Uma obra monumental de Salvador Dalí está prestes a ganhar um novo capítulo fora dos palcos. Considerada a maior pintura já feita pelo artista, Bacchanale, criada em 1939 como cenário de um balé, será leiloada em Paris no fim de março e já chama atenção pelo tamanho, pela história e pelo preço estimado.
A pintura foi concebida para uma produção apresentada no Metropolitan Opera, em Nova York. Diferente dos quadros tradicionais de Dalí, ela não nasceu para uma galeria, mas como pano de fundo teatral. O trabalho mede cerca de 20 metros por 30 metros e é formado por 13 painéis, ocupando uma área comparável à de um palco inteiro.
Bacchanale será o principal destaque do leilão de Surrealismo da Bonhams, marcado para o dia 26 de março. A casa de leilões estima que a obra seja arrematada por algo entre 200 mil e 300 mil euros, valor relativamente baixo quando comparado a pinturas clássicas de Dalí, que já ultrapassaram a casa dos milhões em outras vendas.
Essa diferença tem explicação. Obras criadas para o teatro costumam apresentar desafios práticos. São difíceis de transportar, conservar e expor, além de nunca terem sido pensadas como peças autônomas. Ainda assim, a raridade e a escala transformam Bacchanale em um item único no mercado de arte.
Visualmente, a pintura reúne símbolos recorrentes do Dalí do fim dos anos 1930. Um grande Monte de Vênus domina a composição, acompanhado de um cisne em proporções exageradas, figura que o artista explorou em várias fases da carreira. A escala gigantesca amplifica esses elementos e os aproxima mais de um espetáculo do que de um quadro convencional.
A obra surgiu em um momento em que o Surrealismo expandia seus limites. Dalí não se restringia à pintura. Ele transitava entre cenários teatrais, cinema, moda e colaborações com companhias de dança. O balé Bacchanale, coreografado por Léonide Massine para o Ballets Russes de Monte-Carlo, combinava mitologia, sonho e extravagância, tudo filtrado pelo olhar do artista catalão.
Enquanto pinturas de cavalete de Dalí, como Portrait de Paul Éluard, já alcançaram cifras próximas de 18 milhões de dólares em leilões, Bacchanale ocupa uma categoria diferente. Aqui, o valor está menos ligado à especulação e mais à importância histórica e institucional da peça.
O futuro da obra ainda é incerto. Por ser composta de vários painéis, ela pode ser restaurada e exibida como uma instalação única, incorporada a um acervo institucional ou até dividida para exposição separada. Museus e grandes colecionadores são vistos como os compradores mais prováveis, justamente por terem estrutura para lidar com algo dessa escala.
Vinda de uma coleção privada e raramente exibida nas últimas décadas, Bacchanale reaparece como um lembrete de que Dalí foi muito além de telas icônicas como A Persistência da Memória. A pintura mostra um artista interessado no espetáculo, no movimento e na experiência imersiva. Agora, fora do palco e prestes a ir a leilão, a obra reforça como o Surrealismo também pode ser gigante, físico e teatral.
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