A patinação no gelo, antes vista como um esporte distante e quase exótico para o público brasileiro, tem ganhado espaço crescente no imaginário popular, impulsionada por adaptações de sucesso, livros e mangás que colocam o gelo no centro de histórias emocionantes. Esse movimento não é apenas reflexo de uma moda passageira, mas sinal de que o tema, com seu equilíbrio entre drama, superação e romantismo, encontrou eco em leitores e espectadores que buscam narrativas intensas e visualmente deslumbrantes.
O gelo que aquece corações
No Brasil, a patinação artística nunca teve tradição competitiva de grande expressão, mas isso não impediu que o esporte se tornasse protagonista de obras que tocam o coração do público nacional. O fenômeno se explica, em parte, pela capacidade dessas histórias de traduzir em emoção universal o que acontece sobre o gelo, trazendo a luta contra limites pessoais, a busca por reconhecimento e a beleza de movimentos que parecem desafiar a gravidade.

É nesse contexto que surgem duas obras recentes que, cada uma à sua maneira, ajudam a explicar por que a patinação no gelo está em alta no país com o mangá “Medalist“, da Editora JBC, e o livro “Patinando no Amor“, de Lynn Painter, pela Editora Intrínseca.
Medalist, a superação em cada pirueta

Medalist é um mangá de drama e esporte escrito e ilustrado por Tsurumaikada, publicado originalmente na revista Afternoon da Kodansha a partir de maio de 2020. A obra acompanha Inori Yuitsuka, uma menina de 11 anos que sonha em se tornar uma patinadora artística de nível mundial, mas enfrenta obstáculos desde o início: para os padrões do esporte, ela começa tarde demais (se é que isso existe), e a mãe, marcada pelo fracasso da carreira de patinação da irmã mais velha de Inori, resiste à ideia de vê-la seguir o mesmo caminho.

O destino de Inori muda quando ela conhece Tsukasa Akeuraji, um ex-patinador que abandonou o sonho de competir por problemas financeiros e agora trabalha como assistente técnico em uma pista de gelo. Ao ver a determinação da garota, que treina escondida, Tsukasa se oferece para ser seu treinador, e juntos eles embarcam em uma jornada de superação em um ambiente altamente competitivo, com o objetivo de um dia chegar às Olimpíadas.

Medalist se destaca não apenas pelo enredo inspirador, mas também pela arte cuidadosa de Tsurumaikada, que chegou a fazer um curso de patinação artística para retratar o esporte com mais fidelidade. A obra foi laureada com prêmios importantes, como o Next Manga Awards (2022), o Shogakukan Award (2023) e o Kodansha Manga Award (2024), e ganhou adaptação para anime em 2025, disponível no Brasil pela Disney+, com segunda temporada lançada em janeiro de 2026.
Patinando no amor, o reencontro no gelo

Do outro lado da estante, Patinando no Amor, nova comédia romântica de Lynn Painter, autora do fenômeno “Melhor do que nos filmes” e “Nada é Por Acaso”, aposta no reencontro de dois melhores amigos de infância em um cenário onde o hóquei e, por extensão, o universo do gelo, é quase uma religião. A história apresenta Dani e Alec, que eram inseparáveis na infância até que Dani se mudou de cidade e o contato se perdeu.

Anos depois, ela retorna para o último ano do ensino médio em meio ao caos do divórcio dos pais e descobre que Alec não é mais o garoto gentil do passado, agora ele é uma estrela do hóquei, cercado por fãs e distante da amiga de infância. O reencontro acontece de forma inesperada, e os dois acabam precisando fingir que são um casal, o que os aproxima novamente, desenterra segredos de família e os obriga a enfrentar o que realmente sentem um pelo outro, incluindo o verdadeiro motivo pelo qual Alec se afastou de Dani.

Em Minnesota, onde o hóquei é venerado, o romance de Painter usa o gelo como pano de fundo para uma narrativa que mistura comédia, drama familiar e a clássica fórmula do “falso relacionamento” que dá lugar a sentimentos reais.
Dois lados do gelo
O que une “Medalist” e “Patinando no Amor“, apesar das diferenças de formato e tom, é a forma como ambas as obras colocam o gelo no centro de histórias sobre reconexão e superação. Em “Medalist”, o foco está na relação entre treinador e aluna, com ênfase no crescimento pessoal, na quebra de barreiras internas e na busca por um sonho que parece inalcançável. A patinação é retratada como um espaço de disciplina, dor e beleza, onde cada movimento carrega o peso de uma história e a esperança de um futuro melhor.

Já em “Patinando no Amor“, o gelo serve como cenário para um romance que mistura elementos de comédia e drama, com protagonistas que precisam lidar com o passado, expectativas sociais e sentimentos mal resolvidos. A patinação ou, nesse caso, o hóquei, funciona como um elemento de identidade cultural e pressão social, mas também como um lugar onde os personagens podem se reencontrar e descobrir quem são um para o outro.

Ambas as obras, cada uma à sua maneira, mostram que o gelo não é apenas um palco frio e distante, mas um espaço de transformação, onde personagens enfrentam medos, limites e expectativas para se tornarem versões mais plenas de si mesmos.
Para quem gosta de patinação no gelo
Se você é fã de patinação no gelo ou se simplesmente gosta de histórias que combinam esporte, drama e romantismo, “Medalist” e “Patinando no Amor” são leituras que valem a pena. O mangá de Tsurumaikada é ideal para quem busca uma narrativa mais focada no aspecto esportivo, com personagens complexos, arte detalhada e um enredo que equilibra emoção e superação. Já o livro de Lynn Painter é perfeito para quem curte comédias românticas com toques de drama, reencontros marcantes e a dinâmica do “falso casal” que evolui para algo real.

Juntas, essas obras ajudam a explicar por que a patinação no gelo tem conquistado o público brasileiro, pois não se trata apenas de um esporte, mas de um universo narrativo rico, capaz de abrigar histórias de superação, romance e identidade. E, para quem ainda não se aventurou por esse gelo, talvez seja a hora de dar o primeiro passo ou a primeira pirueta.