É possível se divertir lendo e vendo absurdos tão absurdos que fazem o leitor ficar quase incrédulo de que aquilo está realmente nas páginas à sua frente? Shintaro Kago mostra que sim. Em Anamorfose (DarkSide Books, 2024), o mangaká mostra porque é um mestre do ero guro nansensu (erótico, grotesco e absurdo). A esses elementos o autor adiciona o humor negro, que dá seu toque único.

Anamorfose é uma antologia que contém a história que dá nome ao título e vários outros contos. Abaixo uma breve descrição de cada um dos contos, evitando dar spoiler para aqueles que ainda não leram.
Anamorfose
Seis pessoas participam de um reality show que dará o prêmio praquele que for o último a desistir de sair. O suspense e a paranoia vão aumentando na medida que participantes começam a morrer.

É a única história longa da antologia. Dividida em partes que se intercalam mostrando as perspectivas de dois grupos de personagens: os participantes do reality show; e um diretor que se prepara para iniciar o seu próximo filme, decidido a resgatar toda a magia cinematográfica do universo tokusatsu. Anamorfose vem de Ana Morphosis, que é tanto um reality show quanto um clube secreto e uma mansão.

A anamorfose é uma projeção distorcida que exige que o observador ocupe um ponto de vista específico, utilize dispositivos especiais ou ambos para visualizar uma imagem reconhecível.
A bela detetive Sagiri Tengai
Sagiri Tengai se apresenta como uma detetive, que se veste como uma estudante, que recebe o caso de um homem que foi preso suspeito de assassinar a própria esposa. Sagiri não hesita em usar seu próprio corpo para testar sua hipótese.
Aqui, assim como em Anamorfose, o autor faz uso de um quadro “explicativo” para dar clareza ao leitor da cena do suposto crime.
A mulher que atrai chuvas
Uma mulher atrai chuvas o tempo todo. Cansada de não conseguir viver como uma pessoa normal, ela vai parar em uma praia onde conhece um “cientista” que procura pessoas como ela para executar seu plano.
A personagem Rainy, de Death Stranding 2: On the Beach, jogo de Hideo Kojima lançado em 2025, evidentemente lembra a personagem deste conto. Mas não há nenhuma declaração de que Kojima teria se inspirado na personagem de Shintaro Kago.

Compartilhando
Mika Komiyama e seu professor têm um relacionamento e moram juntos. Mas seu relacionamento sexual parece ser constantemente interrompido pela vizinha que vem compartilhar comida.
Aluna nova
Uma aluna, ao chegar em sua nova escola, descobre que ela é a única aluna. Todos os professores estão desesperados para dar aulas. Recai sobre ela a tarefa de trazer de volta os outros estudantes de suas casas.
Aqui o autor aborda o hikikomori, fenômeno de isolamento social extremo e voluntário que ocorre no Japão.
Esquecimento
Uma mulher está se recuperando de uma cirurgia quando recebe de seu cirurgião a notícia de que será necessário realizar uma nova laparotomia pois esqueceram um bisturi dentro de sua barriga.
Caça predatória
Após descobrir que sua irmã mais nova foi um caçador na vida passada, uma mulher faz um acordo com o exorcista que a ajudou.
Empurrão nas vendas
Uma mulher falha repetidas vezes ao tentar salvar pessoas de suicídios. Até que um indivíduo lhe mostra que o responsável é o espírito de um lutador de sumô.
O Japão é um país que ainda apresenta um alta taxa de suicídios. Neste conto o autor uso o absurdo para unir esses suicídios com o sumô, esporte nacional oficial do Japão.
Transposição
Momoko descobre que partes do corpo podem trocar de lugar com outras partes de outros corpos.
Remodelação
Yuu acorda em quarto de hospital sem lembrar de como chegou ali ou porque está ali. A paranoia começa quando sua mãe entra no quarto.
Análise dos elementos que constituem a obra
Roteiro: Com exceção do primeiro conto, Anamorfose, todos os demais contos têm um roteiro muito enxuto, objetivo, intenso. Normalmente começa com um choque e passa para a aceitação, alcançando até mesmo o divertimento.
Ilustração: Os traços dos personagens em um primeiro momento parecem carecer de precisão, assim como os fundos de cenários carecendo de detalhamento. Mas este é um problema que se limita ao primeiro conto, Anamorfose. No demais contos esses elementos da ilustração combinam perfeitamente com a intensidade e o absurdo do roteiro.
Autor

Shintaro Kago nasceu em 1969 em Tóquio. Desde jovem almejava dedicar-se a trabalhos criativos e, embora tenha considerado a indústria cinematográfica, decidiu se tornar autor de mangá por sua afinidade com o desenho. Depois de estrear pela revista Comic Box em 1988 com o mangá Uchuu Dai Sakusen, conquistou uma ampla base de leitores publicando suas obras em diversas revistas de mangá para adultos.
O autodenominado autor bizarro de mangás apresenta uma visão surreal e absurda do mundo explorando os gêneros ero guro (erótico e grotesco), horror e ficção científica, com uso marcante do humor ácido. Atua também no segmento audiovisual e na produção de figuras de ação e objetos escatológicos.
Prêmios:
– 2010 – 3º Prêmio Mundial Baka-misu por Pedacinhos.
– 2013 – Prêmio honorário como convidado no XIX Salão de Mangá de Barcelona, na Espanha.
Reflexões finais
Shintaro Kago mostra em Anamorfose, a antologia, porque ele é um mestre do ero guro nansensu (erótico, grotesco e absurdo). É importante aqui distinguir Anamorfose, a obra antológica, de Anamorfose, a história que empresta seu nome ao título da antologia. Anamorfose, a história, é interessante. Mas não passa disso. Não empolga.
O autor realmente brilha nos demais contos curtos. Aí ele mostra todo o seu talento. Não há limites. Qualquer coisa pode acontecer. O erótico e o grotesco se unem em contos que parecem estar em uma competição para ver qual é o mais absurdo.
O elemento do absurdo, usado com total liberdade com os outros elementos, garante plot twists realmente inesperados. O absurdo é tanto que vai além de classificar o ocorrido nos contos como simplesmente sobrenatural.
O erótico e o grotesco, tudo sempre muito explícito, normalmente teriam como resultado final o choque. Mas a forma como Shintaro Kago usa o absurdo, o resultado final acaba sendo o humor negro, e a diversão.
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