Uma nova iniciativa ligada ao universo dos psicodélicos quer transformar uma das experiências mais estranhas relatadas por usuários de DMT em objeto de pesquisa mais profunda. A proposta parte de um fenômeno que intriga cientistas, terapeutas e curiosos há anos: durante o efeito da substância, muita gente afirma entrar em contato com entidades não humanas, frequentemente descritas como seres alienígenas, inteligências superiores ou presenças que parecem existir em outra dimensão. Agora, um grupo de pesquisadores quer entender melhor o que exatamente essas visões podem ensinar sobre a mente humana e, na visão de alguns deles, até sobre a própria natureza da consciência.

Um dos casos que ajudam a ilustrar esse debate é o de Anton Bilton, voluntário de um estudo conduzido em 2022 no Imperial College London. Ele participou de uma pesquisa pioneira com uma versão prolongada da experiência com DMT, chamada de DMTx. Em vez do consumo tradicional, como por vaporização, a substância foi administrada por infusão intravenosa controlada, o que permitiu estender seus efeitos por muito mais tempo do que o habitual. Enquanto os eletrodos monitoravam sua atividade cerebral, Bilton se preparava para mergulhar em um estado mental que, apesar de já lhe ser familiar por experiências anteriores, ainda carregava o peso do desconhecido. Quando os efeitos começaram, ele relatou a sensação intensa de ter entrado em um ambiente completamente fora da realidade comum, acompanhado da percepção de que estava sendo observado não apenas pelos pesquisadores, mas também por seres presentes naquele espaço mental.

Esse experimento abriu caminho para uma ambição ainda maior. No próximo dia 18 de março, será inaugurado em Bequia, uma pequena ilha do Caribe, um centro chamado Eleusis, que mistura retiro psicodélico e polo de pesquisa. O projeto pretende estudar justamente essas supostas entidades encontradas sob efeito do DMT. Andrew Gallimore, neurobiólogo e um dos nomes por trás da proposta, descreve a ideia como uma espécie de “SETI da mente”, em referência ao programa de busca por inteligência extraterrestre. A diferença é que, nesse caso, a investigação não olha para o espaço, mas para os estados alterados de consciência.
O nome Eleusis faz alusão à antiga cidade grega ligada a rituais espirituais que, segundo algumas hipóteses, envolviam substâncias psicoativas. No local, o DMT poderá ser administrado legalmente por profissionais licenciados, algo impossível em países como os Estados Unidos, onde a substância continua enquadrada entre as drogas mais restritas. A parte de pesquisa ficará sob responsabilidade da organização Noonautics, liderada por Gallimore, enquanto a área terapêutica será tocada por Charles Patti e Christina Thomas, também ligados a uma clínica de cetamina na Flórida.
A proposta do Eleusis é oferecer sessões de DMTx com acompanhamento médico, além de outras práticas típicas do universo terapêutico alternativo, como respiração guiada e cura sonora. Os candidatos passam por triagem prévia para excluir pessoas com problemas cardiovasculares, transtornos psiquiátricos não controlados ou conflitos medicamentosos. O pacote inicial, com quatro dias de hospedagem, alimentação e duas sessões de DMTx, custa 9.500 dólares. A experiência é vendida como uma alternativa mais controlável à ayahuasca, já que a infusão pode ser ajustada conforme o conforto do participante e interrompida rapidamente caso ele queira encerrar a jornada.
Além das sessões em si, os organizadores pretendem entrevistar os participantes em vídeo logo depois das experiências, registrando descrições detalhadas das visões e, principalmente, dos encontros com entidades. Esse material deve alimentar campanhas nas redes sociais e até um documentário, apresentado como uma tentativa de diminuir o estigma em torno da substância. O ponto mais polêmico, porém, não está na divulgação, mas na interpretação do que acontece durante essas viagens mentais.
Relatos de encontros com seres estranhos são extremamente comuns no uso de DMT. Alguns estudos indicam que esse tipo de experiência aparece em grande parte das sessões. As descrições variam bastante. Há quem fale em criaturas brincalhonas e mutantes, há quem veja formas tecnológicas de aparência impossível e também há quem relate figuras sombrias e ameaçadoras. Em muitos casos, o elemento em comum é a impressão de estar diante de uma inteligência avançada, poderosa e independente da própria mente de quem está sob efeito da droga.
Gallimore acredita que esse fenômeno não deveria ser tratado apenas como alucinação. Em seu livro mais recente, ele defende que o DMT talvez abra acesso a um domínio normalmente inacessível aos sentidos humanos, povoado por formas de vida ou inteligências não humanas extremamente avançadas. Para ele, a estranheza radical dessas entidades é justamente um dos argumentos contra a ideia de que seriam simples projeções psicológicas. Na sua leitura, esses seres parecem complexos demais, diferentes demais e inesperados demais para nascerem apenas de padrões inconscientes comuns.
Nem todos concordam com isso. Pesquisadores respeitados da área da neurociência e da consciência sustentam uma visão bem mais cautelosa. Robin Carhart Harris, um dos coautores do estudo com DMTx, argumenta que o cérebro humano já é naturalmente preparado para reconhecer rostos, intenções e presenças, especialmente em estados de intensa atividade mental e sensorial. Para ele, o que muitos interpretam como um encontro real com uma entidade pode ser, na prática, uma espécie de ilusão sofisticada produzida por um cérebro em estado altamente entrópico. Susan Blackmore, psicóloga e pesquisadora da consciência, segue linha parecida ao dizer que nossa mente é moldada para avaliar outros seres e suas intenções, algo essencial para a sobrevivência humana. Por isso, encontrar presenças durante uma experiência psicodélica não seria tão surpreendente do ponto de vista cognitivo.
É justamente nessa tensão entre fascínio e ceticismo que o projeto ganha força. A ideia de investigar cientificamente seres vistos em estados alterados de consciência parece ousada, quase ficção científica, mas também toca em questões muito reais sobre percepção, linguagem, subjetividade e os limites da investigação científica. Gallimore imagina até uma abordagem multidisciplinar, com matemáticos, linguistas e outros especialistas tentando interagir com essas entidades dentro do estado induzido pelo DMT, numa tentativa de verificar se existe algum padrão consistente, alguma forma de comunicação ou qualquer evidência de que essas presenças sejam mais do que criações do cérebro.
No fim das contas, o projeto pode acabar revelando menos sobre alienígenas e mais sobre nós mesmos. Seja como manifestações profundas da mente humana, seja como algo ainda sem explicação, essas experiências continuam mexendo com um dos maiores mistérios da ciência: o que é a consciência e até onde ela pode nos levar quando seus limites são empurrados ao extremo.