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Pesadelos Completos Vol. 2: pesadelos ganham vida mais uma vez

Pesadelos ganham vida mais uma vez na perturbadora imaginação de Hideshi Hino. Nesta nova seleção antológica, os contos continuam perturbadores. Pesadelos vívidos onde Hino mostra todo seu talento em equilibrar uma ambientação desesperadora, muitas vezes angustiante, com uma sensibilidade de traumas subjacentes.

Capa de Pesadelos Completos Vol. 2.

Continuação de Pesadelos Completos (DarkSide Books, 2025), Pesadelos Completos Vol. 2 (DarkSide Books, 2026) reúne seis contos/estórias de Hideshi Hino, cinco delas publicadas originalmente entre 1970 e 1983, e uma bem mais recente, publicada originalmente no ano 2000.

Logo no começo há uma mensagem dizendo: “Esta antologia contém expressões consideradas impróprias nas convenções sociais atuais, mas elas foram mantidas como no original para respeitar o contexto histórico e a originalidade das obras em relação à época em que foram criadas.”. A questão é que toda obra é um reflexo de sua época. Assim como essa mesma mensagem é um reflexo da época atual, onde parece ter se tornado necessário explicar o óbvio. 

A flor vermelha

Publicado originalmente em 1972.

Um dono de floricultura esconde um segredo para seus arranjos florais serem sempre premiados.

Mesmo um conto envolvendo um assassino em série, elemento extremamente comum nos gêneros de suspense e terror, ganha outro nível de perturbação nas mãos de Hino.

Cenas envolvendo canibalismo e excrementos andam ao lado de cenas que mostram uma aranha capturando uma borboleta. Transmitindo ao mesmo tempo uma delicadeza com a inevitabilidade do ato.

O boneco de barro

Publicado originalmente em 1970.

Um grupo de crianças, todos com deformidades causadas pela poluição, brincam enquanto constroem um boneco de barro.

Aqui vemos novamente um cenário recorrente nas obras de Hino: uma cidade poluída, com sombrias chaminés soltando fumaça. O impacto dessa poluição é diretamente mostrado nas crianças que moram no entorno, com cada cor da fumaça colorida causando distintas deformidades em cada uma das crianças.

O boneco de barro surge como um elemento catártico, um grito de angústia de uma geração que pede socorro e reparação.

Um conto triste e poético.

O peixe sem escamas

Publicado originalmente em 1975.

Shigeo, um menino vivendo em uma vila de pescadores, tem pesadelos e alucinações por causa do calor enlouquecedor.

O elemento recorrente se faz presente no começo do conto aqui mais uma vez: as chaminés soltando fumaça ao fundo. O peixe, também um personagem central no enredo, aparece deformado, novamente mais um reflexo da poluição ambiental representada pelas chaminés.

O calor enlouquecedor surge aqui como elemento que gera uma dúvida kafkiana: qual é a verdadeira alucinação do personagem principal?

A isolada ilha ilusória

Publicado originalmente em 1971.

Um homem se encontra em uma ilha isolada, sem saber quem é e nem como foi parar ali.

Este conto se assemelha mais aos vistos no volume 1 de Pesadelos Completos, com o autor sempre lidando com o putrefato, doença, deformações, fezes, urina. E apesar de o cenário em uma ilha isolada, as chaminés lançando gases poluentes aparecem representadas por um vulcão ativo. Aqui o autor faz uso de metalinguagem, aparentemente fazendo uma reflexão da própria vida como autor.

A serpente vermelha

Publicado originalmente em 1983.

Um menino vive em uma gigantesca casa, com sua família de hábitos peculiares, de onde tenta escapar.

Página interna de Pesadelos Completos Vol. 2.

O principal e maior conto desta antologia, com 188 páginas, é também o mais intenso e desesperador. O menino, personagem principal, é o único “normal” na casa. Seus avós, pais e irmã mostram claros sinais de perturbações mentais. Há também insinuações eróticas entre o avô e a mãe, e entre a irmã e insetos e serpentes. O caos existencial dentro da casa se torna crescente até que chega em um ponto absurdo frenético, e então uma ruptura/mudança de ritmo ocorre quando o personagem atravessa o espelho. Tal qual Alice através do espelho, o menino vai perceber que o que ainda aparenta ser a casa, na verdade já é outro lugar. Por fim, ao ver o que espera o menino, é inevitável pensar no Mito de Sísifo: o inferno é a repetição, e a inescapabilidade desse destino.

O monstro da água: O inferno do amanhã – Terra, 2020

Publicado originalmente em 2000.

Um casal de idosos vive sozinho em um mundo pós-apocalíptico.

Este conto, publicado décadas depois dos demais presentes nesta antologia, já apresenta traços claramente distintos das décadas de 70 e 80. Aqui o horror muda da ambientação no passado ou presente para um futuro pós-apocalíptico. A poluição ambiental aparece aqui novamente, e em escala muito maior, como a fonte do horror existencial. Um horror que é contraposto com a delicadeza e cuidado com que o casal de idosos tem um com o outro.

Autor

Hideshi Hino, pseudônimo de Yasushi Hoshino, nasceu em Qiqihar, Manchúria, em 1946. Com 1 ano de idade foi para o Japão como repatriado. Essa origem fez com que Hino carregasse um complexo, questionando-se constantemente se seria ou não japonês. Fez sua estreia como mangaka (artista de mangá) aos 21 anos em 1967 com Tsumetai Ase, publicado na COM.

Inicialmente Hino aspirava o gênero comédia, mas isso muda após ver os traços de Fujio Akatsuka e os roteiros de Ray Bradbury em Uma sombra passou por aqui.

Tradução:

Reflexões finais

Há algo de muito autêntico nos pesadelos de Hino. Os cenários passam claramente a sensação de angústia, desespero, e a sensação de urgência de fuga, todas características de pesadelos. Essas sensações são acrescidas da representação muito clara do putrefato, sangue, esquartejamentos, excrementos, urina… tudo combinado em uma repulsividade que ainda assim prende o leitor pela forma como a narrativa é conduzida.

Com tudo isso, ainda assim o leitor vai ser sentir atraído pelos contos, pois Hino consegue inserir sensibilidade em meio as tramas. Há um tom melancólico ao observar os personagens em situações que são tão ou mais tristes do que assustadoras. Há também uma notável identificação com o mundo moderno pela ênfase na poluição ambiental. Já presente nos contos do autor nos anos 70, continuam atuais ao vermos o impacto cada vez maior da crise ambiental. Por fim, o fato de a grande maioria dos personagens principais não ter nomes permite com que o leitor se sinta inserido nos eventos que estão se revelando diante de seus olhos.

Comparativamente ao volume 1, onde o autor mostrava claramente o impacto dos traumas de infância em sua arte, neste volume 2 estes traumas incorporados moldam reflexões vindas do presente e até mesmo preocupações com o futuro.

Pesadelos Completos 2 reforça que Hideshi Hino é um mestre em tornar pesadelos vívidos, aliando o assustador, o grotesco e o sensível. Ao fechar o mangá o leitor vai perceber que, ao contrário de nossos pesadelos, que são esquecidos pouco após acordar, os pesadelos de Hino ficarão em nossas memórias.

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Biólogo/geneticista pesquisador na área de evolução humana, genética de populações humanas, coevolução gene-cultura, videogames e sua interação com a ciência. Pesquisador colaborador no Game_Pesq, grupo de pesquisa sobre jogos eletrônicos, cultura e sociedade. Consultor científico no Science Game Center e no Molecular Jig Games. Autor no Nerdizmo.

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