Games

Pokémon GO ajudou a criar um mapa com 30 bilhões de imagens que agora guia robôs pelo mundo real

Milhões de jogadores de Pokémon GO passaram anos andando por ruas, praças e parques atrás de criaturas virtuais sem imaginar que estavam participando de algo muito maior. Desde o lançamento do jogo, em 2016, essas explorações renderam mais de 30 bilhões de imagens capturadas por celulares, formando um dos maiores mapas visuais do mundo já criados de forma colaborativa.

As imagens surgiram durante tarefas comuns do jogo. Ao escanear PokéStops, ginásios e pontos de interesse para completar missões ou liberar recompensas, os jogadores registraram muito mais do que simples fotos. Cada captura vinha acompanhada de dados como posição exata, ângulo da câmera, movimento, horário e condições de iluminação, criando um retrato detalhado de ambientes urbanos ao nível do pedestre.

Com o passar dos anos, esse material foi se acumulando. Locais populares receberam milhares de registros feitos por pessoas diferentes, em dias, climas e horários variados. Isso resultou em um mapa visual denso, impossível de ser reproduzido por carros de mapeamento ou imagens de satélite, que normalmente mostram apenas uma perspectiva limitada do espaço.

Após a venda da Niantic para a Scopely em 2025, esse acervo passou a ser desenvolvido por uma nova empresa, a Niantic Spatial. A companhia manteve os direitos sobre os dados coletados em jogos como Pokémon GO, Pikmin Bloom e Monster Hunter Now e transformou esse material em um sistema de posicionamento visual voltado para aplicações do mundo real.

Segundo reportagem da MIT Technology Review, a tecnologia já está sendo usada por empresas de robótica. Em parceria com a Coco Robotics, a Niantic Spatial aplica seu Visual Positioning System para guiar robôs de entrega em calçadas e áreas urbanas densas. Em vez de depender apenas do GPS, que pode errar vários metros em centros urbanos, os robôs comparam o que suas câmeras veem em tempo real com imagens capturadas anos antes pelos jogadores.

Esse método permite que as máquinas reconheçam fachadas, placas e esquinas com precisão de poucos centímetros. Para robôs que dividem espaço com pedestres, desníveis e obstáculos, esse nível de detalhe faz toda a diferença, especialmente em entregas de última milha, como comida e compras.

O que torna esse caso singular é o fato de o mapa ter sido construído sem um esforço explícito de mapeamento. Jogadores deram permissão de uso da câmera como parte da experiência do jogo, mas muitos provavelmente não sabiam que suas ações ajudariam a criar uma base de dados com aplicações comerciais e industriais anos depois.

Desde o início, a Niantic fala em criar um modelo tridimensional do mundo visto da perspectiva humana. O legado de Pokémon GO mostra que, ao caçar criaturas digitais, jogadores também ensinaram máquinas a entender e navegar pelo espaço físico. Uma atividade pensada para entretenimento acabou se tornando parte silenciosa da infraestrutura que move robôs pelas cidades de hoje.

Veja mais sobre games.

Jornalista há mais de 20 anos e fundador do NERDIZMO. Foi editor do GamesBrasil, TechGuru, BABOO e já forneceu conteúdo para os principais portais do Brasil, como o UOL, GLOBO, MSN, TERRA, iG e R7. Também foi repórter das revistas MOVIE, EGW e Nintendo World.

Pin