Uma nova pesquisa internacional acendeu um alerta ao mostrar que parte significativa dos homens da geração Z ainda mantém visões bastante conservadoras sobre os papéis de gênero. O dado que mais chama atenção indica que 31% dos jovens dessa geração acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, uma visão que apareceu com muito menos força entre homens da geração Baby Boomer. O levantamento foi divulgado às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, e reforça como ideias consideradas ultrapassadas continuam circulando entre os mais jovens, mesmo em uma época marcada por debates intensos sobre igualdade.

Existe um senso comum de que as gerações mais novas tendem a romper com valores tradicionais defendidos pelos mais velhos, especialmente quando o assunto envolve casamento, sexualidade, carreira e divisão de responsabilidades dentro de casa. No entanto, os dados reunidos pelo Global Institute for Women’s Leadership, da King’s Business School, ligada ao King’s College London, mostram um cenário mais contraditório. Em vários pontos, homens da geração Z se mostraram mais alinhados a ideias conservadoras do que homens muito mais velhos, incluindo os Baby Boomers.
A diferença aparece com força quando o tema é autoridade dentro do casamento heterossexual. Enquanto 17% dos homens Baby Boomers disseram concordar que o marido deve ter a palavra final nas grandes decisões, entre os homens da geração Z esse tipo de pensamento aparece de forma bem mais intensa. Quando a afirmação foi a de que a esposa deve sempre obedecer ao marido, 31% dos homens mais jovens concordaram, contra apenas 13% dos homens da geração Boomer.

Entre as mulheres, a adesão a esse tipo de pensamento foi menor, mas ainda assim chama atenção. Na geração Z, 18% das mulheres concordaram com a ideia de que a esposa deve obedecer ao marido. Entre as mulheres Baby Boomers, esse índice caiu para 6%. O contraste mostra que, embora os homens jovens concentrem as posições mais tradicionais, esse imaginário ainda encontra eco em parte das mulheres da mesma faixa geracional.
A pesquisa também identificou opiniões conservadoras em relação à sexualidade. Entre os homens da geração Z, 21% afirmaram que uma “mulher de verdade” não deveria tomar a iniciativa sexual. Entre os Baby Boomers, apenas 7% concordaram com essa afirmação. Já quando o assunto foi criação dos filhos, 21% dos homens mais jovens disseram acreditar que ter participação ativa na parentalidade é algo “menos masculino”. Esse entendimento apareceu em apenas 8% dos homens Boomers e em 14% das mulheres da geração Z.
Outro dado importante envolve a forma como esses jovens enxergam a independência feminina. Entre os homens Baby Boomers, 12% disseram que mulheres não deveriam parecer independentes ou autossuficientes. Entre os homens da geração Z, esse número dobrou e chegou a 24%. Ao mesmo tempo, muitos deles também afirmaram sentir pressão para corresponder a padrões rígidos de masculinidade. Cerca de 43% disseram se sentir cobrados para aparentar dureza física, o que sugere que essas normas tradicionais não limitam apenas as mulheres, mas também aprisionam os próprios homens.
Segundo a professora Heejung Chung, diretora do Global Institute for Women’s Leadership, os resultados são preocupantes porque revelam a permanência de normas de gênero antigas em pleno presente. Mais do que isso, eles mostram que muitas pessoas ainda se sentem pressionadas por expectativas sociais que nem sempre refletem o que a maioria realmente pensa ou deseja para a vida em sociedade.
O estudo ouviu pessoas de 29 países e também mostrou diferenças importantes entre nações. Em uma das perguntas, que avaliava a percepção de que os homens estariam sendo obrigados a fazer demais para apoiar a igualdade, 70% dos entrevistados no Brasil e na Índia concordaram com essa ideia. Já em países como Holanda e Suécia, os índices foram muito menores, ficando em 33% e 31%, respectivamente. Isso mostra que o debate sobre igualdade de gênero não acontece da mesma forma em todos os lugares e depende bastante do contexto cultural, social e econômico.
Ao mesmo tempo, o levantamento também identificou uma espécie de contradição nas respostas. Em média, a maioria dos participantes disse acreditar que responsabilidades como o cuidado com os filhos deveriam ser divididas de forma igual entre homens e mulheres. Ainda assim, quando as perguntas se voltavam para o cotidiano doméstico e para o comportamento esperado de cada gênero, surgiam respostas muito mais tradicionais. Em outras palavras, muita gente apoia a igualdade em tese, mas ainda reproduz visões conservadoras quando o assunto entra no campo da vida real.
Em escala global, 60% dos entrevistados afirmaram que o mundo funcionaria melhor se mais mulheres ocupassem cargos de liderança em governos e empresas. Outro dado que chama atenção é o crescimento da identificação com o feminismo. No total, 39% disseram concordar com a frase “eu me defino como feminista”, acima dos 33% registrados em 2019. Nos Estados Unidos, esse índice passou de 31% para 40% no mesmo período.
Mesmo com esses avanços, o relatório destaca que os homens da geração Z foram, de maneira geral, os mais propensos a concordar com visões tradicionais sobre os papéis de homens e mulheres. Para Kelly Beaver, executiva da Ipsos no Reino Unido e na Irlanda, os dados revelam uma espécie de renegociação das identidades de gênero na sociedade atual. Segundo ela, a geração Z demonstra uma dualidade curiosa. É o grupo mais inclinado a achar que mulheres bem-sucedidas são mais atraentes, mas também o mais propenso a concordar que a esposa deve obedecer ao marido e que a mulher não deveria parecer independente demais.
Essa combinação de modernidade com conservadorismo ajuda a explicar por que o debate sobre gênero continua tão complexo. Não se trata apenas de uma disputa entre passado e presente, mas de um cenário em que valores novos e antigos convivem ao mesmo tempo, muitas vezes dentro da cabeça da mesma pessoa. Para Julia Gillard, presidente do instituto responsável pelo estudo, o problema é que muitos homens da geração Z não apenas impõem expectativas limitadoras às mulheres, como também acabam se prendendo a modelos rígidos de masculinidade que prejudicam a todos.
No fim das contas, a pesquisa sugere que a igualdade de gênero ainda avança de forma desigual e cheia de contradições. Embora exista apoio crescente à presença feminina em espaços de poder e uma adesão maior ao feminismo em vários países, visões tradicionais sobre casamento, sexualidade e comportamento continuam fortes entre os mais jovens. E isso mostra que, ao contrário do que muitos imaginam, ser parte de uma nova geração não significa automaticamente deixar velhas ideias para trás.
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