Existe algo especial em revisitar um jogo que nasceu em uma época na qual cada detalhe técnico precisava ser aproveitado ao máximo. Apidya’ Special entende muito bem esse sentimento. O título desenvolvido pelo Team Apidya e publicado pela ININ resgata o shoot ’em up lançado originalmente em 1992 para o Amiga, mas faz isso sem simplesmente colocar o clássico em uma embalagem moderna.
A nova versão foi reconstruída do zero em pixel art de 24 bits, tomando como base uma versão para consoles dos anos 1990 que havia sido abandonada. O resultado é um remake que tenta equilibrar fidelidade histórica e conveniências atuais, mantendo o espírito do original enquanto amplia seus cenários, melhora seus efeitos visuais e oferece opções para tornar a experiência mais acessível.
Remake com cheiro de televisão de tubo
Em Apidya’ Special, o jogador assume o controle de Ikuro, transformado em uma abelha guerreira após sua esposa, Yuri, ser envenenada pelo feiticeiro Hexaae. A história é simples, direta e bastante típica dos jogos de ação dos anos 1990. O protagonista precisa atravessar diferentes ambientes em busca de um antídoto, enfrentando insetos mutantes, criaturas gigantes e chefes que parecem ter saído de um pesadelo entomológico.

A narrativa funciona como uma justificativa para colocar a abelha em movimento. O protagonismo, porém, pertence mesmo à ação. Apidya’ Special é um shoot ’em up horizontal tradicional, no qual avançar, atirar, coletar melhorias e memorizar padrões são as principais ferramentas para continuar vivo.
O maior mérito de Apidya’ Special está no cuidado dedicado à apresentação. O jogo pode ser aproveitado em widescreen, com novos efeitos de paralaxe e cenários mais amplos, ou no formato 4:3, que procura reproduzir a aparência, o ritmo e a atmosfera do lançamento original.

Também é possível ativar filtros de CRT com linhas de varredura, brilho de fósforo e simulação de máscara de sombra. Não se trata apenas de um filtro genérico aplicado sobre a imagem, mas sim de uma opção que ajuda a recriar a sensação de jogar em uma televisão antiga, especialmente quando combinada ao formato original.
Essa fidelidade não impede que o remake tenha identidade própria, com uma pixel art renovada e colorida, detalhada e cheia de personalidade. Os ambientes passam por campos floridos, áreas aquáticas, esgotos, instalações tecnológicas e o covil do antagonista. Cada mundo possui uma direção visual própria, ainda que a quantidade de elementos na tela ocasionalmente dificulte a leitura dos inimigos e dos projéteis.
Flores, armas e decisões rápidas
A estrutura de Apidya’ Special lembra bastante a de clássicos como Gradius, mas troca naves espaciais por abelhas, mosquitos, peixes, sapos e outras criaturas. A troca não é apenas estética. O jogo possui um visual tão particular que seus combates conseguem se destacar mesmo dentro de um gênero conhecido por repetir fórmulas.

Ao derrotar inimigos, o jogador coleta flores que preenchem uma barra de melhorias. Conforme o marcador avança, novas opções de equipamento ficam disponíveis. É possível investir em aumento de velocidade, bombas, disparos espalhados, laser, projéteis em ondas, drones, escudos e outras modificações.
A mecânica é simples de entender, mas exige decisões constantes. Nem sempre o melhor caminho é ativar imediatamente a primeira melhoria disponível. Em determinados trechos, uma arma espalhada pode ser mais útil para controlar grupos de inimigos. Em outros, um laser concentrado ajuda a causar mais dano a um chefe. O escudo, por sua vez, pode ser decisivo para atravessar uma área complicada, enquanto o aumento de velocidade pode dificultar o controle em espaços apertados.

Essa escolha dá ao jogador uma camada estratégica que vai além de simplesmente atirar sem parar. A pessoa precisa observar o estágio, compreender o padrão dos adversários e decidir qual recurso combina melhor com a situação.
Apidya’ Special também apresenta cinco mundos temáticos, cada um com até cinco fases, além de 20 chefes diferentes e estágios especiais escondidos. A quantidade de conteúdo é respeitável para um shoot ’em up desse formato e contribui para que a aventura não pareça apenas uma experiência curta baseada em nostalgia.

Eventos aleatórios, como o Night Mode, ajudam a alterar algumas partidas. A aparição de novos sprites de inimigos e mudanças inesperadas dão um pouco mais de variedade às tentativas, especialmente para quem pretende repetir as fases em busca de melhores resultados.
Os controles respondem bem aos comandos, permitindo que o jogador movimente Ikuro, dispare e utilize as habilidades adquiridas durante a fase. Não há complexidade desnecessária, e a adaptação é rápida mesmo para quem não tem tanta familiaridade com shoot ’em ups antigos.

A dificuldade original poderia afastar jogadores acostumados a experiências mais permissivas, mas o remake oferece quatro níveis. Também é possível modificar a quantidade de vidas e continues, ajustar a frequência de obtenção de novas vidas e impedir que o poder de fogo seja reduzido após receber dano.
Outro recurso útil é o retorno ao último ponto de salvamento automático, evitando que uma morte obrigue o jogador a repetir uma seção inteira da fase, algo que poderia tornar a experiência excessivamente punitiva nos dias atuais.

Ainda assim, Apidya’ Special não oferece opção de retroceder instantes ou save states manuais, pois a proposta continua sendo aprender com os erros, decorar padrões e melhorar a execução. As opções modernas reduzem a frustração, mas não removem completamente a identidade desafiadora do jogo.
O modo cooperativo local é um acréscimo bem-vindo, em que o segundo jogador controla outra abelha e participa diretamente da ação. Como acontece em muitos títulos do gênero, a cooperação pode facilitar alguns confrontos, mas também aumenta a quantidade de elementos na tela. É uma alternativa divertida para jogar com outra pessoa, especialmente para quem deseja transformar a campanha em uma experiência mais descontraída.
Pixel art, música e nostalgia
A direção de arte é um dos pontos mais fortes do remake de Apidya’ Special, pois aproveita a ideia de transformar um shoot ’em up em uma aventura por um mundo de insetos e criaturas mutantes. O contraste entre a aparência colorida dos cenários e a agressividade dos inimigos cria uma identidade visual bastante marcante.

A trilha sonora é outro destaque, com Chris Hülsbeck retornando ao projeto com novas versões de estúdio das músicas clássicas, que recebem arranjos mais modernos sem perder a personalidade associada ao Amiga. As composições combinam melodias marcantes com batidas eletrônicas e ajudam a conduzir o ritmo acelerado das fases.
Apidya’ Special entendeu que preservar um jogo antigo não significa mantê-lo intocado. O remake moderniza a apresentação, amplia o conteúdo e oferece opções de acessibilidade, mas conserva a essência de uma experiência criada para testar reflexos e paciência.

Para quem gosta de shoot ’em ups, jogos retrô ou simplesmente quer conhecer uma parte menos lembrada da história do Amiga, Apidya’ Special é uma viagem muito bem conduzida de volta aos anos 1990. Então, afie seus reflexos, escolha bem seus power-ups e prepare-se para enfrentar uma quantidade absurda de insetos.
##
Nota final: 5/5
Acesse o site oficial do jogo.
Veja mais reviews de games.