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Shigahime: erotismo e body horror em uma renovação do mito do vampiro

Sangue, o fluido vital que circula em nossos corpos, está no cerne do mito do vampiro. Uma criatura que se mantem imortal sugando o sangue dos mortais. Desde a publicação de Drácula, de Bram Stoker, em 1897, o mito vampiresco se tornou sempre presente na cultura popular cosmopolita. Apresentando modificações e alterações ao longo do tempo, tem em Shigahime Vol. 1 (DarkSide Books, 2025) uma das mais novas versões do mito.

Capa de Shigahime Vol. 1.

Hirohisa Sato explora a dualidade entre erotismo e brutalidade, elementos característicos do mito, em uma roupagem moderna. Bullying, abandono, falta de motivação existencial, todos elementos presentes em muitos jovens da atualidade, fazem parte da trama. Estudantes de ensino médio têm suas vidas atravessadas por Miwako, a Shigahime (shiga = presas cadavéricas; hime = princesa) do título.

Páginas internas de Shigahime Vol. 1.

A trama acompanha Osamu Hirota, adolescente do ensino médio que se torna foco do desejo de Miwako. O tédio em que ambos vivam será transformado por um pacto mortal. Um pacto que lembra muito um pacto demoníaco, dado que Miwako tira muito mais de Hirota do que faz parecer que está entregando de volta.

Páginas iniciais coloridas de Shigahime Vol. 1.

Análise dos elementos que constituem a obra

Roteiro: O roteiro tem um ritmo rápido, mantendo a tensão constante ao longo da obra. O ritmo é tão ágil que os flashbacks são inseridos quase imperceptivelmente.

Ilustração: Os traços são belos, desenhados com precisão. Suavidade, textura e anatomia servindo tanto ao erotismo quanto ao body horror (horror corporal).

Autor

Hirohisa Sato é conhecido por construir tramas que exploram os conflitos mentais em meio a cenários tensos e carregados de suspense. Quase todo o trabalho de ilustração é feito por ele mesmo, sem o apoio de assistentes.

Obras:

Suzuki-san wa Tada Shizuka ni Kurashitai [Suzuki só Quer Viver em Paz, em tradução livre], na revista mensal Comic Zenon, da editora Tokuma Shoten (2015 a 2016).

Shigahime, na revista mensal Comic Zenon, da editora Tokuma Shoten (2017 a 2019).

Mother Parasite, na Web Comic Zenyon, da editora Coamix (2020 ao presente).

Tradução:

Letras:

Lilian Mitsunaga. É uma lendária letrista que começou sua carreira nos anos 1980 na Editora Abril.

Troféu HQ Mix de Melhor Letrista (1999).

Prêmio Angelo Agostini de Melhor Arte Técnica (2003).

Troféu HQ Mix de Homenagem Especial (2015).

Prêmio Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional (2022).

Reflexões finais

Shigahime é uma obra que dialoga muito bem com elementos contemporâneos críticos para muito jovens do ensino médio: bullying, abandono, falta de motivação existencial, e a descoberta da sexualidade.

O body horror, ou horror corporal, se mistura a esses elementos trazendo uma dualidade entre erotismo e violência extrema. Ao mesmo tempo em que resgata elementos clássicos da mitologia vampiresca como a presença de um carniçal. Um servo que vampiros usam para realizar tarefas fora de seus covis. É importante salientar que as palavras “vampiro” e “carniçal” não são mencionadas na obra. Em seus lugares, “mestre” e “servo”.  

A dualidade também se dá no elemento de desejo de Miwako/Shigahime: o coração. Ele é tanto um elemento físico de onde o sangue é espremido, quanto um simbolismo para o “coração puro” de seu servo, que ela busca corromper.

E chegando na parte final deste volume 1, parece indicar uma guinada em direção a um estilo shounen, um estilo que tem como base a ação e cenas de lutas. Vamos aguardar os próximos volumes.

Por fim, ademais de todos os temas abordados, a reflexão existencial fica na base mais importante da trama. Shigahime nos mostra que não basta existir, é necessário viver!

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Biólogo/geneticista pesquisador na área de evolução humana, genética de populações humanas, coevolução gene-cultura, videogames e sua interação com a ciência. Pesquisador colaborador no Game_Pesq, grupo de pesquisa sobre jogos eletrônicos, cultura e sociedade. Consultor científico no Science Game Center e no Molecular Jig Games. Autor no Nerdizmo.

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