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Como mulheres aprendiam sobre sexo “na marra” antes da educação sexual formal na Inglaterra

Durante boa parte do século 20, falar de sexo de forma aberta ainda era um tabu enorme na Inglaterra, especialmente entre mulheres jovens da classe trabalhadora. Sem educação sexual nas escolas, sem acesso fácil a métodos contraceptivos e cercadas por julgamentos morais, muitas delas acabavam descobrindo o funcionamento do próprio corpo da maneira mais dolorosa possível. Em vez de informação segura, o que circulava eram conselhos improvisados, rumores, receitas caseiras perigosas e uma série de medos que marcavam a vida íntima feminina desde cedo.

Esse cenário aparece com força em relatos autobiográficos de mulheres que viveram nas primeiras décadas do século passado. Um dos exemplos mais marcantes é o de Jane Walsh, nascida em Lancashire em 1905. Já casada e mãe de dois filhos, ela engravidou novamente em 1941 e, preocupada com a situação financeira da família, procurou ajuda em uma pequena loja em Rochdale. Lá, foi atendida por uma comerciante conhecida como Mrs Pleasant, que vendia cápsulas e um preparado líquido supostamente capazes de interromper a gravidez. O tratamento era caro e envolto em segredo, como acontecia com muitos produtos desse tipo na época. No caso de Jane, o remédio não funcionou, mas a tentativa revela o grau de desespero de mulheres que não viam outra saída diante de uma gestação não planejada.

Catálogo de fabricantes da E. Lambert & Son, anúncio da seringa feminina ‘Vonda’, 1900. 

O uso de substâncias abortivas, na verdade, não era novidade. Misturas de ervas e compostos caseiros já circulavam havia séculos, e no século 19 anúncios disfarçados em jornais ofereciam pílulas para “irregularidades femininas” ou “obstruções”, expressões que muitas vezes escondiam a promessa de provocar aborto. O problema é que essas práticas eram ilegais e extremamente arriscadas. A legislação inglesa endureceu progressivamente ao longo do tempo, criminalizando o uso de drogas e instrumentos para interromper a gravidez. Isso empurrou muitas mulheres para um mercado clandestino sem qualquer segurança, onde a ineficácia dividia espaço com o risco real de morte.

Anúncio do contraceptivo Rendells, 1938.

Além de remédios duvidosos, circulavam também receitas e métodos improvisados que hoje parecem assustadores. Banhos quentes com mostarda, consumo excessivo de álcool e o uso de objetos metálicos eram algumas das soluções sugeridas entre vizinhas e conhecidas. Em outro depoimento, Elizabeth Ring, nascida em Londres em 1912, relembrou o caso de uma jovem que, depois de dar à luz, engravidou novamente e recebeu a orientação de derreter sabão em água fervente para fazer uma aplicação íntima. Ninguém explicou que o líquido precisava esfriar antes. A mulher morreu. Histórias assim mostram como a ausência de informação confiável podia transformar boatos em tragédia.

Esses testemunhos vieram à tona em coletâneas de escritos autobiográficos da classe trabalhadora reunidas por historiadores sociais interessados em provar que homens e mulheres comuns também registraram suas próprias experiências. E é justamente nesses relatos do cotidiano que aparecem pistas valiosas sobre puberdade, sexualidade, casamento, maternidade e controle de natalidade. Em muitos casos, o motivo para evitar uma nova gravidez não tinha a ver com rejeição à maternidade, mas com sobrevivência. Jane Walsh, por exemplo, dizia amar bebês, mas sabia que outro filho poderia desestabilizar de vez o orçamento doméstico.

Ao mesmo tempo, já começava a ganhar força o movimento pelo controle de natalidade. No início do século 20, figuras como Marie Stopes passaram a defender publicamente a educação sexual e a contracepção entre casais. Ela publicou livros sobre vida sexual e planejamento familiar e abriu, em 1921, uma das primeiras clínicas de controle de natalidade. Aos poucos, autoridades locais também passaram a distribuir informações em centros de assistência. Mesmo assim, esse avanço era bastante limitado. O foco estava quase sempre em mulheres casadas, enquanto jovens solteiras continuavam praticamente excluídas dessas orientações. A lógica moral da época era clara. Em vez de ensinar sobre sexo, preferia-se insistir na castidade antes do casamento.

Cartaz do Centro de Assistência Social Feminina do Leste de Londres, 1924.

Esse silêncio teve efeitos profundos. Para muitas meninas, o primeiro contato com qualquer explicação sobre sexo vinha de amigas, colegas ou conversas cochichadas, quase sempre carregadas de medo e nojo. Vera Alsop, nascida em 1915 em County Durham, resumiu isso ao dizer que o sexo era um assunto proibido e que as pessoas aprendiam “da maneira difícil” ou “da maneira suja”. Não era raro que esse aprendizado deixasse marcas emocionais duradouras. Edith Evans, por exemplo, contou que descobriu o que era a relação sexual aos 12 anos, por meio de uma colega de escola. A revelação a apavorou tanto que ela passou a evitar homens e chegou ao casamento carregando um medo intenso da intimidade. Só com o tempo conseguiu reconstruir sua relação com o próprio desejo.

Algo parecido aconteceu com Edna Bold, nascida em Manchester em 1904. Quando soube como funcionavam a reprodução e o parto, descreveu tudo como algo chocante e repulsivo. Para ela, a maternidade parecia associada a sofrimento extremo. O medo foi tão grande que decidiu nunca ter filhos. O relato mostra que, em uma época sem diálogo franco e sem orientação adequada, o sexo podia ser percebido menos como uma experiência afetiva ou prazerosa e mais como uma ameaça.

Mesmo com todas essas limitações, mulheres solteiras e casais casados encontravam formas de tentar evitar a gravidez. Nem sempre esses métodos aparecem descritos com clareza nos relatos, mas é evidente que algum tipo de controle existia. Um dos recursos mais comuns era o coito interrompido, visto como uma solução gratuita e acessível. Também já existiam preservativos, espermicidas, duchas e outros métodos de barreira, e os preservativos, em especial, passaram a se popularizar mais nas décadas de 1920 e 1930. Ainda assim, havia dois obstáculos importantes. Primeiro, muitos desses métodos eram falhos. Segundo, comprá-los podia ser extremamente constrangedor, sobretudo para mulheres.

A primeira clínica de controle de natalidade, na Whitfield Street, em Londres. 

Dorothy Scannell, nascida em Londres em 1911, relatou um episódio que ilustra bem esse desconforto. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu marido, que servia nas Forças Armadas, recebeu uma licença inesperada, e ela decidiu comprar preservativos para evitar uma nova gravidez. A experiência foi descrita como profundamente embaraçosa. O simples fato de entrar no estabelecimento já era motivo de tensão, e o constrangimento aumentou quando foi atendida por um homem que perguntou qual tipo de preservativo ela queria. Sem saber como reagir, pegou qualquer um e saiu o mais rápido possível.

A mudança real nesse cenário levou bastante tempo. Mesmo quando a pílula anticoncepcional começou a ser oferecida pelo sistema público de saúde britânico, em 1961, o acesso inicial foi restrito a mulheres casadas. Só em 1967 ela passou a ser disponibilizada de forma mais ampla. Isso mostra como a sociedade demorou a aceitar que prevenir a gravidez não era apenas uma questão médica, mas também de autonomia feminina e de acesso à informação.

Visto a partir de hoje, esse período deixa claro que a chamada liberdade sexual não surgiu de repente. Ela foi resultado de uma longa transformação cultural, social e política. Para muitas mulheres da primeira metade do século 20, sexo, gravidez e maternidade estavam cercados por medo, silêncio e risco. O que hoje parece básico, como receber orientação clara sobre o corpo, ter acesso a métodos contraceptivos confiáveis e poder falar sobre desejo sem culpa, foi durante muito tempo um privilégio negado. E é justamente por isso que esses relatos do passado ainda impressionam tanto. Eles mostram que, antes da educação sexual, muita gente aprendeu sobre sexo não com conhecimento, mas com sofrimento.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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