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Seu cérebro usa só 20 watts de energia, quase a mesma quantidade que um monitor

Em um momento em que computadores e sistemas de inteligência artificial exigem cada vez mais energia para operar, o cérebro humano continua sendo uma das estruturas mais impressionantes da natureza. Mesmo consumindo algo em torno de 20 watts, uma potência parecida com a de um monitor de computador, ele consegue realizar tarefas extremamente complexas com uma eficiência que as máquinas ainda estão longe de igualar.

Hoje, já convivemos com computadores capazes de executar cálculos gigantescos, processar volumes imensos de dados e alimentar ferramentas de IA que parecem cada vez mais sofisticadas. Só que esse avanço tem um custo alto. Além do impacto ambiental, existe também o consumo massivo de eletricidade e recursos naturais para manter essa infraestrutura funcionando. Nesse cenário, o cérebro humano surge como um contraste quase inacreditável. Ele faz muito mais gastando muito menos.

Pesquisadores vêm destacando esse feito há alguns anos. Em 2023, o cientista Advait Madhavan, do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, afirmou que o cérebro pode alcançar algo equivalente a um exaflop, ou seja, um quintilhão de operações matemáticas por segundo, usando apenas 20 watts de potência. Para efeito de comparação, supercomputadores capazes de atingir esse mesmo nível de processamento precisam de uma quantidade de energia milhões de vezes maior.

Embora o cérebro seja um órgão bastante exigente dentro do corpo humano, ele representa cerca de 2% do peso corporal e consome aproximadamente 20% da energia basal do organismo, o gasto total ainda é surpreendentemente baixo. Em uma dieta média diária, isso significaria algo em torno de 340 calorias dedicadas ao funcionamento cerebral. Em termos práticos, é uma quantia modesta para sustentar tudo o que ele faz, desde a coordenação dos movimentos até a memória, a linguagem, a percepção do ambiente e a consciência.

Traduzindo isso para comparações mais visuais, a energia usada pelo cérebro ao longo de um dia equivale a uma fração pequena do que aparelhos comuns consomem. É menos do que seria necessário para manter uma lâmpada incandescente antiga acesa por muitas horas e também representa menos energia do que a fornecida por algumas bananas. Já um supercomputador como o Oak Ridge Frontier, um dos mais poderosos do mundo, precisa de cerca de 20 megawatts para alcançar desempenho semelhante. A diferença é tão brutal que escancara o quanto a biologia ainda está à frente quando o assunto é eficiência energética.

Essa disparidade também traz uma discussão importante sobre sustentabilidade. Máquinas cada vez mais poderosas exigem estruturas gigantescas, resfriamento constante, consumo de água, combustíveis e eletricidade em escala industrial. O cérebro, por outro lado, realiza tarefas de altíssimo nível com um gasto relativamente discreto. Ele reconhece padrões, interpreta linguagem, toma decisões rápidas, imagina cenários, coordena movimentos complexos e ainda faz tudo isso de forma dinâmica, adaptável e contínua.

Uma das chaves dessa eficiência está justamente na maneira como o cérebro processa informações. Diferentemente de muitos computadores tradicionais, que executam tarefas em sequência, etapa por etapa, o cérebro opera em grande parte de forma paralela. Isso significa que diferentes grupos de neurônios podem trabalhar ao mesmo tempo em vários aspectos de uma mesma tarefa. Quando uma pessoa vê uma bola vindo em sua direção e a pega no ar, por exemplo, o cérebro não faz apenas uma conta linear e demorada. Ele processa simultaneamente posição, velocidade, direção e resposta motora, permitindo uma reação quase instantânea.

Esse funcionamento em paralelo é uma das características que mais despertam interesse em cientistas da computação e engenheiros. Em vez de seguir apenas o modelo tradicional das máquinas, que dependem de sequências rígidas e grande precisão em cada etapa, pesquisadores querem entender como a arquitetura do cérebro pode inspirar novas gerações de sistemas computacionais. A ideia é desenvolver máquinas que aprendam melhor, consumam menos energia e sejam mais adaptáveis a situações complexas e ambíguas.

Essa busca já está em andamento em várias universidades e centros de pesquisa. Um dos caminhos investigados envolve modelos de aprendizado mais próximos do cérebro biológico, usando mecanismos que imitam a forma como os neurônios reforçam conexões ao aprender. Em vez de depender somente dos métodos clássicos usados em inteligência artificial, esses projetos tentam reproduzir princípios naturais de aprendizagem, tornando o processamento mais orgânico e menos artificial.

Outros grupos estudam formas de limitar conexões desnecessárias dentro das redes neurais artificiais. Em vez de conectar tudo com tudo, como muitos sistemas atuais fazem, a proposta é permitir conexões mais locais e seletivas, como acontece no cérebro. Isso pode reduzir bastante o gasto energético sem comprometer a eficiência. Em alguns casos, os pesquisadores também trabalham em técnicas que eliminam conexões supérfluas ao longo do aprendizado, lembrando o modo como o cérebro humano reorganiza seus circuitos com o tempo.

O objetivo não é apenas criar máquinas mais econômicas. A ambição é desenvolver computadores que consigam lidar melhor com informações incompletas, raciocínios menos lineares e tarefas que hoje os humanos resolvem com muito mais naturalidade do que qualquer algoritmo. Em vez de simplesmente aumentar o poder bruto das máquinas, a ideia é torná las mais inteligentes em sua própria estrutura.

No fim das contas, o cérebro humano continua sendo uma espécie de referência para o futuro da computação. Ele mostra que potência não precisa caminhar obrigatoriamente junto com desperdício. Enquanto a tecnologia avança em velocidade impressionante, a biologia segue lembrando que a solução mais sofisticada talvez já exista há milhares de anos dentro da nossa própria cabeça.

Se os computadores do futuro realmente quiserem ser mais eficientes, rápidos e sustentáveis, talvez o melhor caminho não seja apenas aumentar servidores, chips e consumo energético, mas olhar com mais atenção para o que o cérebro faz tão bem. Afinal, até agora, poucas máquinas conseguem competir com um sistema que funciona com apenas 20 watts e ainda dá conta de praticamente tudo o que nos torna humanos.

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Hortência é profissional de Letras, educadora, tatuadora e mãe. Apaixonada por arte e cultura, une seus múltiplos interesses que vão da cultura pop à gastronomia para produzir conteúdos variados e criativos.

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