sensível no conceito de kokuhō (tesouro nacional) explorando temas como herança cultural, disciplina, beleza e permanência, por meio de obras que conectam arte, cinema e identidade.

Kabuki, arte que nasce de uma mulher, Izumo no Okuni, em 1603, é transformada pela proibição das mulheres no palco. Surge, então, os onnagata (homens que interpretam mulheres no kabuki). O longa metragem acompanha a saga de um onnagata que se torna um tesouro nacional vivo, e já se tornou a maior bilheteria no Japão!

A exposição de arte é marcada por fotos do filme e haikais de Flavia Yumi Sakai, em um encontro entre imagem, palavra e tradição. O evento também conta com o apoio institucional e presença da Cônsul Geral do Japão em São Paulo, Yoriko Suzuki, e da curadoria de Yusk, artista e curador responsável pelo KŪMA artspace da Casa Osten. A exposição é seguida por um coquetel com Comfy Japanese Food, promovido pela Casa Bueno.

Abertura: 27/02
Horário: 18h às 22h
Local: Casa Osten (Rua Henrique Schaumann, 170 – São Paulo)

A exposição é uma experiência cultural única para conhecer de perto um dos universos artísticos mais ricos do cinema e da cultura japonesa contemporânea. Distribuído pela SATO Company e pela Imovision, Kokuho – O Preço da Perfeição, que estreou nos cinemas brasileiros em 5 de março.

Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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