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Os que amam, odeiam: clássico argentino do mistério chega ao Brasil 80 anos depois

O romance policial “Os que amam, odeiam“, escrito em colaboração por Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares, finalmente ganha sua primeira edição brasileira pela Companhia das Letras, oito décadas após sua publicação original na Argentina em 1946.

A obra, precursora do gênero policial na literatura argentina, chega às livrarias nacionais com tradução de Júlio Pimentel Pinto, trazendo ao público brasileiro uma narrativa inquietante que combina mistério, ironia e precisão literária digna dos grandes mestres da ficção policial.

Um mês, uma praia, um livro: a gênese improvável de uma obra única

A história por trás da criação deste livro é tão fascinante quanto sua narrativa. Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares escreveram “Os que amam, odeiam” em Mar del Plata, em pouco mais de um mês, durante o verão de 1946. O casal permaneceu na praia até o fim da estação, quando já quase não havia ninguém, e ali iniciaram e terminaram o romance que se tornaria o único livro que escreveram juntos em toda suas carreiras literárias. Esta circunstância especial torna a obra ainda mais preciosa, representando um momento único de convergência criativa entre dois dos maiores autores do século XX argentino.

Com uma narrativa se passa em um solitário hotel à beira-mar, em que uma pessoa é envenenada e outra desaparece, a história desencadeia uma trama de mistério que envolve o dr. Humberto Huberman, médico homeopata recém-chegado ao balneário em busca de descanso. O protagonista vê-se envolvido em uma complexa teia de vinganças, amores não correspondidos e paixões exacerbadas pela tempestade de vento e areia que, durante quatro noites, confina os hóspedes no hotel. Este sufocante isolamento traz à tona o melhor e o pior de cada personagem, levando as relações humanas ao limite e transformando todos em suspeitos em potencial.

Essa atmosfera claustrofóbica do hotel durante a tempestade cria um cenário perfeito para o desenvolvimento do suspense psicológico, onde cada personagem revela camadas ocultas de sua personalidade sob a pressão do confinamento forçado. A estrutura narrativa aproveita magistralmente o cenário isolado para construir tensão progressiva, enquanto o médico Huberman tenta desvendar os mistérios que se desenrolam diante dele, tornando-se tanto investigador quanto potencial vítima em meio às intrigas dos hóspedes.

“Os que amam, odeiam” é especialmente indicado para leitores que apreciam romances policiais clássicos com forte ênfase na psicologia dos personagens e atmosferas que intensificam o suspense. A obra atrai aqueles que valorizam a literatura latino-americana em sua vertente mais sofisticada, buscando narrativas que vão além do entretenimento puro para explorar as complexidades das relações humanas sob pressão extrema.

O livro também ressoa com fãs de Agatha Christie e outros mestres do gênero policial que privilegiam o jogo de dedução e a construção metódica de pistas, mas com a sensibilidade particular da literatura argentina do século XX. Leitores interessados em obras colaborativas raras entre autores consagrados encontrarão neste romance uma oportunidade única de observar como duas vozes literárias distintas podem se fundir em uma narrativa coesa e poderosa.

A colaboração entre Ocampo e Bioy Casares resulta em uma voz narrativa única que preserva as qualidades distintivas de cada autor enquanto cria algo novo e original. A influência de Borges, amigo próximo do casal e admirador declarado de Silvina, pode ser percebida na construção labiríntica da trama e na exploração de temas como identidade, verdade e percepção, embora a obra mantenha seu caráter distintamente policial.

Como precursor do romance policial na Argentina, “Os que amam, odeiam” ocupa um lugar importante na história da literatura latino-americana, demonstrando como o gênero pode ser adaptado e enriquecido pelas particularidades culturais e sociais do continente. A tradução brasileira de Júlio Pimentel Pinto preserva as nuances do original espanhol, permitindo que o público brasileiro finalmente acesse esta obra fundamental que permaneceu desconhecida por oito décadas em nosso país.

Lançado pela Companhia das Letras, a edição conta com acabamento em brochura e 160 páginas, e apresenta o livro em formato acessível que facilita a leitura e o transporte, ideal para aqueles que desejam mergulhar nesta narrativa intensa em uma única sessão de leitura.

“Os que amam, odeiam” representa não apenas uma oportunidade de conhecer uma obra importante que faltava ao catálogo brasileiro, mas também uma chance de refletir sobre como a literatura policial pode ser elevada a patamares artísticos superiores quando manuseada por mestres como Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. A obra continua tão relevante hoje quanto em 1946, demonstrando que certos temas humanos, quando tratados com profundidade e habilidade narrativa, transcendem o tempo e as barreiras culturais.

Viciado em cultura japonesa, fanático por games e consumidor de ficção científica e fantasia. Designer e já foi editor do Bookeando. Nas horas vagas consegue se dividir entre as batidas do seu taikô, as viagens por uma galáxia muito distante, a eterna busca pela Triforce e as batalhas nas 12 casas do Santuário.

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